A semente continua viva

A semente continua viva

Junho 6, 2026 Comentários fechados em A semente continua viva By Soweto*#%!

Flavinho – A semente continua viva por Pedro Jorge Santos

Hoje, dia 6 de junho de 2026 completam-se dois anos da partida do meu pai para o Orum. Confesso que, quando tudo aconteceu, imaginei que o tempo diminuiria a saudade. Descobri que ele fez outra coisa. Transformou a saudade em aprendizado.

Há conversas que só fazem sentido depois do silêncio. Há ensinamentos que só amadurecem quando já não podemos mais fazer uma pergunta. Talvez por isso eu tenha demorado dois anos para escrever este texto. Não porque faltassem palavras. Mas porque eu precisava aprender algumas coisas antes de escrevê-las.

Durante muito tempo achei que o legado do meu pai estivesse nas entidades que ajudou a construir, nas conferências das quais participou, nas políticas públicas que ajudou a defender ou nas pessoas que formou ao longo da vida. Hoje entendo que tudo isso faz parte da história. Mas o legado que mais me orgulho é outro. É perceber que muitas das coisas que ele dizia começaram a fazer sentido justamente quando ele já não estava mais aqui para repeti-las.

Quando era mais novo, via meu pai sair cedo para reuniões, congressos, marchas, viagens e encontros. Para mim, aquilo era apenas a rotina de alguém muito comprometido com o trabalho. Eu não fazia ideia do tamanho daquela caminhada.

Hoje, olhando para trás, entendo que cada reunião, cada viagem e cada debate ajudaram a construir direitos que hoje parecem naturais para muita gente, mas que nasceram da coragem de homens e mulheres que entenderam que era preciso organizar o povo preto para transformar o Brasil.

Nenhuma dessas conquistas caiu do céu. Cada uma delas custou tempo, renúncia, estudo, diálogo, enfrentamentos e muita construção coletiva. E talvez tenha sido justamente isso que mais aprendi com meu pai. A luta nunca foi sobre aparecer. Sempre foi sobre construir.

Com o tempo também entendi que meu pai nunca esperou que todos seguissem exatamente o mesmo caminho que ele escolheu. Pelo contrário, ele acreditava nas pessoas e na juventude. Acreditava que cada um encontraria seu jeito de contribuir.

Hoje vejo isso com mais clareza.
Tem quem esteja nas organizações do movimento negro.
Tem quem faça política, quem transforme vidas pela educação, quem leve a mensagem através do hip-hop, da cultura e da arte.
Tem quem empreenda, quem pesquise, quem faça ciência, quem comunique, quem cuide da comunidade.
Tem quem ensine os filhos a terem orgulho de serem pretos.
Tudo isso também é continuidade.

Durante muito tempo achei que militância tivesse apenas um formato. Hoje entendo que ela pode ter muitos rostos. O importante é que nunca percamos aquilo que nossos mais velhos nos ensinaram.

E, entre todos os ensinamentos, existe um que hoje faz ainda mais sentido para mim. O respeito aos mais velhos.

Quando era criança, achava que era apenas uma demonstração de educação. Hoje entendo que é um princípio. É uma forma de dizer que ninguém chega a lugar nenhum sozinho. Antes de cada passo que damos houve alguém enfrentando portas fechadas para que hoje encontrássemos algumas delas abertas. Respeitar nossos mais velhos nunca significou viver olhando para trás. Significa saber de onde viemos para escolher, com mais consciência, para onde queremos ir.

A geração do meu pai nos deixou muito mais do que leis, instituições e organizações. Nos deixou uma forma de viver. Nos ensinou que é possível sonhar alto sem deixar ninguém para trás.  Que sucesso individual não precisa caminhar separado do compromisso coletivo. Que prosperar também pode significar abrir caminhos para outras pessoas.

Talvez por isso a música de Edson Gomes rei do reggae brasileiro faça tanto sentido para mim quando diz:

“Vamos amigo lute, se não a gente acaba perdendo o que já conquistou.”

Durante muito tempo ouvi essa frase como um chamado para resistir. Hoje escuto como um convite para cuidar.

Cuidar da memória.
Cuidar das organizações.
Cuidar dos nossos mais velhos.
Cuidar das novas gerações.
Cuidar uns dos outros.

Porque talvez seja justamente isso que meu pai tenha tentado fazer durante toda a sua vida.

Hoje a saudade continua.
A falta continua.
Mas elas já não caminham sozinhas.
Caminham ao lado da gratidão.
Da responsabilidade.
E da esperança.

Aprendi que legado não é aquilo que uma pessoa deixa quando parte. Legado é aquilo que continua ensinando mesmo na ausência. E talvez seja por isso que, dois anos depois, eu ainda continue aprendendo com ele.

Se hoje estamos colhendo os frutos das árvores plantadas por quem veio antes de nós, fica uma pergunta que faço primeiro a mim mesmo:

Que tipo de legado nós queremos deixar quando chegar a nossa vez de partir?

Pedro Jorge Santos Silva é formado em Comunicação e Marketing pela UNICID (Universidade de São Paulo), colaborador e ativista da Soweto Organização Negra.

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