A semente continua viva
Flavinho – A semente continua viva por Pedro Jorge Santos
Hoje, dia 6 de junho de 2026 completam-se dois anos da partida do meu pai para o Orum. Confesso que, quando tudo aconteceu, imaginei que o tempo diminuiria a saudade. Descobri que ele fez outra coisa. Transformou a saudade em aprendizado.
Há conversas que só fazem sentido depois do silêncio. Há ensinamentos que só amadurecem quando já não podemos mais fazer uma pergunta. Talvez por isso eu tenha demorado dois anos para escrever este texto. Não porque faltassem palavras. Mas porque eu precisava aprender algumas coisas antes de escrevê-las.
Durante muito tempo achei que o legado do meu pai estivesse nas entidades que ajudou a construir, nas conferências das quais participou, nas políticas públicas que ajudou a defender ou nas pessoas que formou ao longo da vida. Hoje entendo que tudo isso faz parte da história. Mas o legado que mais me orgulho é outro. É perceber que muitas das coisas que ele dizia começaram a fazer sentido justamente quando ele já não estava mais aqui para repeti-las.
Quando era mais novo, via meu pai sair cedo para reuniões, congressos, marchas, viagens e encontros. Para mim, aquilo era apenas a rotina de alguém muito comprometido com o trabalho. Eu não fazia ideia do tamanho daquela caminhada.
Hoje, olhando para trás, entendo que cada reunião, cada viagem e cada debate ajudaram a construir direitos que hoje parecem naturais para muita gente, mas que nasceram da coragem de homens e mulheres que entenderam que era preciso organizar o povo preto para transformar o Brasil.
Nenhuma dessas conquistas caiu do céu. Cada uma delas custou tempo, renúncia, estudo, diálogo, enfrentamentos e muita construção coletiva. E talvez tenha sido justamente isso que mais aprendi com meu pai. A luta nunca foi sobre aparecer. Sempre foi sobre construir.
Com o tempo também entendi que meu pai nunca esperou que todos seguissem exatamente o mesmo caminho que ele escolheu. Pelo contrário, ele acreditava nas pessoas e na juventude. Acreditava que cada um encontraria seu jeito de contribuir.
Hoje vejo isso com mais clareza.
Tem quem esteja nas organizações do movimento negro.
Tem quem faça política, quem transforme vidas pela educação, quem leve a mensagem através do hip-hop, da cultura e da arte.
Tem quem empreenda, quem pesquise, quem faça ciência, quem comunique, quem cuide da comunidade.
Tem quem ensine os filhos a terem orgulho de serem pretos.
Tudo isso também é continuidade.
Durante muito tempo achei que militância tivesse apenas um formato. Hoje entendo que ela pode ter muitos rostos. O importante é que nunca percamos aquilo que nossos mais velhos nos ensinaram.
E, entre todos os ensinamentos, existe um que hoje faz ainda mais sentido para mim. O respeito aos mais velhos.
Quando era criança, achava que era apenas uma demonstração de educação. Hoje entendo que é um princípio. É uma forma de dizer que ninguém chega a lugar nenhum sozinho. Antes de cada passo que damos houve alguém enfrentando portas fechadas para que hoje encontrássemos algumas delas abertas. Respeitar nossos mais velhos nunca significou viver olhando para trás. Significa saber de onde viemos para escolher, com mais consciência, para onde queremos ir.
A geração do meu pai nos deixou muito mais do que leis, instituições e organizações. Nos deixou uma forma de viver. Nos ensinou que é possível sonhar alto sem deixar ninguém para trás. Que sucesso individual não precisa caminhar separado do compromisso coletivo. Que prosperar também pode significar abrir caminhos para outras pessoas.
Talvez por isso a música de Edson Gomes rei do reggae brasileiro faça tanto sentido para mim quando diz:
“Vamos amigo lute, se não a gente acaba perdendo o que já conquistou.”
Durante muito tempo ouvi essa frase como um chamado para resistir. Hoje escuto como um convite para cuidar.
Cuidar da memória.
Cuidar das organizações.
Cuidar dos nossos mais velhos.
Cuidar das novas gerações.
Cuidar uns dos outros.
Porque talvez seja justamente isso que meu pai tenha tentado fazer durante toda a sua vida.
Hoje a saudade continua.
A falta continua.
Mas elas já não caminham sozinhas.
Caminham ao lado da gratidão.
Da responsabilidade.
E da esperança.
Aprendi que legado não é aquilo que uma pessoa deixa quando parte. Legado é aquilo que continua ensinando mesmo na ausência. E talvez seja por isso que, dois anos depois, eu ainda continue aprendendo com ele.
Se hoje estamos colhendo os frutos das árvores plantadas por quem veio antes de nós, fica uma pergunta que faço primeiro a mim mesmo:
Que tipo de legado nós queremos deixar quando chegar a nossa vez de partir?
Pedro Jorge Santos Silva é formado em Comunicação e Marketing pela UNICID (Universidade de São Paulo), colaborador e ativista da Soweto Organização Negra.
O que vai acontecer quando Zumbi e Dandara chegarem
*Por Gevanilda Santos
No dia 13 de maio de 2026, o dia nacional de denúncia contra o racismo mais uma vez apontamos expectativas antirracistas sob inspiração da letra da música de Jorge Ben e do primeiro horário da grade novelística da Rede Globo de televisão.
Se a indagação do título fosse a principal pergunta de uma pesquisa antirracista o resultado seria crível se levasse em consideração que a sociedade brasileira é desigual e pluriétnica.
O que um grupo social sabe ou conhece do outro, principalmente quando a sociedade é desigual, pluriétnica e abriga três grupo sociais DIVERSOS? Entre os grupos formadores da sociedade brasileira há desigualdade de posse de propriedade, denominada por elitismo, há desigualdade étnica e cultural denominada racismo estrutural e institucional e há desigualdade de gênero imposta através da violência do patriarcado[1]
Desde o momento da formação original da sociedade brasileira e latino-americana, ela sofreu com as injustiças. O encontro dos três grupos sociais foi desigual e contrastivo. Tivemos o encontro entre o grupo de origem europeia e colonizadora, o grupo de origem africana e escravizada e os povos indígenas, os donos da terra que, a exemplo, vive ao estilo comunitário resgata suas terras, sua cultura e poder.
Uma pesquisa que obtém resposta final considerando o posicionamento de somente um grupo social. Não é crível.
Se você quiser ver e descortinar a realidade interracial brasileira, deve compreender que o pensamento único, aquele também denominado de ideologia dominante, não revela o seu caráter autoritário. Ele aparenta ser uma verdade científica inquestionável e é veiculado e reconhecido nas principais instituições brasileiras, a exemplo da universidade. O pensamento único e universal se impõe de cima para baixo, com seu espírito colonialista e eurocêntrico.
Com o passar do tempo histórico: a mestiçagem, a Abolição da Escravatura, a Proclamação da República, a Frente Negra Brasileira, a industrialização, o mito da democracia racial, a Ditadura Militar, o Lançamento do MNU, a redemocratização e o Feriado da Consciência Negra, dentre outros – chegamos aos 138 anos da Abolição inacabada.
Os intelectuais clássicos, acríticos e formadores de opinião conservadora não identificaram a desigualdade racial. Os intelectuais que emergiram da Ditadura Militar não conhecem a resistência negra nas ruas e o lançamento do MNU. Por isso identificam o racismo, a desigualdade brasileira na cultura e nas oportunidades, isoladamente e não vincularam tais fatos ao Brasil que emergiu da escravidão. Não questionam/problematizam a abolição inacabada. O republicanismo não concebeu a ideia do encontro desigual dos três grupos sociais formadores do Brasil. E que tal situação não significou a humanização do andar de baixo, isto é, dos negros e os povos indígenas, ao contrário consolidou injustiças, desigualdade de oportunidade e o não acesso aos direitos.
Vivemos um momento histórico onde a relação entre o que o indivíduo pensa e faz são confusas, ou seja, o individualismo e as relações coletivas e participativas não são equilibradas.
Em relação ao racismo somos uma sociedade esquizofrênica. A percepção do Brasil no século XXI admite coletivamente a existência do racismo, porém individualmente ninguém é racista[2].
Por isso os intelectuais Abdias Nascimento e Lelia Gonzalez ressignificaram conceitualmente o racismo no Brasil e o classificaram como aparentemente sutil, camuflado e perverso… porque ataca pelas costas.[3]
Essa norma de conduta nas relações raciais impregnou a sociedade atual. O perigo é o de não perceber a ideologia oficial que o definiu como racismo cordial e intuir que o racismo não produz sequela e não faz mal a ninguém. Com esta ideia escondeu as suas artimanhas e se espalhou por toda sociedade. Chegou ao ponto de ser estrutural e institucional camuflado, de longa duração e recrudesce ou não há depender dos interesses e das lideranças.
A liderança antirracista e dinâmica vê o racismo em toda estrutura da sociedade e o combate não de forma individual e sim de modo coletivo, presencial e participativo.
Em 1950 ocorreu o Congresso do Negro Brasileiro no RJ. Depois de quase cinquenta anos ocorreu o encontro das entidades Negras em SP (1991).
Ambos foram expressões das lideranças dinâmicas e dos interesses populares.[4]
Em 2007 houve nova tentativa de realizar um congresso nacional de negros (CONNEB) e redefinir os rumos da luta de combate ao racismo, infelizmente não deu certo, e, mais uma vez o projeto político foi adiado.
Qual risco desta situação?
Na vida política quando um grupo social impõe a sua visão de mundo sobre o outro temos um longo período de acomodação das lutas. Quais as consequências para o andar de baixo? O dominador consegue camuflar a resistência e adia o florescer de um novo projeto político, isso ocorreu em 1950, 1991 e 2007. Isto é, a luta de classes.
Os artigo pedagógicos, estão imerso nas Ciências Sociais criticas, um campo mais amplo do conhecimento que abrange sociologia, antropologia, ciência política pergunta que não quer, a arte de entender criticamente as dinâmicas sociais. Então focando na pergunta que não quer calar ecoa: O que vai acontecer quando zumbi e Dandara chegarem?
A indagação instigou pesquisadores do Movimento Negro.
O advogado Luís Gama debruçou no direito da sociedade colonial e obteve a própria liberdade e muitas conquistas abolicionistas.
Para Beatriz Nascimento o importante era recomeçar pelo tráfico dos escravizados, modificar a opinião dos brasileiros sobre a chegada dos africanos e identificar, a violência de trabalho escravizado, recriar o conceito de sociedade quilombola, dentre outras questões.
Lideranças como Abdias do Nascimento, na década de 1980 enfatizou no seu livro o ABC do Quilombismo que o projeto político era importante, mas devido as contradições pessoais, não foi levado a sério.
Lélia Gonzalez incorporou o significado do racismo do Quilombismo e ampliou para relações de gênero, deixou um legado ao Movimento Negro: uma leitura crítica importante para a organização das mulheres negras que ainda hoje resplandece: quando não há mais solidariedade entre os pretos impacta a solidão da mulher negra.
O que faremos? Subordinação, rebelião, revolução?
Em um artigo no blog Soweto escrito a quatro mãos, a autora e Gal Souza disseram…”os conflitos de gênero são cotidianos e devem ser debatidos até que se constituam um fenômeno social amplo, tragam novas reflexões e processos educativos maiores”
Hamilton Bernardes Cardoso, Oliveira Silveira, Clovis Moura, Pierre Vergé, dentre outros, incluíram novos temas e fatores na luta de combate ao racismo: qual é o lugar de negros na sociedade pluriétnica, quais são as revoltas e as rebeliões da resistência nas ruas, onde está o protagonismo negro, a intolerância as religiões de matriz africana, qual é o lugar das mulheres negras, a transversalidade na gestão pública. Todos os elementos revelam o quanto os novos significados aprofundam a formação antirracista ou o letramento racial da classe trabalhadora. Eles repassam a sabedoria da questão racial à luta de classe, como itens formativos da classe trabalhadora e vice-versa.
As lutas quilombolas e os aquilombamento críticos são expressões vitoriosas, são inspiração do protagonismo preto e derivado do equilíbrio da relação entre vivência individual e coletiva da luta. Essa conduta antirracista deveria atravessar todos os grupos étnicos. Se a sociedade brasileira não se incomoda com a vivência racista, o movimento negro se importa com a sobrevida das crianças, jovens, adultos e idosos. O racismo adoece mentalmente, empobrece materialmente e subordina paulatinamente a todos.
Como ser antirracista em uma sociedade com o perfil brasileiro?
Se o racismo é estrutural e institucional cada órgão social e político deverá ter seu letramento racial específico e acompanhar a superação do racismo na sociedade por um protocolo de relacionamento interracial.
Quais alianças possíveis?
Os povos indígenas nossos parentes serão parceiros principais, e as pessoas de origem europeia, qual é o seu papel?
Elas pararão de sorrir das piadas racistas? Nos ajudarão a desconstruir o racismo e o machismo na escola, nas manifestações contra o genocídio e em todos os cantos.
Nas instituições de poder, os mestiços não usurparão o lugar dos pretos para obter vantagem indevida, a exemplo das cotas no serviço público.
O que faremos?
As relações coletivas beneficiarão os despossuídos? O elo entre relações pessoais e coletivas serão repensados?
A ancestralidade e a afrodescendência serão realocados?
Cada brasileiro e brasileira abandonará o ideal simbólico da reparação e substituirá por direitos?
O que vai acontecer quando Zumbi e Dandara chegarem?
Vamos fazer um projeto de nação sem racismo?
Faremos um novo congresso e dele sairá um projeto político antirracista? Merecemos um Brasil sem racismo.
Talvez seja socialista, talvez tenha outro ”ista” da vida futura.
A pergunta imagética do título ao ser reeditada no século XXI nos unificará em um ponto, não queremos perecer com o capitalismo. O que fazer? A ideia está atrasada. Temos mais dúvidas que respostas.
Acima de tudo o projeto político será combativo ao racismo e todas as formas de opressão, fara a transição de igualitário a equânime amparado nos direitos e será humanizado. Será participativo para ser democrático e capaz de proporcionar uma vivência de paz, alegria e amor entre homes e mulheres, entre pretos, brancos e amarelos, e o que você quiser ser.
Podemos afirmar sem titubear que o letramento racial é importante para todos os grupos sociais e se depender dele teremos respostas diversas mais efetivas.
Bibliografia
[1] Ver site da UFRN O glossario da desigualdade.
(https://www.observatoriodasdesigualdades.ccsa.ufrn.br/)
[2] Ver Racismo no Brasil: percepção da discriminação e do preconceito racial no século XXI. Org., Gevanilda Santos & M. Palmira Silva, 1ª ed. SP, Editora Fundação Perseu Abramo, 2005 – cap. .I
[3] O Genocídio do negro brasileiro: processo de um racismo mascarado, NASCIMENT0, A. RJ,ipeafro, 2016. E gonzalez.l – Primavera para as rosas negras, SP, UCpa, 2018.
[4] ver https://www.youtube.com/watch?v=207Y_1DkRFc
CARDOSO.H . & EMIR SADER (Org.) Movimentos sociais na transição democrática,SP, CORTEZ, 1987.
História recente – dez anos do movimento negro, IN: https://teoriaedebate.org.br/1988/03/15/sociedade-historia-recente-dez-anos-do-movimento-negro/
GONZALES, L PRIMAVERA PARA AS ROSAS NEGRAS, SP, UCPA, DIASPORA AFRICANA, 2018. NASCIMENTO, A – O Genocídio do negro brasileiro: processo de um racismo mascarado. RJ, IPEAFRO, 2016.
____________
O quilombismo, RJ, VOZES, 1980, SANTOS. G, MP & SILVA. M.P – O RACISMO NO BRASIL: percepção da discriminação e do preconceito acial no século XXI. Org. Gevanilda Santos & M. Palmira SILVA, 1ª ed. SP, Editora Fundação Perseu Abramo, 2005 – cap.1
Pesquisa no mês de maio de 2026 – ver site da UFRN sobre desigualdades de Gevanilda Santos.
Gevanilda Santos é colaborador e ativista da Soweto Organização Negra: uma entidade do Movimento Negro Paulista filiada Coordenação Nacional de Entidades Negras/CONEN. Mora na cidade de Salvador-BA e se dedica à produção editorial e à pesquisa no campo das relações sociais e políticas das desigualdades sociorraciais. Proferiu várias palestras tematizando o racismo e o machismo enfrentado pela população negra com destaque para as correlações das relações raciais brasileiras, diáspora negra e relações de gênero, raça e classe em instituições sociais a exemplo da Ação Educativa, do Sesc São Paulo, escolas públicas, universidades e organizações do Movimento Social Negro Paulista.
No mercado editorial publicou livros e artigos em revistas e coautoria ou autoral na editora da Fundação Perseu Abramo, Editora Nefertiti, Edições Soweto, Taylor & Francis Group, Grupo Summus – Selo Negro, Edições Sesc, Appris e Afro-Cebrap.
nota de falecimento maria do carmo
NOTA DE FALECIMENTO MARIA DO CARMO SALES MONTEIRO – (05/02/1957 – 09/11/2025)
A Soweto Organização Negra informa a passagem ao Orum de Maria do Carmo Sales Monteiro.
Cofundadora da Soweto, tendo participado da primeira gestão como Secretária Geral. Companheira, militante da questão racial e amiga desde o tempo do Grupo Negro da PUC.
Maria do Carmo protagonizou a obrigatoriedade do quesito raça-cor nos formulários da saúde da PMSP. Foi uma forte articuladora pela implantação da Política Integral de Saúde da População Negra e integrante do Comitê Técnico de Saúde da População Negra do Ministério da Saúde. Coordenava a formação dos Conselheiros Gestores do SUS.
Maria do Carmo estará sempre presente em nossas lutas.
MARIA DO CARMO PRESENTE!
Nota de Repúdio – massacre no Rio de Janeiro
Nota de Repúdio
Soweto Organização Negra ergue sua voz em repúdio absoluto ao massacre promovido pelo Estado do Rio de Janeiro. O que se anuncia nas manchetes como combate ao crime organizado é, na verdade, a continuidade de um projeto genocida que tem como alvo histórico o povo negro e periférico.
Chamam de operação policial o que, na prática, é genocídio televisionado, a exibição pública da morte de corpos negros, transmitida ao vivo para legitimar o discurso da ordem e da segurança. Enquanto isso, o verdadeiro crime organizado de alto escalão está instalado nos gabinetes, nas corporações e nos condomínios de luxo, onde se decide quem vive e quem morre.
O fuzil que atravessa as fronteiras e chega às favelas é o mesmo que parte das mãos de Israel para massacrar o povo Palestino em Gaza. A mesma lógica colonial que destrói vidas negras nas periferias do Brasil sustenta a matança de povos oprimidos em todo o mundo, uma engrenagem global de morte que tem a cor e o endereço certos.
A cada invasão na comunidade, o Estado e a mídia tentam fabricar um inimigo. O bode expiatório é sempre o mesmo: pessoas negras e de periferia, transformadas em alvo para justificar a barbárie. As políticas de segurança pública, servem apenas aos interesses da elite, preservando privilégios e sustentando um modelo de sociedade que naturaliza a morte de quem é pobre e negro.
Não há combate ao crime quando o Estado é o próprio criminoso. Há, sim, uma política deliberada de extermínio e controle racial, herdeira direta da lógica colonial e escravocrata que ainda estrutura este país.
Nós não nos calaremos diante dessa máquina de morte.
Exigimos o fim dessa política genocida, o fim das operações policiais assassinas, e a desmilitarização da segurança pública.
Pelo fim do genocídio negro!
O pensamento negro radical e a prática militante de Flavio Jorge
O pensamento negro radical e a pratica militante de Flavio Jorge
Por Thays Carvalho e Nonato Nascimento*.
No último dia 6 de junho de 2025, organizações do movimento negro e do campo popular no Brasil e no mundo fizeram memória da presença ancestral e do legado militante do companheiro de muitas lutas e sonhos, Flávio Jorge — o “Flavinho” – da Soweto Organização Negra e da Coordenação Nacional de Entidades Negras (CONEN). Um ano após sua passagem ao Orum, celebramos sua presença e continuidade ancestral nas lutas de combate ao racismo e a todas as formas de opressão e exploração que atingem a comunidade negra e a classe trabalhadora.
Flavinho contribuiu de forma significativa para as vitórias e conquistas do povo brasileiro, para o enfrentamento ao racismo, para a consolidação de importantes políticas públicas de igualdade racial e para construir um projeto popular para o Brasil. Sua trajetória é marcada por contribuições fundamentais para a organização do Movimento Negro em âmbito nacional e internacional. Foi um dos principais articuladores e porta-voz do 1º Encontro Nacional de Entidades Negras – ENEN, realizado em 1991, e da histórica Marcha Zumbi dos Palmares Contra o Racismo, realizada em 20 de novembro de 1997.
Como tantos outros intelectuais negros, Flavinho foi um homem que tomou partido. Teve atuação decisiva na fundação do Partido dos Trabalhadores e das Trabalhadoras e da criação da Comissão Nacional de Negros e Negras do PT, sendo o primeiro Secretário a coordenar nacionalmente a Secretaria Nacional de Combate ao Racismo do PT. Também teve papel central na formulação e criação da SEPPIR (Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial), que iniciou um processo necessário de escuta e institucionalização das pautas do Movimento Negro.
É possível identificar sua digital política tanto no processo de organização do movimento negro contemporâneo quanto nas políticas públicas de promoção da igualdade étnico-racial. Sua capacidade de construir unidade e trabalho coletivo entre as diversas organizações foi essencial para ampliar o poder de incidência política do movimento negro — tanto no campo institucional quanto na luta popular por políticas de reparações.
Fazer memória de sua trajetória política é reafirmar o compromisso negro com a revolução brasileira e atualizar os sentidos do Protesto Negro impulsionado pelas organizações negras. Ao seguir seus passos, é possível reconhecer a intencionalidade de sua militância e de sua escrita insubmissa, que influenciou de maneira decisiva na formação de quadros políticos negros preparados para enfrentar os desafios estruturais vivenciados pelos Condenados da Terra.
Flavinho esteve presente na articulação política e na formação do pensamento negro radical contemporâneo. Foi colaborador incansável do jornal PT Notícias – Semanário do Diretório Nacional do Partido dos Trabalhadores –, contribuindo com reflexões teóricas e estratégicas fundamentais na agenda de combate ao racismo. Na edição nº 55, de 25 de novembro a 1º de dezembro de 1997, alertou a militância para a necessidade de “Ampliar a Consciência Negra!”, afirmando:
“O que está em disputa é a consciência negra sobre qual tipo de democracia estamos vivendo e sobre qual é a sociedade que queremos e estamos construindo, sem hipocrisia, sem opressão e livre dos valores que dão sustentação ao racismo. Não tenhamos ilusão – nada ocorrerá de maneira suave ou cordial, mas sim por meio de grandes e estruturais transformações da sociedade brasileira.”
Seu pensamento e prática política eram de natureza profundamente revolucionária. Foi um defensor das lutas de libertação nacional no continente africano e compreendia o papel pedagógico das lutas anticoloniais.
Ao demarcar o sentido político da consciência negra de forma ampliada, Flavinho contribuía de maneira incisiva para o debate sobre a intencionalidade da ação política do movimento negro em torno de uma agenda estrutural de transformação da realidade brasileira. Em tempos de crises de rumo e de perspectiva, o pensamento de Flávio Jorge segue sendo um dos aportes fundamentais para o entendimento de que não “… é possível amenizar o racismo e ao mesmo tempo implementar a cartilha neoliberal, cujo legado é a exclusão de parcela significativa da população brasileira, em sua maioria negra”. Sua crítica radical ao capitalismo evidencia a lucidez de sua análise do racismo enquanto determinação estrutural deste modo de produção.
O movimento negro contemporâneo tem em Flavinho um de seus maiores expoentes e articuladores. Dedicou décadas de militância à construção do pensamento negro radical de esquerda no Brasil, colocando em prática as lições de Amílcar Cabral, que afirmou: “o primeiro passo da resistência política é juntar o máximo de gente possível para a luta”. Flavinho foi um operário da unidade das organizações negras em torno de uma agenda revolucionária, e nessa tarefa reuniu muitas e muitos para tocar a luta da negra gente.
Em 1995, escreveu o texto de apresentação da edição “Faça a Coisa Certa! O combate ao racismo em movimento”, número especial da revista Teoria e Debate (nº 31), em comemoração ao tricentenário da imortalidade de Zumbi dos Palmares. A apresentação é uma síntese de seu pensamento como intelectual orgânico, com atenção aos principais temas da conjuntura nacional e internacional e à atuação política das organizações negras.
Flavinho identificou, com precisão, “as novas formas de articulação e expressão da militância negra em múltiplos espaços: locais de trabalho, organizações rurais, sindicatos, movimentos populares, partidos políticos, universidades, parlamentos, entidades religiosas, mulheres negras, órgãos governamentais, entre outros”. Como dirigente, não mediu esforços para fortalecer a unidade do movimento negro em toda sua diversidade — um valor que nossa geração deve preservar e cultivar como patrimônio político.
Destaca-se também sua atenção e entusiasmo pelo protagonismo do Movimento de Mulheres Negras. Reconheceu o potencial político e teórico da sua atuação e percebeu “a emergência desse movimento, com identidade própria e caráter nacional”, como resposta necessária à formação racista e patriarcal da sociedade brasileira. Foi entusiasta da presença das mulheres negras brasileiras nos debates nacionais e internacionais, como na IV Conferência Mundial sobre a Mulher, em Pequim (1995), que teve entre os destaques o pensamento de Lélia Gonzalez e ativismo de Matilde Ribeiro.
Ao recordar as declarações, reforçamos um dos valores imprescindíveis na trajetória de Flavinho: o zelo pela unidade e diversidade do movimento negro brasileiro e a construção de uma nova sociedade.
Ele acreditava, sem sombra de dúvidas, no poder transformador da militância negra para romper com as estruturas geradoras e reprodutoras de desigualdade.
Nossa geração teve a honra de conviver com Flavinho em momentos decisivos da recente trajetória do Movimento Brasil Popular. A nossa construção é de inteira responsabilidade nossa, mas foi imprescindivelmente marcada pela contribuição de Flavinho. O campo político que fazemos parte desenvolveu a partir do final da década de 90 uma certa ideia de Brasil, sintetizada na ideia de construir um Projeto Popular para o Brasil. Tal projeto viria a ser constituído na contramão das concepções eurocêntricas e se propondo a uma interpretação consequente da realidade brasileira, resgatando uma série de autores que pensaram criticamente o país. Apesar da importância e originalidade desse período, não estava colocado explicitamente uma concepção antirracista em nossas formulações. Até se pode extrair alguns elementos das formulações de então, mas é um fato que o que tínhamos era muito insuficiente ante a relevância que esta questão tem para a compreensão das particularidades da nossa formação social. E Flavinho contribuiu desde o princípio para superarmos esta limitação, com generosidade, paciência e entusiasmo a cada novo passo dado, contribuindo para afirmarmos o potencial revolucionário da fusão de raça e classe.
Nessa mesma direção, soube reconhecer imediatamente o potencial de um movimento como o Levante Popular da Juventude para forjar uma práxis negra do campo do Projeto Popular. A nacionalização do Levante, no contexto de ampliação das políticas de ações afirmativas, possibilitou a ampliação da nossa força social, em especial, nas periferias urbanas, tensionando positivamente a nossa construção dar esse salto na elaboração e na prática.
A convivência com Flavinho fez com que tivéssemos oportunidade de conhecer importantes quadros do movimento negro em todo país e ter acesso a memória das principais lutas e personagens que foram completamente invisibilizados e que passamos a conhecer através do seu testemunho e de outros companheiros e companheiras. O compromisso com esta memória é uma responsabilidade política que carregamos como uma tarefa deixada por ele para nós para que as próximas gerações conheçam os que vieram antes de nós e abriram os caminhos que trilhamos hoje.
Esse fio histórico foi fundamental para construção da Escola Nacional Paulo Freire em São Paulo enquanto uma escola de caráter nacional, mas territorializada em São Paulo em um bairro de forte presença negra, território de muitas lideranças da Frente Negra Brasileira e região onde próprio Flavinho viveu e construiu o seu próprio quilombo. Uma das ruas que cerca a Escola é uma rua que homenageia Lino de Pinto Guedes, jornalista, poeta e militante do movimento negro.
Flavinho contribuiu ainda com a elaboração que culminou ainda em 2019, no primeiro ano da Escola, do Curso Capitalismo, Racismo e Patriarcado: um curso nacional que reuniu as elaborações práticas e teorias dos militantes de todo país e impulsionou decisivamente a nossa práxis. Contribuiu diretamente com reflexões sobre nossos referenciais teóricos, pensando o lugar dos(as) intérpretes negros(as) da realidade nacional nos Cursos de Realidade Brasileira (CRB).
Dirigente e mestre, sabia escutar com atenção as pretensões políticas partidárias e admirava nossa disposição de construir unidade na diversidade. Acompanhou a construção do Movimento Brasil Popular e foi referência decisiva para a criação do Setor Nacional de Igualdade Étnico-Racial, aproximando nossa organização da Coordenação Nacional de Entidades Negras (CONEN) e da Convergência Negra.
Em São Paulo, contribuiu para que essa aproximação se desdobrasse em uma experiência teórica e prática de construção do nosso movimento – a Frente Negra.
A Frente Negra impulsionou a militância negra do Movimento Brasil Popular a desenvolver ações de enraizamento territorial, cultural e a consolidar a Casa Luiz Gama como mais um espaço de referência e de auto-organização negra e popular.
Um ano após sua partida, fazemos memória de sua presença ancestral em movimento, carregando o sentimento revolucionário que nos move:
“Continuidade da tradição de rebeldia e insubmissão iniciada nos quilombos, o povo negro volta a emergir como sujeito político, rompendo o véu e destruindo a invisibilidade que tentaram inutilmente lhe impor.”
Companheiro Camarada Flávio Jorge, presente sempre!