Gevanilda Santos, Gê: sete décadas de luta, resistência e alegria.

Há vidas que atravessam a história e há vidas que ajudam a fazê-la. A trajetória de Gevanilda Gomes dos Santos, a nossa Gê, pertence a esse segundo grupo. Ao completar 70 anos, no dia 29 de setembro, sua história nos permite acompanhar algumas das transformações importantes da luta negra brasileira das últimas décadas: das experiências de educação e organização política durante a ditadura militar à formação de coletivos negros nas universidades; da construção de organizações autônomas do movimento negro brasileiro às articulações internacionais de enfrentamento ao racismo.
Mas contar a história de Gê significa também falar de família, de território, de trabalho, de amizades, de maternidade, de estudos, de viagens, de alegrias e afetos. Significa olhar para uma mulher cuja trajetória atravessou diferentes espaços sem perder aquilo que talvez seja uma de suas características mais marcantes: a capacidade de reunir pessoas, compartilhar conhecimentos e acreditar na possibilidade de transformação.
Da Chapada Diamantina à Casa Verde
Gevanilda Santos nasceu em 29 de setembro de 1956, em Presidente Prudente, no interior do estado de São Paulo. Sua história familiar, entretanto, nos conduz a outra geografia: Rio de Contas, na região da Chapada Diamantina, na Bahia, território ao qual estão ligadas as raízes quilombolas de sua família.
Seus pais, Odete Gomes dos Santos e Epaminondas José dos Santos, fizeram parte dos deslocamentos de famílias negras que deixaram a Bahia em direção a São Paulo. Depois de se estabelecerem no estado, constituíram sua família. Ainda durante a infância de Gevanilda, mudaram-se para a capital paulista.
Foi na Casa Verde, na Zona Norte de São Paulo, que Gê passou grande parte da infância, da adolescência e da juventude, ao lado dos pais e dos irmãos Gileno, Genulino, Gevalci e Gilson. A família viveu em diferentes endereços do bairro: ruas Belizário Campanhã, Lucila, Artur de Oliveira, Itaju, Jorge Brand, além da Avenida Casa Verde e da Rua Manoel Garcia. Mais do que uma sequência de endereços, essas mudanças ajudam a reconstruir a geografia cotidiana na qual Gê cresceu, fez amizades, estudou e começou a perceber o mundo à sua volta.
A Casa Verde ocupa um lugar importante na história das sociabilidades negras paulistanas. Ao longo do século XX, a região abrigou famílias negras, associações, escolas de samba, bailes, iniciativas culturais e diferentes experiências de organização comunitária. Pesquisas sobre o associativismo negro em São Paulo mostram, inclusive, a presença da Associação Cultural do Negro na Casa Verde, permitindo perceber o bairro como parte de uma extensa cartografia negra da cidade.
Gevanilda estudou nos primeiros anos na Escola Estadual Padre Manoel de Nóbrega, localizada na Rua Reims. Sua irmã Gevalci guarda lembranças que ajudam a revelar uma Gê ainda menina e adolescente, antes da historiadora, da professora universitária e da militante conhecida nacionalmente.
Entre essas memórias está o aniversário de dez anos de Gevalci. A família morava então na Rua Lucila, nº 30, e foi Gevanilda quem preparou o bolo para comemorar o aniversário da irmã. Antes de ocupar salas de aulas, reuniões, universidades e fóruns internacionais, Gê ocupava também a cozinha de casa, preparava o bolo da irmã e participava das alegrias cotidianas de sua família.
A Casa Verde era ainda espaço de diversão e convivência. A família frequentava lugares como o Laranjeiras e o Ás de Ouro, onde aconteciam bailes e outros eventos. Esses espaços integravam circuitos de sociabilidade frequentados pela população negra da região e também fizeram parte da formação social e afetiva de Gevanilda. Família, bairro, escola, bailes, amizades e convivência comunitária compõem, portanto, uma primeira paisagem de sua história.
Estudo, trabalho e juventude durante a ditadura
Mais tarde, Gevanilda prestou vestibular e ingressou no curso de História da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, a PUC-SP. Chegar à universidade não significou abandonar o trabalho. Gê precisou conciliar estudo e emprego para custear sua formação. Entre os lugares em que trabalhou esteve a Elka Plásticos Ltda.
Sua juventude universitária transcorreu em um dos períodos mais duros da história política brasileira. O país vivia sob a ditadura militar, regime sustentado por estruturas de vigilância, censura, perseguição política e repressão. O movimento estudantil, as organizações de trabalhadores, movimentos sociais e diferentes formas de oposição eram acompanhados pelos órgãos de segurança.
As organizações negras também foram objeto dessa vigilância. Documentos produzidos pelos órgãos repressivos demonstram que ativistas e entidades dedicados ao combate ao racismo foram acompanhados e, muitas vezes, interpretados pelas autoridades a partir da lógica da suspeição política.
Na PUC-SP, essa repressão entrou literalmente pelos portões da universidade. Em 22 de setembro de 1977, tropas policiais comandadas pelo então secretário de Segurança Pública de São Paulo, coronel Erasmo Dias, invadiram o campus da PUC-SP. Estudantes estavam mobilizados em torno da reorganização do movimento estudantil e da realização do III Encontro Nacional de Estudantes. A universidade foi cercada, centenas de pessoas foram detidas e estudantes ficaram feridos.
Gevanilda não foi presa naquela noite, mas sua irmã Gevalci recorda a enorme preocupação provocada pelo episódio dentro de casa, especialmente em seu pai, Epaminondas. A ditadura, portanto, não foi para aquela família apenas um acontecimento distante, lido nos jornais ou posteriormente estudado nos livros de História. Ela atravessou a experiência cotidiana de uma jovem negra universitária e chegou também à inquietação de seus pais e irmãos.
CECAN: cultura, educação e formação política
Foi também durante a juventude que Gevanilda iniciou sua militância no Centro de Cultura e Arte Negra — CECAN, organização fundamental para compreender a reorganização do movimento negro em São Paulo nos anos 1970.
Durante minhas pesquisas no acervo pessoal de Joana Maria Ferreira da Silva, encontrei atas de reuniões relacionadas à organização de um curso de madureza, modalidade de educação destinada a jovens e adultos. Entre os nomes e assinaturas presentes nesses documentos aparece o de Gevanilda Santos. Esse registro é precioso porque permite enxergar uma dimensão que atravessaria toda a sua trajetória: a relação entre educação, consciência racial e organização política.
Antes de se tornar professora universitária, antes da Soweto e antes das articulações internacionais, Gê já participava de uma experiência coletiva preocupada em criar possibilidades de formação para pessoas que não haviam concluído sua escolarização.
O CECAN articulava cultura, educação e enfrentamento ao racismo e reuniu uma geração importante do movimento negro paulistano. Teatro, reuniões, debates, atividades educativas e formação política constituíram algumas de suas frentes de atuação. A presença de Gevanilda na organização daquele curso de madureza revela, portanto, algo que permaneceria em sua vida por décadas: para Gê, conhecimento precisa circular.
O Grupo Negro da PUC
Na universidade, essa preocupação encontraria uma nova forma de organização. Em 1979, estudantes criaram o Grupo Negro da PUC-SP, que se tornaria uma importante experiência de articulação de estudantes negros no interior da universidade.
O grupo discutia racismo, educação, mercado de trabalho, condições de vida da população negra e a própria ausência da história e da experiência negra nos espaços acadêmicos. A universidade era compreendida não apenas como lugar de obtenção de um diploma, mas como espaço no qual também era necessário disputar conhecimentos, narrativas e possibilidades de transformação social.
Gevanilda participou ativamente dessa experiência e, anos depois, registraria parte de sua história no artigo “Grupo Negro da PUC”, publicado em 1987 nos Cadernos de Pesquisa. Entre os nomes relacionados à experiência do grupo estão Gevanilda Santos, Flávio Jorge Rodrigues da Silva, Edna Muniz de Souza, Emilson André Jacinto, Maria Inês da Silva Barbosa, Maria José Pereira dos Santos — Majô —, Deborah Santos, Álvaro Roberto Pires, Ben-Hur Ferreira, Roseli de Oliveira e Suelma Inês Alves de Deus, entre outros participantes que fizeram parte daquela geração.
O Grupo Negro da PUC permaneceu atuante até 1988. Naquele ano, quando o Brasil realizava as comemorações oficiais do centenário da Abolição, organizações negras em diferentes partes do país questionavam a ideia de uma liberdade plenamente realizada em 13 de maio de 1888. A trajetória acadêmica de Gevanilda prosseguiria nos anos seguintes, com o mestrado e o aprofundamento de sua formação intelectual. Estudo, trabalho e militância nunca aparecem em sua história como universos isolados. Ao contrário: constantemente se cruzam.
A criação da Soweto Organização Negra
A experiência acumulada em organizações negras, na universidade e em outros espaços de militância desembocaria, no início dos anos 1990, em uma nova construção coletiva.
Em 1991, Gevanilda esteve entre as pessoas que fundaram a Soweto OrganizaçãoNegra, em São Paulo. Participaram de sua fundação Antonio Santos, Arnaldo França Xavier, Cleide de Paula, Damaris de Figueiredo, Edna Muniz de Souza, Emilson André Jacinto, Flávio Jorge Rodrigues da Silva, Gevanilda Gomes dos Santos, João Batista de Jesus Felix, José Francisco, José Galvão Mesquita, José Roberto Barbosa, Luís Carlos de Freitas, Maria do Carmo Sales Monteiro, Maria Inês da Silva Barbosa, Maria José Pereira dos Santos, Matilde Ribeiro, Paulo Rafael da Silva, Ramatis Jacino, Sebastião José e Suelma Inês Alves de Deus.
A Soweto nasceu comprometida com o enfrentamento ao racismo e às desigualdades que atingiam a população negra brasileira, articulando formação política, educação, produção de conhecimento, memória e intervenção social.
A presença das mulheres negras esteve colocada desde os primeiros momentos da organização. Em março de 1991 foi constituído um Núcleo de Mulheres Negras da Soweto, do qual Gevanilda participou, em uma experiência preocupada em articular as desigualdades de raça, gênero e classe.
Ao longo das décadas seguintes, Gê esteve à frente ou participou de inúmeras atividades de formação, debates públicos, cursos, articulações políticas e iniciativas de educação antirracista.
E foi dentro dessa história que, muitos anos depois, nossos caminhos se encontraram.
Quando conheci a Gê
Conheci Gevanilda Santos em 2004, por intermédio da minha amiga e companheira de luta do movimento estudantil de história Renata Melo Barbosa. Naquela época trabalhávamos no Centro Cultural do Jabaquara, atualmente conhecido como Centro de Culturas Negras. A partir daquele encontro comecei também a acompanhar mais de perto a Soweto Organização Negra, entidade na qual permaneci entre 2004 e 2020.
Durante esses anos vi Gevanilda realizar aquilo que sempre esteve presente em sua trajetória: articular pessoas, conhecimentos e organizações. Vi Gê participar da organização de cursos sobre a questão racial para o Sindicato das Trabalhadoras Domésticas em Campinas, compartilhar formação política, construir diálogos com diferentes movimentos sociais e estabelecer relações com organizações ligadas ao Fórum Social Mundial.
Não era simplesmente uma questão de participar de reuniões. Havia uma compreensão de que combater o racismo exigia formação, circulação de ideias, construção coletiva e disposição para estabelecer pontes.
Nairóbi: atravessar o Atlântico e voltar para contar
Uma dessas articulações nos levou ao Quênia, em 2007. Entre 20 e 25 de janeiro daquele ano, Nairóbi recebeu o VII Fórum Social Mundial. Para nós, integrantes de uma organização negra brasileira, participar de um Fórum realizado no continente africano carregava significados que iam muito além de uma viagem internacional.
Era também atravessar o Atlântico em outra direção. Participamos das atividades, conhecemos organizações, conversamos com militantes de diferentes países e observamos de perto as contradições daquele enorme encontro internacional.
Quando voltamos ao Brasil, fizemos algo que era muito característico da forma de atuação da Soweto: organizamos conversas para compartilhar a experiência. Viajar não significava guardar para si aquilo que havíamos aprendido. Era necessário retornar, reunir pessoas e contar o que tínhamos visto, ouvido e vivido.
Também escrevemos. Gevanilda Santos, Suelma Inês e eu registramos aquela experiência em um texto inicialmente divulgado pela Ciranda Internacional da Comunicação Compartilhada. A decisão de escrever nasceu também da necessidade de registrar criticamente aquilo que havíamos encontrado em Nairóbi e nos fez sentir como disse Paulo Freire: como se “estivéssemos voltando”, mas também escrevemos porque presenciamos situações de racismo que, segundo nossa experiência naquele encontro, atravessaram a própria organização do Fórum.
Posteriormente, o texto foi publicado em inglês na revista Souls, vinculada ao Center for Contemporary Black History da Columbia University, com o título Diary of a Journey to Nairobi: Impressions from the Brazilian Black Movement of the City and People Who Hosted the World Social Forum VII. O artigo tornou-se também memória de uma experiência coletiva: três mulheres negras brasileiras escrevendo sobre sua passagem pelo continente africano e sobre as contradições observadas em um espaço internacional que se propunha a discutir outros mundos possíveis.
De Nairóbi a Dacar
Alguns anos depois, nossas travessias nos levariam novamente ao continente africano. Em 2011, participamos do Fórum Social Mundial realizado em Dacar, no Senegal, entre os dias 6 e 11 de fevereiro, no campus da Universidade Cheikh Anta Diop. As articulações internacionais significaram compartilhar experiências de lutas da população negra brasileira em diálogo com movimentos de mulheres, organizações antirracistas e outras experiências de enfrentamento às desigualdades existentes em diferentes partes do mundo.
Professora, pesquisadora e formadora de gerações
Ao longo de sua vida, Gevanilda construiu também uma sólida trajetória intelectual. Historiadora, pesquisadora das relações raciais, professora universitária e autora de livros e artigos. Dedicou parte significativa de sua produção a compreender as desigualdades raciais brasileiras e suas relações com educação, trabalho, classe, gênero e cidadania.
A sala de aula, os cursos realizados junto aos movimentos sociais, os grupos de estudo, as reuniões da Soweto e os espaços internacionais fizeram parte de um mesmo compromisso: compreender a realidade para encontrar formas de transformá-la.
Aposentada como professora universitária, Gê vive atualmente em Salvador. Permanece ligada à Soweto Organização Negra, continua participando da luta antirracista e mantém sua atuação política no Partido dos Trabalhadores em Salvador.
E ela segue inventando projetos: agora estamos construindo em conjunto o Clube de Leitura Feminista Thereza Santos, uma experiência em torno de algo que marca Gevanilda desde a juventude: pessoas reunidas para ler, conversar, trocando experiências e gerando conhecimento coletivamente.
Gê, entre a história pública e a história da família
Entretanto, nenhuma trajetória pode ser compreendida apenas por meio das organizações das quais uma pessoa participou. Nas lembranças de sua irmã Gevalci, Gevanilda aparece também como irmã solidária, presente nos momentos alegres e nas dificuldades atravessadas pela família.
Estão nessas memórias o bolo preparado para o aniversário de dez anos, os anos de estudo, as preocupações dos pais durante a ditadura militar, os tempos difíceis, o casamento, o nascimento dos filhos, a chegada dos netos, as doenças enfrentadas pela família, as despedidas de pessoas queridas e as mudanças que a vida foi impondo.
Gevanilda é mãe da Marina Jorge e do Pedro Jorge, avó do Zion e da Isadora, sogra da Shirley e do Dimitri e tia de vários sobrinhos e sobrinhas. Ao lado da historiadora, professora, militante e intelectual, há, portanto, uma história familiar feita de vínculos, cuidados, perdas, reencontros e afetos.
Setenta anos e muita vida para celebrar
Dizer que Gevanilda Santos é uma referência para diferentes gerações de mulheres negras não é apenas reconhecer as organizações das quais participou ou os textos que escreveu é também reconhecer sua forma de estar no mundo. Para muitas de nós, Gevanilda é farol, sua trajetória ilumina um caminho que ajudou diferentes gerações a enxergar possibilidades de lutas antirracistas, por um mundo mais justo e solidário.
Gê, também gosta muito de viver, é uma mulher bem-humorada, capaz de transformar uma conversa em gargalhada, uma reunião em aprendizado e uma dificuldade em motivo para imaginar o próximo passo.
Há nela uma esperança insistente e talvez essa seja também uma das lições políticas mais bonitas de sua trajetória: combater o racismo não significa permitir que o racismo determine toda a nossa existência.
É preciso lutar, mas é preciso também viver, rir, amar, construir amizades e continuar acreditando… Esperançar!
Viva Gê! Viva seus 70 anos!
Viva sua família, suas amizades, sua alegria, sua luta e sua história.
Vida longa a Gevanilda Santos!
Texto por Gal Souza com a colaboração de Gevalci Santos, sua irmã.
Referências consultadas
FICO, Carlos. Como eles agiam: os subterrâneos da ditadura militar: espionagem e polícia política. Rio de Janeiro: Record, 2001.
KÖSSLING, Karin Sant’Anna. As lutas anti-racistas de afro-descendentes sob vigilância do DEOPS/SP (1964-1983). 2007. Dissertação (Mestrado em História Social) — Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2007.
PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE SÃO PAULO. Comissão da Verdade Reitora Nadir Gouvêa Kfouri: comunidade acadêmica e a invasão da PUC-SP. São Paulo: PUC-SP.
RIBEIRO, Matilde. Institucionalização das políticas de promoção da igualdade racial no Brasil: percursos e estratégias — 1986 a 2010. 2013. Tese (Doutorado em Serviço Social) — Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, São Paulo, 2013.
SANTOS, Gevanilda Gomes dos. Grupo Negro da PUC. Cadernos de Pesquisa, São Paulo, n. 63, p. 135-136, nov. 1987.
SANTOS, Gevanilda; SOUZA, Glauciana Aparecida de; DEUS, Suelma Inês Alves de. Diary of a Journey to Nairobi: Impressions from the Brazilian Black Movement of the City and People Who Hosted the World Social Forum VII. Souls, v. 10, n. 1, p. 54-58, 2008.
SILVA, Joana Maria Ferreira da. Centro de Cultura e Arte Negra — CECAN. São Paulo: Selo Negro, 2012.
SILVA, Mário Augusto Medeiros da. Fazer história, fazer sentido: Associação Cultural do Negro (1954-1964). Lua Nova: Revista de Cultura e Política, São Paulo, n. 85, p. 227-273, 2012.
UNIVERSIDADE ESTADUAL DE CAMPINAS. Soweto, Organização Negra. Campinas: Unicamp, 23 nov. 2021.
A semente continua viva
Flavinho – A semente continua viva por Pedro Jorge Santos
Hoje, dia 6 de junho de 2026 completam-se dois anos da partida do meu pai para o Orum. Confesso que, quando tudo aconteceu, imaginei que o tempo diminuiria a saudade. Descobri que ele fez outra coisa. Transformou a saudade em aprendizado.
Há conversas que só fazem sentido depois do silêncio. Há ensinamentos que só amadurecem quando já não podemos mais fazer uma pergunta. Talvez por isso eu tenha demorado dois anos para escrever este texto. Não porque faltassem palavras. Mas porque eu precisava aprender algumas coisas antes de escrevê-las.
Durante muito tempo achei que o legado do meu pai estivesse nas entidades que ajudou a construir, nas conferências das quais participou, nas políticas públicas que ajudou a defender ou nas pessoas que formou ao longo da vida. Hoje entendo que tudo isso faz parte da história. Mas o legado que mais me orgulho é outro. É perceber que muitas das coisas que ele dizia começaram a fazer sentido justamente quando ele já não estava mais aqui para repeti-las.
Quando era mais novo, via meu pai sair cedo para reuniões, congressos, marchas, viagens e encontros. Para mim, aquilo era apenas a rotina de alguém muito comprometido com o trabalho. Eu não fazia ideia do tamanho daquela caminhada.
Hoje, olhando para trás, entendo que cada reunião, cada viagem e cada debate ajudaram a construir direitos que hoje parecem naturais para muita gente, mas que nasceram da coragem de homens e mulheres que entenderam que era preciso organizar o povo preto para transformar o Brasil.
Nenhuma dessas conquistas caiu do céu. Cada uma delas custou tempo, renúncia, estudo, diálogo, enfrentamentos e muita construção coletiva. E talvez tenha sido justamente isso que mais aprendi com meu pai. A luta nunca foi sobre aparecer. Sempre foi sobre construir.
Com o tempo também entendi que meu pai nunca esperou que todos seguissem exatamente o mesmo caminho que ele escolheu. Pelo contrário, ele acreditava nas pessoas e na juventude. Acreditava que cada um encontraria seu jeito de contribuir.
Hoje vejo isso com mais clareza.
Tem quem esteja nas organizações do movimento negro.
Tem quem faça política, quem transforme vidas pela educação, quem leve a mensagem através do hip-hop, da cultura e da arte.
Tem quem empreenda, quem pesquise, quem faça ciência, quem comunique, quem cuide da comunidade.
Tem quem ensine os filhos a terem orgulho de serem pretos.
Tudo isso também é continuidade.
Durante muito tempo achei que militância tivesse apenas um formato. Hoje entendo que ela pode ter muitos rostos. O importante é que nunca percamos aquilo que nossos mais velhos nos ensinaram.
E, entre todos os ensinamentos, existe um que hoje faz ainda mais sentido para mim. O respeito aos mais velhos.
Quando era criança, achava que era apenas uma demonstração de educação. Hoje entendo que é um princípio. É uma forma de dizer que ninguém chega a lugar nenhum sozinho. Antes de cada passo que damos houve alguém enfrentando portas fechadas para que hoje encontrássemos algumas delas abertas. Respeitar nossos mais velhos nunca significou viver olhando para trás. Significa saber de onde viemos para escolher, com mais consciência, para onde queremos ir.
A geração do meu pai nos deixou muito mais do que leis, instituições e organizações. Nos deixou uma forma de viver. Nos ensinou que é possível sonhar alto sem deixar ninguém para trás. Que sucesso individual não precisa caminhar separado do compromisso coletivo. Que prosperar também pode significar abrir caminhos para outras pessoas.
Talvez por isso a música de Edson Gomes rei do reggae brasileiro faça tanto sentido para mim quando diz:
“Vamos amigo lute, se não a gente acaba perdendo o que já conquistou.”
Durante muito tempo ouvi essa frase como um chamado para resistir. Hoje escuto como um convite para cuidar.
Cuidar da memória.
Cuidar das organizações.
Cuidar dos nossos mais velhos.
Cuidar das novas gerações.
Cuidar uns dos outros.
Porque talvez seja justamente isso que meu pai tenha tentado fazer durante toda a sua vida.
Hoje a saudade continua.
A falta continua.
Mas elas já não caminham sozinhas.
Caminham ao lado da gratidão.
Da responsabilidade.
E da esperança.
Aprendi que legado não é aquilo que uma pessoa deixa quando parte. Legado é aquilo que continua ensinando mesmo na ausência. E talvez seja por isso que, dois anos depois, eu ainda continue aprendendo com ele.
Se hoje estamos colhendo os frutos das árvores plantadas por quem veio antes de nós, fica uma pergunta que faço primeiro a mim mesmo:
Que tipo de legado nós queremos deixar quando chegar a nossa vez de partir?
Pedro Jorge Santos Silva é formado em Comunicação e Marketing pela UNICID (Universidade de São Paulo), colaborador e ativista da Soweto Organização Negra.
O que vai acontecer quando Zumbi e Dandara chegarem
*Por Gevanilda Santos
No dia 13 de maio de 2026, o dia nacional de denúncia contra o racismo mais uma vez apontamos expectativas antirracistas sob inspiração da letra da música de Jorge Ben e do primeiro horário da grade novelística da Rede Globo de televisão.
Se a indagação do título fosse a principal pergunta de uma pesquisa antirracista o resultado seria crível se levasse em consideração que a sociedade brasileira é desigual e pluriétnica.
O que um grupo social sabe ou conhece do outro, principalmente quando a sociedade é desigual, pluriétnica e abriga três grupo sociais DIVERSOS? Entre os grupos formadores da sociedade brasileira há desigualdade de posse de propriedade, denominada por elitismo, há desigualdade étnica e cultural denominada racismo estrutural e institucional e há desigualdade de gênero imposta através da violência do patriarcado[1]
Desde o momento da formação original da sociedade brasileira e latino-americana, ela sofreu com as injustiças. O encontro dos três grupos sociais foi desigual e contrastivo. Tivemos o encontro entre o grupo de origem europeia e colonizadora, o grupo de origem africana e escravizada e os povos indígenas, os donos da terra que, a exemplo, vive ao estilo comunitário resgata suas terras, sua cultura e poder.
Uma pesquisa que obtém resposta final considerando o posicionamento de somente um grupo social. Não é crível.
Se você quiser ver e descortinar a realidade interracial brasileira, deve compreender que o pensamento único, aquele também denominado de ideologia dominante, não revela o seu caráter autoritário. Ele aparenta ser uma verdade científica inquestionável e é veiculado e reconhecido nas principais instituições brasileiras, a exemplo da universidade. O pensamento único e universal se impõe de cima para baixo, com seu espírito colonialista e eurocêntrico.
Com o passar do tempo histórico: a mestiçagem, a Abolição da Escravatura, a Proclamação da República, a Frente Negra Brasileira, a industrialização, o mito da democracia racial, a Ditadura Militar, o Lançamento do MNU, a redemocratização e o Feriado da Consciência Negra, dentre outros – chegamos aos 138 anos da Abolição inacabada.
Os intelectuais clássicos, acríticos e formadores de opinião conservadora não identificaram a desigualdade racial. Os intelectuais que emergiram da Ditadura Militar não conhecem a resistência negra nas ruas e o lançamento do MNU. Por isso identificam o racismo, a desigualdade brasileira na cultura e nas oportunidades, isoladamente e não vincularam tais fatos ao Brasil que emergiu da escravidão. Não questionam/problematizam a abolição inacabada. O republicanismo não concebeu a ideia do encontro desigual dos três grupos sociais formadores do Brasil. E que tal situação não significou a humanização do andar de baixo, isto é, dos negros e os povos indígenas, ao contrário consolidou injustiças, desigualdade de oportunidade e o não acesso aos direitos.
Vivemos um momento histórico onde a relação entre o que o indivíduo pensa e faz são confusas, ou seja, o individualismo e as relações coletivas e participativas não são equilibradas.
Em relação ao racismo somos uma sociedade esquizofrênica. A percepção do Brasil no século XXI admite coletivamente a existência do racismo, porém individualmente ninguém é racista[2].
Por isso os intelectuais Abdias Nascimento e Lelia Gonzalez ressignificaram conceitualmente o racismo no Brasil e o classificaram como aparentemente sutil, camuflado e perverso… porque ataca pelas costas.[3]
Essa norma de conduta nas relações raciais impregnou a sociedade atual. O perigo é o de não perceber a ideologia oficial que o definiu como racismo cordial e intuir que o racismo não produz sequela e não faz mal a ninguém. Com esta ideia escondeu as suas artimanhas e se espalhou por toda sociedade. Chegou ao ponto de ser estrutural e institucional camuflado, de longa duração e recrudesce ou não há depender dos interesses e das lideranças.
A liderança antirracista e dinâmica vê o racismo em toda estrutura da sociedade e o combate não de forma individual e sim de modo coletivo, presencial e participativo.
Em 1950 ocorreu o Congresso do Negro Brasileiro no RJ. Depois de quase cinquenta anos ocorreu o encontro das entidades Negras em SP (1991).
Ambos foram expressões das lideranças dinâmicas e dos interesses populares.[4]
Em 2007 houve nova tentativa de realizar um congresso nacional de negros (CONNEB) e redefinir os rumos da luta de combate ao racismo, infelizmente não deu certo, e, mais uma vez o projeto político foi adiado.
Qual risco desta situação?
Na vida política quando um grupo social impõe a sua visão de mundo sobre o outro temos um longo período de acomodação das lutas. Quais as consequências para o andar de baixo? O dominador consegue camuflar a resistência e adia o florescer de um novo projeto político, isso ocorreu em 1950, 1991 e 2007. Isto é, a luta de classes.
Os artigo pedagógicos, estão imerso nas Ciências Sociais criticas, um campo mais amplo do conhecimento que abrange sociologia, antropologia, ciência política pergunta que não quer, a arte de entender criticamente as dinâmicas sociais. Então focando na pergunta que não quer calar ecoa: O que vai acontecer quando zumbi e Dandara chegarem?
A indagação instigou pesquisadores do Movimento Negro.
O advogado Luís Gama debruçou no direito da sociedade colonial e obteve a própria liberdade e muitas conquistas abolicionistas.
Para Beatriz Nascimento o importante era recomeçar pelo tráfico dos escravizados, modificar a opinião dos brasileiros sobre a chegada dos africanos e identificar, a violência de trabalho escravizado, recriar o conceito de sociedade quilombola, dentre outras questões.
Lideranças como Abdias do Nascimento, na década de 1980 enfatizou no seu livro o ABC do Quilombismo que o projeto político era importante, mas devido as contradições pessoais, não foi levado a sério.
Lélia Gonzalez incorporou o significado do racismo do Quilombismo e ampliou para relações de gênero, deixou um legado ao Movimento Negro: uma leitura crítica importante para a organização das mulheres negras que ainda hoje resplandece: quando não há mais solidariedade entre os pretos impacta a solidão da mulher negra.
O que faremos? Subordinação, rebelião, revolução?
Em um artigo no blog Soweto escrito a quatro mãos, a autora e Gal Souza disseram…”os conflitos de gênero são cotidianos e devem ser debatidos até que se constituam um fenômeno social amplo, tragam novas reflexões e processos educativos maiores”
Hamilton Bernardes Cardoso, Oliveira Silveira, Clovis Moura, Pierre Vergé, dentre outros, incluíram novos temas e fatores na luta de combate ao racismo: qual é o lugar de negros na sociedade pluriétnica, quais são as revoltas e as rebeliões da resistência nas ruas, onde está o protagonismo negro, a intolerância as religiões de matriz africana, qual é o lugar das mulheres negras, a transversalidade na gestão pública. Todos os elementos revelam o quanto os novos significados aprofundam a formação antirracista ou o letramento racial da classe trabalhadora. Eles repassam a sabedoria da questão racial à luta de classe, como itens formativos da classe trabalhadora e vice-versa.
As lutas quilombolas e os aquilombamento críticos são expressões vitoriosas, são inspiração do protagonismo preto e derivado do equilíbrio da relação entre vivência individual e coletiva da luta. Essa conduta antirracista deveria atravessar todos os grupos étnicos. Se a sociedade brasileira não se incomoda com a vivência racista, o movimento negro se importa com a sobrevida das crianças, jovens, adultos e idosos. O racismo adoece mentalmente, empobrece materialmente e subordina paulatinamente a todos.
Como ser antirracista em uma sociedade com o perfil brasileiro?
Se o racismo é estrutural e institucional cada órgão social e político deverá ter seu letramento racial específico e acompanhar a superação do racismo na sociedade por um protocolo de relacionamento interracial.
Quais alianças possíveis?
Os povos indígenas nossos parentes serão parceiros principais, e as pessoas de origem europeia, qual é o seu papel?
Elas pararão de sorrir das piadas racistas? Nos ajudarão a desconstruir o racismo e o machismo na escola, nas manifestações contra o genocídio e em todos os cantos.
Nas instituições de poder, os mestiços não usurparão o lugar dos pretos para obter vantagem indevida, a exemplo das cotas no serviço público.
O que faremos?
As relações coletivas beneficiarão os despossuídos? O elo entre relações pessoais e coletivas serão repensados?
A ancestralidade e a afrodescendência serão realocados?
Cada brasileiro e brasileira abandonará o ideal simbólico da reparação e substituirá por direitos?
O que vai acontecer quando Zumbi e Dandara chegarem?
Vamos fazer um projeto de nação sem racismo?
Faremos um novo congresso e dele sairá um projeto político antirracista? Merecemos um Brasil sem racismo.
Talvez seja socialista, talvez tenha outro ”ista” da vida futura.
A pergunta imagética do título ao ser reeditada no século XXI nos unificará em um ponto, não queremos perecer com o capitalismo. O que fazer? A ideia está atrasada. Temos mais dúvidas que respostas.
Acima de tudo o projeto político será combativo ao racismo e todas as formas de opressão, fara a transição de igualitário a equânime amparado nos direitos e será humanizado. Será participativo para ser democrático e capaz de proporcionar uma vivência de paz, alegria e amor entre homes e mulheres, entre pretos, brancos e amarelos, e o que você quiser ser.
Podemos afirmar sem titubear que o letramento racial é importante para todos os grupos sociais e se depender dele teremos respostas diversas mais efetivas.
Bibliografia
[1] Ver site da UFRN O glossario da desigualdade.
(https://www.observatoriodasdesigualdades.ccsa.ufrn.br/)
[2] Ver Racismo no Brasil: percepção da discriminação e do preconceito racial no século XXI. Org., Gevanilda Santos & M. Palmira Silva, 1ª ed. SP, Editora Fundação Perseu Abramo, 2005 – cap. .I
[3] O Genocídio do negro brasileiro: processo de um racismo mascarado, NASCIMENT0, A. RJ,ipeafro, 2016. E gonzalez.l – Primavera para as rosas negras, SP, UCpa, 2018.
[4] ver https://www.youtube.com/watch?v=207Y_1DkRFc
CARDOSO.H . & EMIR SADER (Org.) Movimentos sociais na transição democrática,SP, CORTEZ, 1987.
História recente – dez anos do movimento negro, IN: https://teoriaedebate.org.br/1988/03/15/sociedade-historia-recente-dez-anos-do-movimento-negro/
GONZALES, L PRIMAVERA PARA AS ROSAS NEGRAS, SP, UCPA, DIASPORA AFRICANA, 2018. NASCIMENTO, A – O Genocídio do negro brasileiro: processo de um racismo mascarado. RJ, IPEAFRO, 2016.
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O quilombismo, RJ, VOZES, 1980, SANTOS. G, MP & SILVA. M.P – O RACISMO NO BRASIL: percepção da discriminação e do preconceito acial no século XXI. Org. Gevanilda Santos & M. Palmira SILVA, 1ª ed. SP, Editora Fundação Perseu Abramo, 2005 – cap.1
Pesquisa no mês de maio de 2026 – ver site da UFRN sobre desigualdades de Gevanilda Santos.
Gevanilda Santos é colaborador e ativista da Soweto Organização Negra: uma entidade do Movimento Negro Paulista filiada Coordenação Nacional de Entidades Negras/CONEN. Mora na cidade de Salvador-BA e se dedica à produção editorial e à pesquisa no campo das relações sociais e políticas das desigualdades sociorraciais. Proferiu várias palestras tematizando o racismo e o machismo enfrentado pela população negra com destaque para as correlações das relações raciais brasileiras, diáspora negra e relações de gênero, raça e classe em instituições sociais a exemplo da Ação Educativa, do Sesc São Paulo, escolas públicas, universidades e organizações do Movimento Social Negro Paulista.
No mercado editorial publicou livros e artigos em revistas e coautoria ou autoral na editora da Fundação Perseu Abramo, Editora Nefertiti, Edições Soweto, Taylor & Francis Group, Grupo Summus – Selo Negro, Edições Sesc, Appris e Afro-Cebrap.
nota de falecimento maria do carmo
NOTA DE FALECIMENTO MARIA DO CARMO SALES MONTEIRO – (05/02/1957 – 09/11/2025)
A Soweto Organização Negra informa a passagem ao Orum de Maria do Carmo Sales Monteiro.
Cofundadora da Soweto, tendo participado da primeira gestão como Secretária Geral. Companheira, militante da questão racial e amiga desde o tempo do Grupo Negro da PUC.
Maria do Carmo protagonizou a obrigatoriedade do quesito raça-cor nos formulários da saúde da PMSP. Foi uma forte articuladora pela implantação da Política Integral de Saúde da População Negra e integrante do Comitê Técnico de Saúde da População Negra do Ministério da Saúde. Coordenava a formação dos Conselheiros Gestores do SUS.
Maria do Carmo estará sempre presente em nossas lutas.
MARIA DO CARMO PRESENTE!
Nota de Repúdio – massacre no Rio de Janeiro
Nota de Repúdio
Soweto Organização Negra ergue sua voz em repúdio absoluto ao massacre promovido pelo Estado do Rio de Janeiro. O que se anuncia nas manchetes como combate ao crime organizado é, na verdade, a continuidade de um projeto genocida que tem como alvo histórico o povo negro e periférico.
Chamam de operação policial o que, na prática, é genocídio televisionado, a exibição pública da morte de corpos negros, transmitida ao vivo para legitimar o discurso da ordem e da segurança. Enquanto isso, o verdadeiro crime organizado de alto escalão está instalado nos gabinetes, nas corporações e nos condomínios de luxo, onde se decide quem vive e quem morre.
O fuzil que atravessa as fronteiras e chega às favelas é o mesmo que parte das mãos de Israel para massacrar o povo Palestino em Gaza. A mesma lógica colonial que destrói vidas negras nas periferias do Brasil sustenta a matança de povos oprimidos em todo o mundo, uma engrenagem global de morte que tem a cor e o endereço certos.
A cada invasão na comunidade, o Estado e a mídia tentam fabricar um inimigo. O bode expiatório é sempre o mesmo: pessoas negras e de periferia, transformadas em alvo para justificar a barbárie. As políticas de segurança pública, servem apenas aos interesses da elite, preservando privilégios e sustentando um modelo de sociedade que naturaliza a morte de quem é pobre e negro.
Não há combate ao crime quando o Estado é o próprio criminoso. Há, sim, uma política deliberada de extermínio e controle racial, herdeira direta da lógica colonial e escravocrata que ainda estrutura este país.
Nós não nos calaremos diante dessa máquina de morte.
Exigimos o fim dessa política genocida, o fim das operações policiais assassinas, e a desmilitarização da segurança pública.
Pelo fim do genocídio negro!