Gevanilda Santos, Gê: sete décadas de luta, resistência e alegria.

Há vidas que atravessam a história e há vidas que ajudam a fazê-la. A trajetória de Gevanilda Gomes dos Santos, a nossa Gê, pertence a esse segundo grupo. Ao completar 70 anos, no dia 29 de setembro, sua história nos permite acompanhar algumas das transformações importantes da luta negra brasileira das últimas décadas: das experiências de educação e organização política durante a ditadura militar à formação de coletivos negros nas universidades; da construção de organizações autônomas do movimento negro brasileiro às articulações internacionais de enfrentamento ao racismo.
Mas contar a história de Gê significa também falar de família, de território, de trabalho, de amizades, de maternidade, de estudos, de viagens, de alegrias e afetos. Significa olhar para uma mulher cuja trajetória atravessou diferentes espaços sem perder aquilo que talvez seja uma de suas características mais marcantes: a capacidade de reunir pessoas, compartilhar conhecimentos e acreditar na possibilidade de transformação.
Da Chapada Diamantina à Casa Verde
Gevanilda Santos nasceu em 29 de setembro de 1956, em Presidente Prudente, no interior do estado de São Paulo. Sua história familiar, entretanto, nos conduz a outra geografia: Rio de Contas, na região da Chapada Diamantina, na Bahia, território ao qual estão ligadas as raízes quilombolas de sua família.
Seus pais, Odete Gomes dos Santos e Epaminondas José dos Santos, fizeram parte dos deslocamentos de famílias negras que deixaram a Bahia em direção a São Paulo. Depois de se estabelecerem no estado, constituíram sua família. Ainda durante a infância de Gevanilda, mudaram-se para a capital paulista.
Foi na Casa Verde, na Zona Norte de São Paulo, que Gê passou grande parte da infância, da adolescência e da juventude, ao lado dos pais e dos irmãos Gileno, Genulino, Gevalci e Gilson. A família viveu em diferentes endereços do bairro: ruas Belizário Campanhã, Lucila, Artur de Oliveira, Itaju, Jorge Brand, além da Avenida Casa Verde e da Rua Manoel Garcia. Mais do que uma sequência de endereços, essas mudanças ajudam a reconstruir a geografia cotidiana na qual Gê cresceu, fez amizades, estudou e começou a perceber o mundo à sua volta.
A Casa Verde ocupa um lugar importante na história das sociabilidades negras paulistanas. Ao longo do século XX, a região abrigou famílias negras, associações, escolas de samba, bailes, iniciativas culturais e diferentes experiências de organização comunitária. Pesquisas sobre o associativismo negro em São Paulo mostram, inclusive, a presença da Associação Cultural do Negro na Casa Verde, permitindo perceber o bairro como parte de uma extensa cartografia negra da cidade.
Gevanilda estudou nos primeiros anos na Escola Estadual Padre Manoel de Nóbrega, localizada na Rua Reims. Sua irmã Gevalci guarda lembranças que ajudam a revelar uma Gê ainda menina e adolescente, antes da historiadora, da professora universitária e da militante conhecida nacionalmente.
Entre essas memórias está o aniversário de dez anos de Gevalci. A família morava então na Rua Lucila, nº 30, e foi Gevanilda quem preparou o bolo para comemorar o aniversário da irmã. Antes de ocupar salas de aulas, reuniões, universidades e fóruns internacionais, Gê ocupava também a cozinha de casa, preparava o bolo da irmã e participava das alegrias cotidianas de sua família.
A Casa Verde era ainda espaço de diversão e convivência. A família frequentava lugares como o Laranjeiras e o Ás de Ouro, onde aconteciam bailes e outros eventos. Esses espaços integravam circuitos de sociabilidade frequentados pela população negra da região e também fizeram parte da formação social e afetiva de Gevanilda. Família, bairro, escola, bailes, amizades e convivência comunitária compõem, portanto, uma primeira paisagem de sua história.
Estudo, trabalho e juventude durante a ditadura
Mais tarde, Gevanilda prestou vestibular e ingressou no curso de História da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, a PUC-SP. Chegar à universidade não significou abandonar o trabalho. Gê precisou conciliar estudo e emprego para custear sua formação. Entre os lugares em que trabalhou esteve a Elka Plásticos Ltda.
Sua juventude universitária transcorreu em um dos períodos mais duros da história política brasileira. O país vivia sob a ditadura militar, regime sustentado por estruturas de vigilância, censura, perseguição política e repressão. O movimento estudantil, as organizações de trabalhadores, movimentos sociais e diferentes formas de oposição eram acompanhados pelos órgãos de segurança.
As organizações negras também foram objeto dessa vigilância. Documentos produzidos pelos órgãos repressivos demonstram que ativistas e entidades dedicados ao combate ao racismo foram acompanhados e, muitas vezes, interpretados pelas autoridades a partir da lógica da suspeição política.
Na PUC-SP, essa repressão entrou literalmente pelos portões da universidade. Em 22 de setembro de 1977, tropas policiais comandadas pelo então secretário de Segurança Pública de São Paulo, coronel Erasmo Dias, invadiram o campus da PUC-SP. Estudantes estavam mobilizados em torno da reorganização do movimento estudantil e da realização do III Encontro Nacional de Estudantes. A universidade foi cercada, centenas de pessoas foram detidas e estudantes ficaram feridos.
Gevanilda não foi presa naquela noite, mas sua irmã Gevalci recorda a enorme preocupação provocada pelo episódio dentro de casa, especialmente em seu pai, Epaminondas. A ditadura, portanto, não foi para aquela família apenas um acontecimento distante, lido nos jornais ou posteriormente estudado nos livros de História. Ela atravessou a experiência cotidiana de uma jovem negra universitária e chegou também à inquietação de seus pais e irmãos.
CECAN: cultura, educação e formação política
Foi também durante a juventude que Gevanilda iniciou sua militância no Centro de Cultura e Arte Negra — CECAN, organização fundamental para compreender a reorganização do movimento negro em São Paulo nos anos 1970.
Durante minhas pesquisas no acervo pessoal de Joana Maria Ferreira da Silva, encontrei atas de reuniões relacionadas à organização de um curso de madureza, modalidade de educação destinada a jovens e adultos. Entre os nomes e assinaturas presentes nesses documentos aparece o de Gevanilda Santos. Esse registro é precioso porque permite enxergar uma dimensão que atravessaria toda a sua trajetória: a relação entre educação, consciência racial e organização política.
Antes de se tornar professora universitária, antes da Soweto e antes das articulações internacionais, Gê já participava de uma experiência coletiva preocupada em criar possibilidades de formação para pessoas que não haviam concluído sua escolarização.
O CECAN articulava cultura, educação e enfrentamento ao racismo e reuniu uma geração importante do movimento negro paulistano. Teatro, reuniões, debates, atividades educativas e formação política constituíram algumas de suas frentes de atuação. A presença de Gevanilda na organização daquele curso de madureza revela, portanto, algo que permaneceria em sua vida por décadas: para Gê, conhecimento precisa circular.
O Grupo Negro da PUC
Na universidade, essa preocupação encontraria uma nova forma de organização. Em 1979, estudantes criaram o Grupo Negro da PUC-SP, que se tornaria uma importante experiência de articulação de estudantes negros no interior da universidade.
O grupo discutia racismo, educação, mercado de trabalho, condições de vida da população negra e a própria ausência da história e da experiência negra nos espaços acadêmicos. A universidade era compreendida não apenas como lugar de obtenção de um diploma, mas como espaço no qual também era necessário disputar conhecimentos, narrativas e possibilidades de transformação social.
Gevanilda participou ativamente dessa experiência e, anos depois, registraria parte de sua história no artigo “Grupo Negro da PUC”, publicado em 1987 nos Cadernos de Pesquisa. Entre os nomes relacionados à experiência do grupo estão Gevanilda Santos, Flávio Jorge Rodrigues da Silva, Edna Muniz de Souza, Emilson André Jacinto, Maria Inês da Silva Barbosa, Maria José Pereira dos Santos — Majô —, Deborah Santos, Álvaro Roberto Pires, Ben-Hur Ferreira, Roseli de Oliveira e Suelma Inês Alves de Deus, entre outros participantes que fizeram parte daquela geração.
O Grupo Negro da PUC permaneceu atuante até 1988. Naquele ano, quando o Brasil realizava as comemorações oficiais do centenário da Abolição, organizações negras em diferentes partes do país questionavam a ideia de uma liberdade plenamente realizada em 13 de maio de 1888. A trajetória acadêmica de Gevanilda prosseguiria nos anos seguintes, com o mestrado e o aprofundamento de sua formação intelectual. Estudo, trabalho e militância nunca aparecem em sua história como universos isolados. Ao contrário: constantemente se cruzam.
A criação da Soweto Organização Negra
A experiência acumulada em organizações negras, na universidade e em outros espaços de militância desembocaria, no início dos anos 1990, em uma nova construção coletiva.
Em 1991, Gevanilda esteve entre as pessoas que fundaram a Soweto OrganizaçãoNegra, em São Paulo. Participaram de sua fundação Antonio Santos, Arnaldo França Xavier, Cleide de Paula, Damaris de Figueiredo, Edna Muniz de Souza, Emilson André Jacinto, Flávio Jorge Rodrigues da Silva, Gevanilda Gomes dos Santos, João Batista de Jesus Felix, José Francisco, José Galvão Mesquita, José Roberto Barbosa, Luís Carlos de Freitas, Maria do Carmo Sales Monteiro, Maria Inês da Silva Barbosa, Maria José Pereira dos Santos, Matilde Ribeiro, Paulo Rafael da Silva, Ramatis Jacino, Sebastião José e Suelma Inês Alves de Deus.
A Soweto nasceu comprometida com o enfrentamento ao racismo e às desigualdades que atingiam a população negra brasileira, articulando formação política, educação, produção de conhecimento, memória e intervenção social.
A presença das mulheres negras esteve colocada desde os primeiros momentos da organização. Em março de 1991 foi constituído um Núcleo de Mulheres Negras da Soweto, do qual Gevanilda participou, em uma experiência preocupada em articular as desigualdades de raça, gênero e classe.
Ao longo das décadas seguintes, Gê esteve à frente ou participou de inúmeras atividades de formação, debates públicos, cursos, articulações políticas e iniciativas de educação antirracista.
E foi dentro dessa história que, muitos anos depois, nossos caminhos se encontraram.
Quando conheci a Gê
Conheci Gevanilda Santos em 2004, por intermédio da minha amiga e companheira de luta do movimento estudantil de história Renata Melo Barbosa. Naquela época trabalhávamos no Centro Cultural do Jabaquara, atualmente conhecido como Centro de Culturas Negras. A partir daquele encontro comecei também a acompanhar mais de perto a Soweto Organização Negra, entidade na qual permaneci entre 2004 e 2020.
Durante esses anos vi Gevanilda realizar aquilo que sempre esteve presente em sua trajetória: articular pessoas, conhecimentos e organizações. Vi Gê participar da organização de cursos sobre a questão racial para o Sindicato das Trabalhadoras Domésticas em Campinas, compartilhar formação política, construir diálogos com diferentes movimentos sociais e estabelecer relações com organizações ligadas ao Fórum Social Mundial.
Não era simplesmente uma questão de participar de reuniões. Havia uma compreensão de que combater o racismo exigia formação, circulação de ideias, construção coletiva e disposição para estabelecer pontes.
Nairóbi: atravessar o Atlântico e voltar para contar
Uma dessas articulações nos levou ao Quênia, em 2007. Entre 20 e 25 de janeiro daquele ano, Nairóbi recebeu o VII Fórum Social Mundial. Para nós, integrantes de uma organização negra brasileira, participar de um Fórum realizado no continente africano carregava significados que iam muito além de uma viagem internacional.
Era também atravessar o Atlântico em outra direção. Participamos das atividades, conhecemos organizações, conversamos com militantes de diferentes países e observamos de perto as contradições daquele enorme encontro internacional.
Quando voltamos ao Brasil, fizemos algo que era muito característico da forma de atuação da Soweto: organizamos conversas para compartilhar a experiência. Viajar não significava guardar para si aquilo que havíamos aprendido. Era necessário retornar, reunir pessoas e contar o que tínhamos visto, ouvido e vivido.
Também escrevemos. Gevanilda Santos, Suelma Inês e eu registramos aquela experiência em um texto inicialmente divulgado pela Ciranda Internacional da Comunicação Compartilhada. A decisão de escrever nasceu também da necessidade de registrar criticamente aquilo que havíamos encontrado em Nairóbi e nos fez sentir como disse Paulo Freire: como se “estivéssemos voltando”, mas também escrevemos porque presenciamos situações de racismo que, segundo nossa experiência naquele encontro, atravessaram a própria organização do Fórum.
Posteriormente, o texto foi publicado em inglês na revista Souls, vinculada ao Center for Contemporary Black History da Columbia University, com o título Diary of a Journey to Nairobi: Impressions from the Brazilian Black Movement of the City and People Who Hosted the World Social Forum VII. O artigo tornou-se também memória de uma experiência coletiva: três mulheres negras brasileiras escrevendo sobre sua passagem pelo continente africano e sobre as contradições observadas em um espaço internacional que se propunha a discutir outros mundos possíveis.
De Nairóbi a Dacar
Alguns anos depois, nossas travessias nos levariam novamente ao continente africano. Em 2011, participamos do Fórum Social Mundial realizado em Dacar, no Senegal, entre os dias 6 e 11 de fevereiro, no campus da Universidade Cheikh Anta Diop. As articulações internacionais significaram compartilhar experiências de lutas da população negra brasileira em diálogo com movimentos de mulheres, organizações antirracistas e outras experiências de enfrentamento às desigualdades existentes em diferentes partes do mundo.
Professora, pesquisadora e formadora de gerações
Ao longo de sua vida, Gevanilda construiu também uma sólida trajetória intelectual. Historiadora, pesquisadora das relações raciais, professora universitária e autora de livros e artigos. Dedicou parte significativa de sua produção a compreender as desigualdades raciais brasileiras e suas relações com educação, trabalho, classe, gênero e cidadania.
A sala de aula, os cursos realizados junto aos movimentos sociais, os grupos de estudo, as reuniões da Soweto e os espaços internacionais fizeram parte de um mesmo compromisso: compreender a realidade para encontrar formas de transformá-la.
Aposentada como professora universitária, Gê vive atualmente em Salvador. Permanece ligada à Soweto Organização Negra, continua participando da luta antirracista e mantém sua atuação política no Partido dos Trabalhadores em Salvador.
E ela segue inventando projetos: agora estamos construindo em conjunto o Clube de Leitura Feminista Thereza Santos, uma experiência em torno de algo que marca Gevanilda desde a juventude: pessoas reunidas para ler, conversar, trocando experiências e gerando conhecimento coletivamente.
Gê, entre a história pública e a história da família
Entretanto, nenhuma trajetória pode ser compreendida apenas por meio das organizações das quais uma pessoa participou. Nas lembranças de sua irmã Gevalci, Gevanilda aparece também como irmã solidária, presente nos momentos alegres e nas dificuldades atravessadas pela família.
Estão nessas memórias o bolo preparado para o aniversário de dez anos, os anos de estudo, as preocupações dos pais durante a ditadura militar, os tempos difíceis, o casamento, o nascimento dos filhos, a chegada dos netos, as doenças enfrentadas pela família, as despedidas de pessoas queridas e as mudanças que a vida foi impondo.
Gevanilda é mãe da Marina Jorge e do Pedro Jorge, avó do Zion e da Isadora, sogra da Shirley e do Dimitri e tia de vários sobrinhos e sobrinhas. Ao lado da historiadora, professora, militante e intelectual, há, portanto, uma história familiar feita de vínculos, cuidados, perdas, reencontros e afetos.
Setenta anos e muita vida para celebrar
Dizer que Gevanilda Santos é uma referência para diferentes gerações de mulheres negras não é apenas reconhecer as organizações das quais participou ou os textos que escreveu é também reconhecer sua forma de estar no mundo. Para muitas de nós, Gevanilda é farol, sua trajetória ilumina um caminho que ajudou diferentes gerações a enxergar possibilidades de lutas antirracistas, por um mundo mais justo e solidário.
Gê, também gosta muito de viver, é uma mulher bem-humorada, capaz de transformar uma conversa em gargalhada, uma reunião em aprendizado e uma dificuldade em motivo para imaginar o próximo passo.
Há nela uma esperança insistente e talvez essa seja também uma das lições políticas mais bonitas de sua trajetória: combater o racismo não significa permitir que o racismo determine toda a nossa existência.
É preciso lutar, mas é preciso também viver, rir, amar, construir amizades e continuar acreditando… Esperançar!
Viva Gê! Viva seus 70 anos!
Viva sua família, suas amizades, sua alegria, sua luta e sua história.
Vida longa a Gevanilda Santos!
Texto por Gal Souza com a colaboração de Gevalci Santos, sua irmã.
Referências consultadas
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