Maio 13, 2026 Comentários fechados em By Soweto*#%!

O que vai acontecer quando Zumbi e Dandara chegarem
*Por Gevanilda Santos

No dia 13 de maio de 2026, o dia nacional de denúncia contra o racismo mais uma vez apontamos expectativas antirracistas sob inspiração da letra da música de Jorge Ben e do primeiro horário da grade novelística da Rede Globo de televisão.

 Se a indagação do título fosse a principal pergunta de uma pesquisa antirracista o resultado seria crível se levasse em consideração que a sociedade brasileira é desigual e pluriétnica.

O que um grupo social sabe ou conhece do outro, principalmente quando a sociedade é desigual, pluriétnica e abriga três grupo sociais DIVERSOS? Entre os grupos formadores da sociedade brasileira há desigualdade de posse de propriedade, denominada por elitismo, há desigualdade étnica e cultural denominada racismo estrutural e institucional e há desigualdade de gênero imposta através da violência do patriarcado[1]

 Desde o momento da formação original da sociedade brasileira e latino-americana, ela sofreu com as injustiças. O encontro dos três grupos sociais foi desigual e contrastivo. Tivemos o encontro entre o grupo de origem europeia e colonizadora, o grupo de origem africana e escravizada e os povos indígenas, os donos da terra que, a exemplo, vive ao estilo comunitário resgata suas terras, sua cultura e poder.

Uma pesquisa que obtém resposta final considerando o posicionamento de somente um grupo social. Não é crível.  

Se você quiser ver e descortinar a realidade interracial brasileira, deve compreender que o pensamento único, aquele também denominado de ideologia dominante, não revela o seu caráter autoritário.  Ele aparenta ser uma verdade científica inquestionável e é veiculado e reconhecido nas principais instituições brasileiras, a exemplo da universidade. O pensamento único e universal se impõe de cima para baixo, com seu espírito colonialista e eurocêntrico.

Com o passar do tempo histórico: a mestiçagem, a Abolição da Escravatura, a Proclamação da República, a Frente Negra Brasileira, a industrialização, o mito da democracia racial, a Ditadura Militar, o Lançamento do MNU, a redemocratização e o Feriado da Consciência Negra, dentre outros – chegamos aos 138 anos da Abolição inacabada.

Os intelectuais clássicos, acríticos e formadores de opinião conservadora  não identificaram a desigualdade racial. Os intelectuais que emergiram da Ditadura Militar não conhecem a resistência negra nas ruas e o lançamento do MNU. Por isso identificam o racismo, a desigualdade brasileira na cultura e nas oportunidades, isoladamente e não vincularam  tais fatos ao Brasil que emergiu da escravidão. Não questionam/problematizam a abolição inacabada. O republicanismo não concebeu a ideia do encontro desigual dos três grupos sociais formadores do Brasil. E que tal situação não significou a humanização do andar de baixo, isto é, dos negros e os povos indígenas, ao contrário consolidou injustiças, desigualdade de oportunidade e o não acesso aos direitos.

Vivemos um momento histórico onde a relação entre o que o indivíduo pensa e faz são confusas, ou seja, o individualismo e as relações coletivas e participativas não são equilibradas. 

Em relação ao racismo somos uma sociedade esquizofrênica. A percepção do Brasil no século XXI admite coletivamente a existência do racismo, porém individualmente ninguém é racista[2]

Por isso os intelectuais Abdias Nascimento e Lelia Gonzalez ressignificaram conceitualmente o racismo no Brasil e o classificaram como aparentemente sutil, camuflado e perverso… porque ataca pelas costas.[3]

Essa norma de conduta nas relações raciais impregnou a sociedade atual.  O perigo é o de não perceber a ideologia oficial que o definiu como racismo cordial e intuir que o racismo não produz sequela e não faz mal a ninguém. Com esta ideia escondeu as suas artimanhas e se espalhou por toda sociedade. Chegou ao ponto de ser estrutural e institucional camuflado, de longa duração e recrudesce ou não há depender dos interesses e das lideranças.

A liderança antirracista e dinâmica vê o racismo em toda estrutura da sociedade e o combate não de forma individual e sim de modo coletivo, presencial e participativo.

Em 1950 ocorreu o Congresso do Negro Brasileiro no RJ.  Depois de quase cinquenta anos ocorreu o encontro das entidades Negras em SP (1991).

Ambos foram expressões das lideranças dinâmicas e dos interesses populares.[4]

Em 2007 houve nova tentativa de realizar um congresso nacional de negros (CONNEB) e redefinir os rumos da luta de combate ao racismo, infelizmente não deu certo, e,  mais uma vez o projeto político  foi adiado.

Qual risco desta situação?

Na vida política quando um grupo social impõe a sua visão de mundo sobre o outro temos um longo período de acomodação das lutas. Quais as consequências para o andar de baixo? O dominador consegue camuflar a resistência e adia o florescer de um novo projeto político, isso ocorreu em 1950, 1991 e 2007. Isto é, a luta de classes.

Os artigo pedagógicos, estão imerso nas Ciências Sociais criticas, um campo mais amplo do conhecimento que abrange sociologia, antropologia, ciência política pergunta que não quer, a arte de entender criticamente as dinâmicas sociais. Então focando na pergunta que não quer calar ecoa: O que vai acontecer quando zumbi e Dandara chegarem?

A indagação instigou pesquisadores do Movimento Negro.

O advogado Luís Gama debruçou no direito da sociedade colonial e obteve a própria liberdade e muitas conquistas abolicionistas.

Para Beatriz Nascimento o importante era recomeçar pelo tráfico dos escravizados, modificar a opinião dos brasileiros sobre a chegada dos africanos e identificar, a violência de trabalho escravizado, recriar o conceito de sociedade quilombola, dentre outras questões.

Lideranças como Abdias do Nascimento, na década de 1980 enfatizou no seu livro o ABC do Quilombismo que o projeto político era importante, mas devido as contradições pessoais, não foi levado a sério.

Lélia Gonzalez incorporou o significado do racismo do Quilombismo e ampliou  para relações de gênero, deixou um legado ao Movimento Negro:  uma leitura crítica importante para a organização das mulheres negras que ainda hoje resplandece: quando não há mais solidariedade entre os pretos impacta a solidão da mulher negra.

O que faremos? Subordinação, rebelião, revolução?

Em um artigo no blog Soweto escrito a quatro mãos, a autora e Gal Souza disseram…”os conflitos de gênero são cotidianos e devem ser debatidos até que se constituam um fenômeno social amplo, tragam novas reflexões e processos educativos maiores”

Hamilton Bernardes Cardoso, Oliveira Silveira, Clovis Moura, Pierre Vergé, dentre outros, incluíram novos temas e fatores na luta de combate ao racismo: qual é o lugar de negros na sociedade pluriétnica, quais são as revoltas e as rebeliões da resistência nas ruas, onde está o protagonismo negro, a intolerância as religiões de matriz africana, qual é o lugar das mulheres negras, a transversalidade na gestão pública. Todos os elementos revelam o quanto os novos significados aprofundam a formação antirracista ou o letramento racial da classe trabalhadora. Eles repassam a sabedoria da questão racial à luta de classe, como itens formativos da classe trabalhadora e vice-versa.

As lutas quilombolas e os aquilombamento críticos são expressões vitoriosas, são inspiração do protagonismo preto e derivado do equilíbrio da relação entre vivência individual e coletiva da luta. Essa conduta antirracista deveria atravessar todos os grupos étnicos. Se a sociedade brasileira não se incomoda com a vivência racista, o movimento negro se importa com a sobrevida das crianças, jovens, adultos e idosos. O racismo adoece mentalmente, empobrece materialmente e subordina paulatinamente a todos.

Como ser antirracista em uma sociedade com o perfil brasileiro?

Se o racismo é estrutural e institucional cada órgão social e político deverá ter seu letramento racial específico e acompanhar a superação do racismo na sociedade por um protocolo de relacionamento interracial.

Quais alianças possíveis?

Os povos indígenas nossos parentes serão parceiros principais, e as pessoas de origem europeia, qual é o seu papel?

Elas pararão de sorrir das piadas racistas? Nos ajudarão a desconstruir o racismo e o machismo na escola, nas manifestações contra o genocídio e em todos os cantos.

Nas instituições de poder, os mestiços não usurparão o lugar dos pretos para obter vantagem indevida, a exemplo das cotas no serviço público.

O que faremos?

As relações coletivas beneficiarão os despossuídos? O elo entre relações pessoais e coletivas serão repensados?

A ancestralidade e a afrodescendência serão realocados?

Cada brasileiro e brasileira abandonará o ideal simbólico da reparação e substituirá por direitos?

O que vai acontecer quando Zumbi e Dandara chegarem?

Vamos fazer um projeto de nação sem racismo?

Faremos um novo congresso e dele sairá um projeto político antirracista? Merecemos um Brasil sem racismo.

Talvez seja socialista, talvez tenha outro ”ista” da vida futura.

A pergunta imagética do título ao ser reeditada no século XXI nos unificará em um ponto, não queremos perecer com o capitalismo. O que fazer? A ideia está atrasada. Temos mais dúvidas que respostas.

Acima de tudo o projeto político será combativo ao racismo e todas as formas de opressão, fara a transição de igualitário a equânime amparado nos direitos e será humanizado. Será participativo para ser democrático e capaz de proporcionar uma vivência de paz, alegria e amor entre homes e mulheres, entre pretos, brancos e amarelos, e o que você quiser ser.

Podemos afirmar sem titubear que o letramento racial é importante para todos os grupos sociais e se depender dele teremos respostas diversas mais efetivas.

Bibliografia


[1] Ver site da UFRN O glossario da desigualdade.
(https://www.observatoriodasdesigualdades.ccsa.ufrn.br/)

[2] Ver Racismo no Brasil: percepção da discriminação e do preconceito racial no século XXI. Org., Gevanilda Santos & M. Palmira Silva, 1ª ed. SP, Editora  Fundação Perseu Abramo, 2005 – cap. .I

[3] O Genocídio do negro brasileiro: processo de um racismo mascarado, NASCIMENT0, A. RJ,ipeafro, 2016. E gonzalez.l – Primavera para  as rosas negras, SP, UCpa, 2018.

 [4] ver   https://www.youtube.com/watch?v=207Y_1DkRFc


CARDOSO.H .  & EMIR SADER (Org.) Movimentos sociais na transição democrática,SP, CORTEZ, 1987.

História recente – dez anos do movimento negro, IN: https://teoriaedebate.org.br/1988/03/15/sociedade-historia-recente-dez-anos-do-movimento-negro/

GONZALES, L PRIMAVERA PARA AS ROSAS NEGRAS, SP, UCPA, DIASPORA AFRICANA, 2018. NASCIMENTO, A – O Genocídio do negro brasileiro: processo de um racismo mascarado. RJ, IPEAFRO, 2016.

____________

O quilombismo, RJ, VOZES, 1980, SANTOS. G, MP & SILVA. M.P – O RACISMO NO BRASIL: percepção da discriminação e do preconceito  acial no século XXI. Org. Gevanilda Santos & M. Palmira SILVA, 1ª ed. SP, Editora   Fundação Perseu Abramo, 2005 – cap.1

Pesquisa no mês de maio de 2026 – ver site da UFRN sobre desigualdades de Gevanilda Santos.

Gevanilda Santos é colaborador e ativista da Soweto Organização Negra: uma entidade do Movimento Negro Paulista filiada Coordenação Nacional de Entidades Negras/CONEN. Mora na cidade de Salvador-BA e se dedica à produção editorial e à pesquisa no campo das relações sociais e políticas das desigualdades sociorraciais.  Proferiu várias palestras tematizando o racismo e o machismo enfrentado pela população negra com destaque para as correlações das relações raciais brasileiras, diáspora negra e relações de gênero, raça e classe em instituições sociais a exemplo da Ação Educativa, do Sesc São Paulo, escolas públicas, universidades e organizações do Movimento Social Negro Paulista. 
No mercado editorial publicou livros e artigos em revistas e coautoria ou autoral na editora da Fundação Perseu Abramo, Editora Nefertiti, Edições Soweto, Taylor & Francis Group, Grupo Summus – Selo Negro, Edições Sesc, Appris e Afro-Cebrap.

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