O pensamento negro radical e a prática militante de Flavio Jorge
O pensamento negro radical e a pratica militante de Flavio Jorge
Por Thays Carvalho e Nonato Nascimento*.
No último dia 6 de junho de 2025, organizações do movimento negro e do campo popular no Brasil e no mundo fizeram memória da presença ancestral e do legado militante do companheiro de muitas lutas e sonhos, Flávio Jorge — o “Flavinho” – da Soweto Organização Negra e da Coordenação Nacional de Entidades Negras (CONEN). Um ano após sua passagem ao Orum, celebramos sua presença e continuidade ancestral nas lutas de combate ao racismo e a todas as formas de opressão e exploração que atingem a comunidade negra e a classe trabalhadora.
Flavinho contribuiu de forma significativa para as vitórias e conquistas do povo brasileiro, para o enfrentamento ao racismo, para a consolidação de importantes políticas públicas de igualdade racial e para construir um projeto popular para o Brasil. Sua trajetória é marcada por contribuições fundamentais para a organização do Movimento Negro em âmbito nacional e internacional. Foi um dos principais articuladores e porta-voz do 1º Encontro Nacional de Entidades Negras – ENEN, realizado em 1991, e da histórica Marcha Zumbi dos Palmares Contra o Racismo, realizada em 20 de novembro de 1997.
Como tantos outros intelectuais negros, Flavinho foi um homem que tomou partido. Teve atuação decisiva na fundação do Partido dos Trabalhadores e das Trabalhadoras e da criação da Comissão Nacional de Negros e Negras do PT, sendo o primeiro Secretário a coordenar nacionalmente a Secretaria Nacional de Combate ao Racismo do PT. Também teve papel central na formulação e criação da SEPPIR (Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial), que iniciou um processo necessário de escuta e institucionalização das pautas do Movimento Negro.
É possível identificar sua digital política tanto no processo de organização do movimento negro contemporâneo quanto nas políticas públicas de promoção da igualdade étnico-racial. Sua capacidade de construir unidade e trabalho coletivo entre as diversas organizações foi essencial para ampliar o poder de incidência política do movimento negro — tanto no campo institucional quanto na luta popular por políticas de reparações.
Fazer memória de sua trajetória política é reafirmar o compromisso negro com a revolução brasileira e atualizar os sentidos do Protesto Negro impulsionado pelas organizações negras. Ao seguir seus passos, é possível reconhecer a intencionalidade de sua militância e de sua escrita insubmissa, que influenciou de maneira decisiva na formação de quadros políticos negros preparados para enfrentar os desafios estruturais vivenciados pelos Condenados da Terra.
Flavinho esteve presente na articulação política e na formação do pensamento negro radical contemporâneo. Foi colaborador incansável do jornal PT Notícias – Semanário do Diretório Nacional do Partido dos Trabalhadores –, contribuindo com reflexões teóricas e estratégicas fundamentais na agenda de combate ao racismo. Na edição nº 55, de 25 de novembro a 1º de dezembro de 1997, alertou a militância para a necessidade de “Ampliar a Consciência Negra!”, afirmando:
“O que está em disputa é a consciência negra sobre qual tipo de democracia estamos vivendo e sobre qual é a sociedade que queremos e estamos construindo, sem hipocrisia, sem opressão e livre dos valores que dão sustentação ao racismo. Não tenhamos ilusão – nada ocorrerá de maneira suave ou cordial, mas sim por meio de grandes e estruturais transformações da sociedade brasileira.”
Seu pensamento e prática política eram de natureza profundamente revolucionária. Foi um defensor das lutas de libertação nacional no continente africano e compreendia o papel pedagógico das lutas anticoloniais.
Ao demarcar o sentido político da consciência negra de forma ampliada, Flavinho contribuía de maneira incisiva para o debate sobre a intencionalidade da ação política do movimento negro em torno de uma agenda estrutural de transformação da realidade brasileira. Em tempos de crises de rumo e de perspectiva, o pensamento de Flávio Jorge segue sendo um dos aportes fundamentais para o entendimento de que não “… é possível amenizar o racismo e ao mesmo tempo implementar a cartilha neoliberal, cujo legado é a exclusão de parcela significativa da população brasileira, em sua maioria negra”. Sua crítica radical ao capitalismo evidencia a lucidez de sua análise do racismo enquanto determinação estrutural deste modo de produção.
O movimento negro contemporâneo tem em Flavinho um de seus maiores expoentes e articuladores. Dedicou décadas de militância à construção do pensamento negro radical de esquerda no Brasil, colocando em prática as lições de Amílcar Cabral, que afirmou: “o primeiro passo da resistência política é juntar o máximo de gente possível para a luta”. Flavinho foi um operário da unidade das organizações negras em torno de uma agenda revolucionária, e nessa tarefa reuniu muitas e muitos para tocar a luta da negra gente.
Em 1995, escreveu o texto de apresentação da edição “Faça a Coisa Certa! O combate ao racismo em movimento”, número especial da revista Teoria e Debate (nº 31), em comemoração ao tricentenário da imortalidade de Zumbi dos Palmares. A apresentação é uma síntese de seu pensamento como intelectual orgânico, com atenção aos principais temas da conjuntura nacional e internacional e à atuação política das organizações negras.
Flavinho identificou, com precisão, “as novas formas de articulação e expressão da militância negra em múltiplos espaços: locais de trabalho, organizações rurais, sindicatos, movimentos populares, partidos políticos, universidades, parlamentos, entidades religiosas, mulheres negras, órgãos governamentais, entre outros”. Como dirigente, não mediu esforços para fortalecer a unidade do movimento negro em toda sua diversidade — um valor que nossa geração deve preservar e cultivar como patrimônio político.
Destaca-se também sua atenção e entusiasmo pelo protagonismo do Movimento de Mulheres Negras. Reconheceu o potencial político e teórico da sua atuação e percebeu “a emergência desse movimento, com identidade própria e caráter nacional”, como resposta necessária à formação racista e patriarcal da sociedade brasileira. Foi entusiasta da presença das mulheres negras brasileiras nos debates nacionais e internacionais, como na IV Conferência Mundial sobre a Mulher, em Pequim (1995), que teve entre os destaques o pensamento de Lélia Gonzalez e ativismo de Matilde Ribeiro.
Ao recordar as declarações, reforçamos um dos valores imprescindíveis na trajetória de Flavinho: o zelo pela unidade e diversidade do movimento negro brasileiro e a construção de uma nova sociedade.
Ele acreditava, sem sombra de dúvidas, no poder transformador da militância negra para romper com as estruturas geradoras e reprodutoras de desigualdade.
Nossa geração teve a honra de conviver com Flavinho em momentos decisivos da recente trajetória do Movimento Brasil Popular. A nossa construção é de inteira responsabilidade nossa, mas foi imprescindivelmente marcada pela contribuição de Flavinho. O campo político que fazemos parte desenvolveu a partir do final da década de 90 uma certa ideia de Brasil, sintetizada na ideia de construir um Projeto Popular para o Brasil. Tal projeto viria a ser constituído na contramão das concepções eurocêntricas e se propondo a uma interpretação consequente da realidade brasileira, resgatando uma série de autores que pensaram criticamente o país. Apesar da importância e originalidade desse período, não estava colocado explicitamente uma concepção antirracista em nossas formulações. Até se pode extrair alguns elementos das formulações de então, mas é um fato que o que tínhamos era muito insuficiente ante a relevância que esta questão tem para a compreensão das particularidades da nossa formação social. E Flavinho contribuiu desde o princípio para superarmos esta limitação, com generosidade, paciência e entusiasmo a cada novo passo dado, contribuindo para afirmarmos o potencial revolucionário da fusão de raça e classe.
Nessa mesma direção, soube reconhecer imediatamente o potencial de um movimento como o Levante Popular da Juventude para forjar uma práxis negra do campo do Projeto Popular. A nacionalização do Levante, no contexto de ampliação das políticas de ações afirmativas, possibilitou a ampliação da nossa força social, em especial, nas periferias urbanas, tensionando positivamente a nossa construção dar esse salto na elaboração e na prática.
A convivência com Flavinho fez com que tivéssemos oportunidade de conhecer importantes quadros do movimento negro em todo país e ter acesso a memória das principais lutas e personagens que foram completamente invisibilizados e que passamos a conhecer através do seu testemunho e de outros companheiros e companheiras. O compromisso com esta memória é uma responsabilidade política que carregamos como uma tarefa deixada por ele para nós para que as próximas gerações conheçam os que vieram antes de nós e abriram os caminhos que trilhamos hoje.
Esse fio histórico foi fundamental para construção da Escola Nacional Paulo Freire em São Paulo enquanto uma escola de caráter nacional, mas territorializada em São Paulo em um bairro de forte presença negra, território de muitas lideranças da Frente Negra Brasileira e região onde próprio Flavinho viveu e construiu o seu próprio quilombo. Uma das ruas que cerca a Escola é uma rua que homenageia Lino de Pinto Guedes, jornalista, poeta e militante do movimento negro.
Flavinho contribuiu ainda com a elaboração que culminou ainda em 2019, no primeiro ano da Escola, do Curso Capitalismo, Racismo e Patriarcado: um curso nacional que reuniu as elaborações práticas e teorias dos militantes de todo país e impulsionou decisivamente a nossa práxis. Contribuiu diretamente com reflexões sobre nossos referenciais teóricos, pensando o lugar dos(as) intérpretes negros(as) da realidade nacional nos Cursos de Realidade Brasileira (CRB).
Dirigente e mestre, sabia escutar com atenção as pretensões políticas partidárias e admirava nossa disposição de construir unidade na diversidade. Acompanhou a construção do Movimento Brasil Popular e foi referência decisiva para a criação do Setor Nacional de Igualdade Étnico-Racial, aproximando nossa organização da Coordenação Nacional de Entidades Negras (CONEN) e da Convergência Negra.
Em São Paulo, contribuiu para que essa aproximação se desdobrasse em uma experiência teórica e prática de construção do nosso movimento – a Frente Negra.
A Frente Negra impulsionou a militância negra do Movimento Brasil Popular a desenvolver ações de enraizamento territorial, cultural e a consolidar a Casa Luiz Gama como mais um espaço de referência e de auto-organização negra e popular.
Um ano após sua partida, fazemos memória de sua presença ancestral em movimento, carregando o sentimento revolucionário que nos move:
“Continuidade da tradição de rebeldia e insubmissão iniciada nos quilombos, o povo negro volta a emergir como sujeito político, rompendo o véu e destruindo a invisibilidade que tentaram inutilmente lhe impor.”
Companheiro Camarada Flávio Jorge, presente sempre!
Breves reflexões do conservadorismo jovem na era da desconstrução – um alerta para a juventude negra
Katharina Martins [1]
A convite de Lucas Assis, diretor de Articulação Política em nome da Soweto Organização Negra, produzo esta reflexão em um momento crucial: o Mês das Juventudes. Agosto é atravessado por datas que nos convocam a pensar os caminhos da e para a juventude negra no Brasil e no mundo. No dia 5, celebramos o aniversário do Estatuto da Juventude no Brasil, que reconhece jovens — para fins de políticas públicas — como pessoas entre 15 e 29 anos. O Estatuto estabelece que os jovens são sujeitos de direitos e prevê o fortalecimento de sua autonomia, emancipação, criatividade, participação política e bem-estar. No dia 11, celebramos o Dia do Estudante; e no dia 12, o Dia Internacional da Juventude, reconhecido pela ONU, que considera como juventude a faixa etária entre 15 e 24 anos. A data propõe uma reflexão sobre o papel das juventudes na construção de sociedades mais justas, democráticas e inclusivas.
É nesse cenário que a Soweto traz para o debate o crescimento do conservadorismo entre a juventude, especialmente entre os jovens homens, como indicam dados recentes da pesquisa internacional conduzida pela agência Glocalities — agência de pesquisa de mercado sediada em Amsterdã e com atuação global — revelam um crescimento expressivo dessa tendência. O levantamento ouviu mais de 300 mil pessoas em 20 países, incluindo o Brasil, e aponta que jovens do sexo masculino, especialmente aqueles entre 18 e 24 anos, estão se tornando cada vez mais conservadores. Esse crescimento ocorre em um contexto marcado por desilusão política e sentimento generalizado de desesperança em relação ao futuro. Enquanto, globalmente, as mulheres jovens têm se tornado cada vez mais liberais e antipatriarcais — sendo consideradas pelos pesquisadores possivelmente “o grupo mais liberal da história humana” —, os homens jovens já ultrapassaram homens de 55 a 70 anos como o grupo mais socialmente conservador.
Essa cisão geracional e de gênero evidencia que o avanço das pautas progressistas têm encontrado resistências específicas, muitas vezes ancoradas em uma reação conservadora masculina que busca preservar privilégios historicamente garantidos pelo patriarcado. A proposta desta reflexão é, portanto, contribuir com o debate público sobre esse fenômeno, analisando seus impactos para a juventude negra e refletindo sobre os desafios colocados aos movimentos sociais e às organizações comprometidas com a luta antirracista, democrática e popular.
Como nós, jovens, podemos compreender o crescimento de valores tradicionais num país que, há tempos, já deveria estar enfrentando de forma radical suas estruturas sociais, políticas e econômicas? Não se trata de uma pergunta retórica, mas de uma provocação urgente.
A juventude atual cresceu sob o peso de múltiplas crises: econômica, política, ambiental, sanitária. O colapso das promessas neoliberais de prosperidade individual, o aprofundamento das desigualdades e o esvaziamento da democracia representativa geraram desilusão, desesperança e um sentimento generalizado de frustração com o presente e o futuro. Afinal, estamos vivendo um contexto de transição no qual discursos progressistas — sobretudo aqueles produzidos por coletivos e intelectuais negros e negras — vêm disputando narrativas e convocando novas formas de (re)existir, sonhar e realizar. A busca por justiça, liberdade e dignidade para os nossos tornou-se incontornável.
Então, por que o conservadorismo, que opera pelo medo, pela manutenção da ordem e pelo apagamento da diversidade e das contribuições de grupos marginalizados, têm encontrado tanto eco justamente entre aqueles que cresceram em meio à era da desconstrução dos discursos de ódio?
Estudos recentes conduzidos pela psicóloga Beatriz Besen, pós-doutoranda do Núcleo de Estudos da Violência (NEV-USP), apontam que uma parcela significativa da população jovem tem sido atraída pelas direitas radicais no cenário internacional — sendo o Brasil um dos países onde essa influência revela-se com mais força. A pesquisa global da Glocalities reforça essa tendência ao evidenciar que, entre os jovens homens, cresceu a valorização da obediência, da autoridade e da religiosidade, bem como a defesa de modelos familiares rígidos.
Esse conservadorismo não se apresenta apenas como opinião pessoal, mas como um campo político que representa uma reação às conquistas das lutas feministas, antirracistas e LGBTQIAPN+ — alimentando projetos antidemocráticos e reacionários. À medida que essas lutas desafiam as estruturas tradicionais de poder — baseadas na supremacia branca, na dominação masculina, na heteronormatividade —, elas provocam também o medo e o ressentimento daqueles que se sentem deslocados em um mundo em transformação.
Outro fator decisivo é o impacto das redes sociais e das novas tecnologias de comunicação. Plataformas como YouTube, TikTok, X (ex-Twitter) e podcasts tornaram-se terreno fértil para a proliferação de conteúdos que oferecem aos jovens homens uma narrativa simplificada do mundo: eles seriam as “verdadeiras vítimas” das transformações sociais, e o feminismo e o antirracismo representariam ameaças diretas à sua liberdade e à sua virilidade.
É nesse contexto que se fortalece a chamada comunidade Redpill, termo inspirado no filme Matrix e apropriado por grupos que culpam o feminismo e as pautas progressistas por uma suposta “crise” da masculinidade. Para esses grupos, a desigualdade entre homens e mulheres seria uma espécie de ordem natural — uma estrutura que teria sido rompida nos tempos atuais. Por isso, dizem que é preciso “tomar a pílula vermelha”: ou seja, despertar para esse suposto desequilíbrio e lutar pelo restabelecimento da “ordem” anterior. Trata-se de um discurso reacionário que se disfarça de libertador, mas que na prática tem promovido o ódio às mulheres, o desprezo à diversidade e o culto à masculinidade tóxica.
Além das redes sociais, é fundamental considerar o papel das Igrejas Evangélicas — na construção e reforço de imaginários conservadores entre jovens, inclusive jovens negros. Em muitas comunidades periféricas, a igreja ocupa lugar central na vida cotidiana, oferecendo acolhimento espiritual e redes de apoio, mas também difundindo concepções rígidas de família, sexualidade e gênero. O crescimento do fundamentalismo religioso tem reforçado a ideia de que o “homem de verdade” é aquele que exerce autoridade sobre sua casa, reprime emoções e protege a “ordem moral”. Esse modelo de masculinidade, associado à hierarquia e ao controle, é frequentemente apresentado como orientação divina — o que confere legitimidade religiosa a discursos patriarcais e lgbtfóbicos. Nessas narrativas, a luta antirracista, o feminismo e a luta da comunidade LGBTQIAPN+ são apresentados como ameaças espirituais, desvios ou inimigos do “plano de Deus”. Essa perspectiva, ao mesmo tempo em que atrai pela sensação de pertencimento e salvação individual, acaba servindo a projetos de dominação que silenciam as potências libertadoras do próprio cristianismo e aprofundam a culpabilização dos corpos dissidentes e subalternizados.
Mas o problema não se limita aos discursos mais radicais. Há uma difusão mais ampla e sutil de valores conservadores, muitas vezes travestidos de “bom senso” ou “opinião pessoal”, que promovem a negação das desigualdades estruturais, a defesa da meritocracia e o ataque aos movimentos sociais. Somam-se a isso a criminalização da pobreza, o desprezo pela história dos grupos racializados, povos originários, comunidades tradicionais e a difusão do autoritarismo. Não podemos ignorar que essa lógica atinge inclusive jovens negros, capturados por uma promessa de ascensão individual e pertencimento social que, na prática, os afasta de suas raízes, da cultura afro-brasileira e das tradições de luta coletiva que historicamente sustentaram os caminhos de (re)existência e emancipação do nosso povo.
Isso nos impõe o desafio de criar estratégias de diálogo e formação política que enfrentem o avanço do conservadorismo entre os jovens sem recorrer à criminalização ou à deslegitimação dos afetos que o alimentam.
Para nós, juventude negra brasileira, o avanço do conservadorismo adquire contornos ainda mais perversos. Quando esses discursos ganham espaço entre jovens negros, a contradição se impõe de forma contundente. Trata-se de uma adesão que, muitas vezes, reforça justamente as estruturas que sempre nos negaram pertencimento, humanidade e direitos. Em vez de representar uma ruptura com as desigualdades, esse conservadorismo reforça a lógica do silenciamento, da submissão, da responsabilização individual e da negação do coletivo como potência. Além disso, ameaça diretamente o avanço das pautas antirracistas e reforça o racismo estrutural que marca a sociedade brasileira.
Diante desse cenário, o alerta para nós, juventude negra: a desconstrução não é um caminho linear, e a vigilância precisa ser permanente. Contudo, a resposta não pode ser o silêncio ou a passividade. Pelo contrário, é preciso fortalecer as bases da nossa resistência e ampliar os horizontes da construção de um futuro antirracista. Assim, o diálogo e a educação crítica são elementos centrais nesse processo. É fundamental criar espaços seguros para que possamos questionar, debater e compreender as raízes do conservadorismo, desmistificando suas promessas e expondo suas consequências. Isso passa por um letramento racial que celebre a nossa história e as conquistas do povo negro, bem como pelo desenvolvimento de um pensamento crítico sobre os conteúdos que circulam, especialmente nas redes sociais.
Nesse contexto, torna-se urgente retomar as narrativas produzidas pelas juventudes negras em seus territórios: nas quebradas, nos movimentos sociais, nos coletivos culturais, nas universidades, nos terreiros, nas ocupações e nas rodas de conversa. São esses espaços que vêm, historicamente, forjando alternativas concretas frente às opressões estruturais. O rap brasileiro, por exemplo, tem sido um dos principais instrumentos de denúncia e formação política da juventude negra. Nesses sons, estão inscritas as dores e as potências de quem sobrevive e sonha em meio ao caos. E é também nesses lugares que se constroem outras possibilidades de existência, alicerçadas na coletividade, na memória ancestral e na luta por dignidade.
Dessa forma, entende-se que o papel de organizações como a Soweto Organização Negra — e de tantos outros coletivos — é insubstituível nesse processo. São esses espaços que nos oferecem acolhimento, formação e ferramentas para que possamos nos reconhecer, nos fortalecer e nos organizar. A Soweto, por exemplo, atua em frentes fundamentais: a preservação da memória negra por meio do Acervo e Biblioteca Luiz Gama; a produção de publicações e artigos que incidem no debate público e nas políticas; a promoção da Educação Antirracista e da Lei 10.639/2003; o fortalecimento da Comunicação Antirracista; e a defesa intransigente dos direitos das Mulheres Negras e da Diáspora Africana.
Mas é preciso também fazer autocrítica. Como movimentos sociais, organizações negras e lutas organizadas, ainda não temos conseguido dialogar plenamente com a juventude. Como disputar mentes e corações? Como nos comunicar com esses jovens? Como mobilizar afetivamente e politicamente quem se vê distante das nossas pautas? Como reinventar formas de convocar para a militância de maneira viva, concreta e situada?
Por isso, este Mês das Juventudes é um chamado à ação! Que a energia, a criatividade e a radicalidade da juventude negra brasileira sejam canalizadas para a construção de um Brasil mais justo e radicalmente antirracista. Que as rimas dos Racionais MC ‘s, os versos dos slams, as batidas do funk e do hip hop, as rodas de rima e tantas outras expressões que emergem das periferias sigam nos educando, inspirando e organizando. A história nos mostra que a juventude sempre esteve na linha de frente das grandes transformações. Logo, neste momento, cabe a nós seguir esse legado — com coragem, afeto e compromisso com a liberdade, que é uma luta constante, como nos ensina Angela Davis (2018).
REFERÊNCIAS
DAVIS, Angela Yvonne. A liberdade é uma luta constante. 1. ed. São Paulo: Boitempo Editorial, 2018.
BESEN, Beatriz. Cresce relação das direitas radicais com jovens no contexto internacional. Jornal da USP, 17 jul. 2023. Disponível em: <https://jornal.usp.br/atualidades/cresce-relacao-das-direitas-radicais-com-jovens-no-contexto-internacional/>. Acesso em: 30 jul. 2025.
LAU, Héliton Diego. Movimento Red Pill: a “nova” construção da “velha” identidade heterossexual. In: CONGRESSO DE INICIAÇÃO CIENTÍFICA DA UNIVAP, XXVIII, 2024, São José dos Campos. Anais […]. São José dos Campos: Univap, 2024. Disponível em: <https://www.inicepg.univap.br/cd/INIC_2024/anais/arquivos/RE_0864_0519_01.pdf>. Acesso em: 30 jul. 2025.
ARDUINO, Nicholas Parra; CHAGAS, Nícolas Verli; TOLEDO, Lívia Gonsalves. Redpill: a propagação online de um movimento machista. In: XVI SIMPÓSIO DE FILOSOFIA MODERNA E CONTEMPORÂNEA, 2023, Porto Alegre. Anais […]. Porto Alegre: PUCRS, 2023. Disponível em: <https://ebooks.pucrs.br/edipucrs/anais/1559/assets/edicoes/2023/arquivos/5.pdf>. Acesso em: 30 jul. 2025.
INFOMONEY. Pesquisa global mostra que conservadorismo cresce mais entre homens jovens. InfoMoney, 16 mar. 2024. Disponível em: <https://www.infomoney.com.br/mundo/pesquisa-global-mostra-que-conservadorismo-cresce-mais-entre-homens-jovens/>. Acesso em: 30 jul. 2025.
INSTITUTO PROMUNDO. Como o ultraconservadorismo afeta a abordagem da história e cultura africana e afro-brasileira. Gênero e Educação, s.d. Disponível em: <https://generoeeducacao.org.br/como-o-ultraconservadorismo-afeta-a-abordagem-da-historia-e-cultura-africana-e-afro-brasileira/>. Acesso em: 30 jul. 2025.
[1] Graduanda em Psicologia, Universidade Federal Fluminense (UFF). E-mail: katharina.martins@id.uff.br
Nota de repúdio – Dra. Maria Inês
A Soweto Organização Negra, organização que há três décadas luta contra o racismo e todas as formas de opressão, vem manifestar seu repúdio a violência sofrida pela Dra. Maria Inês Barbosa, durante a Conferência Municipal de Cuiba, por parte do prefeito Abilio Brunini (PL-MT).
O uso de termos como “pessoas trans”, “identidade de gênero” ou outros relacionados ao respeito e à inclusão, não constitui uma imposição ideológica, mas sim um reconhecimento da pluralidade humana e um compromisso com os princípios de solidariedade, acolhimento e justiça.
Dra. Maria Inês Barbosa tem uma trajetória impar na defesa dos SUS, das pessoas oprimidas, no combate ao racismo, em especial, o racismo na saúde.
A Soweto reafirma seu compromisso com uma saúde pública, inclusiva e com espaços democráticos, formativos, que respeitem a diversidade de corpos, identidades e vozes.
Sowetiano e Rapper Panikinho assume a gestão da Casa de Cultura Municipal de Hip-Hop Leste
Novidade marca retorno do artista ao equipamento cultural e inicia com atividades voltadas ao movimento
Na última sexta-feira, 13 de junho de 2025 — data simbólica dedicada a Exu, o mensageiro das encruzilhadas —, o rapper, produtor e arte-educador Gildean Silva, conhecido como Panikinho, foi oficialmente nomeado gestor da Casa de Cultura Municipal Hip-Hop Leste, localizada no bairro de Cidade Tiradentes, extremo leste da cidade de São Paulo. A nomeação foi publicada no Diário Oficial do Município, marcando o retorno do multiartista ao equipamento cultural que ajudou a consolidar como espaço de resistência e formação cultural da juventude periférica.
A programação pensada pelo novo gestor terá início no próximo mês de agosto, com atividades que visam fortalecer os artistas independentes e promover o diálogo intergeracional entre os diversos segmentos da cultura hip-hop. Além disso, busca-se dar visibilidade e fortalecer vozes que historicamente foram pouco reconhecidas, mas que têm causado um impacto significativo na cena, como a crescente participação de artistas indígenas, mulheres, pessoas LGBTQIAPN+, entre outras expressões periféricas que trazem narrativas potentes e ressignificam, cada vez mais, a cultura.
Com mais de três décadas de trajetória no movimento hip-hop, Panikinho é um dos nomes históricos da cultura periférica paulistana. Multiartista, arte-educador, produtor e articulador cultural, o rapper também atua como gestor, coordenador e supervisor artístico-pedagógico. É graduado em Pedagogia pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e especialista em Organização de Eventos pelo SENAC-SP. Ao longo dos anos, acumulou experiências relevantes como gestor cultural na UNIFESP, supervisor na Fábrica de Cultura do Jaçanã e coordenador de cultura na gestão municipal de Fernando Haddad.

A história de Panikinho
Panikinho iniciou sua jornada artística como b-boy nos anos 1980, motivado pela presença do breakdance em novelas como “Partido Alto”. Aos 14 anos, já escrevia suas primeiras rimas, que evoluíram para composições conscientes e combativas no rap. Em 1994, passou a integrar o grupo Fator Ético, um dos fundadores da Aliança Negra Posse, e desde então, vem acumulando colaborações com projetos de impacto social e político, como o Projeto Rappers do Geledés e a Soweto Organização Negra, ligada à CONEN (Coordenação Nacional de Entidades Negras).
Entre 2007 e 2008, representou o Brasil em intercâmbios culturais como o Fórum Social Mundial no Quênia e o festival Noir Come Toi em Montreal, Canadá. Em 2011, liderou a campanha “Eu Africanizo São Paulo”, organizando o 1º Festival WAPI Brasil. Panikinho também é criador dos projetos musicais Xirê Rap e Rimas & Nostalgia, que combinam rap, religiosidade afro-brasileira e estética vintage em shows e vivências.
Essa nomeação tem sabor de retorno e reafirmação: em 2015, ele já havia sido o primeiro gestor da então Casa de Cultura Cidade Tiradentes. Dois anos depois, deixou o cargo quando o espaço passou por transformações e foi renomeado como Casa de Cultura Hip-Hop, resultado das demandas do movimento local. Agora, dez anos depois, o “filho à casa torna” para liderar novamente a Casa — agora batizada de Casa de Cultura Municipal Hip-Hop Leste.
Sua volta ao espaço marca não apenas a continuidade de um trabalho coletivo de resistência e arte, mas também a valorização da memória viva do hip-hop periférico como política pública. A nomeação de Panikinho representa a reocupação de um lugar histórico por quem, de fato, constrói e transforma a cultura nas bordas da cidade.
Mais informações:
📱 Instagram: @panikinhoficial
🔗 Linktree: linktr.ee/panikinhoficial
📧 E-mail: panikinho@gmail.com
Do Cabo ao Cairo, de São Paulo a Madagascar, por uma África livre
Dia da Libertação Africana é celebrado em 25 de maio
No último domingo, dia 25 de maio, foi comemorado o dia da Libertação Africana, criado em homenagem à criação da Organização da Unidade Africana, hoje União Africana. Fundada em 1963 em meio a uma década turbulenta onde muitos dos seus países passavam por processos de descolonização e de luta por independência, essa organização almejava, como o próprio nome diz, alcançar um continente Africano que superasse o imperialismo, o (neo)colonialismo e que pudesse se enxergar como uma terra livre, soberana e responsável por seus destinos.
62 anos depois da criação dessa importante ferramenta, temos uma África muito diferente daquela, mas ainda efervescente, ansiosa por reinvindicar sua autonomia, e que ainda luta com novas e velhas armas contra muitos dos problemas históricos que sofrem os países chamados “subdesenvolvidos”. Mas não nos enganemos: esses problemas podem ser históricos e duradouros, porém de forma alguma são problemas que possamos considerar como “naturais”, pois sempre que seguimos o rastro do endividamento, subdesenvolvimento ou terrorismo, chegamos nos mesmos agentes ocidentais e aliados, responsáveis pela colonização, escravidão e sistemas de apartheid/segregação racial que assombraram África e sua diáspora nos últimos 4 séculos.
A aqueles que de nós que reconhecem a importância de memorar, celebrar e dar continuidade ao significado dessa data, é importante estar conectado não só com as lutas históricas, mas com as lutas atuais do continente e diáspora que precisam de nossa voz, nosso suor e acima de tudo nossa solidariedade onde seja possível empregá-la.
Sahel
Hoje, talvez o maior símbolo da continuidade da luta dos povos africanos por um novo presente e futuro esteja em Burkina Faso, Mali e Níger, recentemente unidos na Aliança dos Estados do Sahel (AES na sigla em francês). O processo atual se inicia em 2020, quando uma junta militar toma o poder do Mali, removendo o então presidente alinhado com os interesses franceses e ocidentais.
Burkina Faso e Níger seguiram o exemplo do vizinho e desde então os três países tem assumido a linha de frente de uma luta ferrenha contra o Ocidente organizado.
Dentre as muitas conquistas alcançadas pela Aliança estão: a nacionalização do ouro em Burkina e do Urânio no Mali; o abandono nos três países do francês enquanto “idioma oficial” convertendo-o em língua de trabalho; investimento na agricultura e na indústria (com o exemplo de Burkina Faso investindo não apenas no plantio de tomates como na criação de fábricas pra produção de extrato/molho de tomate); a expulsão imediata de tropas francesas do território, assim como das equipes diplomáticas e das empresas de notícias e imprensa da antiga colônia; e a assinatura de diversos acordos de colaboração econômica e militar tanto entre os três países quanto com velhos inimigos do Ocidente, como Rússia e China.
Com direito até a crítica aberta do departamento militar americano, o carismático Capitão burkinabe Ibrahim Traoré declara que lidera em seu país uma Revolução Popular Progressista, e agremia apoio em seu continente e com seus irmãos na diáspora, que olham atentamente os passos que a AES dá rumo a um amanhã mais brilhante para o Sahel e para a África.
República Democrática do Congo
Se vemos no Sahel um farol de esperança, temos hoje na República Democrática do Congo uma situação quase oposta. Desde os tempos de Lumumba, o colonialismo nunca perdoou o Congo por ousar lutar por independência, ainda mais quando o país é uma das maiores reservas do mundo em cobre,ouro, zinco, diamante, cobalto, germânio, paládio e outros minerais de alto valor e preciosidade, sendo os dois últimos citados sendo de alto interesse na indústria de condutores que move a atual revolução industrial.
Após décadas de instabilidade política e econômica (muito bem aproveitada pelas grandes indústrias mineradoras multinacionais, diga-se de passagem), o país se encontra hoje refém de diversos grupos terroristas nacionais e estrangeiros, em especial a milícia ruandesa M23, que hoje tem sob seu controle pelo menos quatro grandes regiões que somadas são 8 vezes maiores que o território da Bélgica.
Hospitais superlotados, mais de 1,1 milhão de pessoas removidas de suas terras e 7 mil mortos, em sua maioria civis pegos no fogo cruzado ou deliberadamente assassinados pelas milícias ou pelo próprio governo, que hoje é inapto a resolver essa crise.
Por todo o continente africano, campanhas de solidariedade são criadas e movimentadas por diversas organizações sociais, porém não chegam aos ouvidos da comunidade internacional, que parece cega ou ignorante mais uma vez aos problemas que, não fossem em território africano, seriam motivo de comoção de todos os órgãos de direitos humanos do mundo.
Brasil
Ainda há muito a se falar sobre os movimentos que hoje lutam em solo africano por soberania e autodeterminação. Porém, não é apenas no continente que se luta pela Libertação Africana. Somos o país com maior população negra/afrodescendente fora da Nigéria, temos uma raiz africana que se manifesta em nossa música, culinária, religiosidade e em nossa cultura como um todo, e ainda hoje a população negra, em especial os imigrantes africanos, são tratados como cidadãos de segunda (ou pior) classe.
Tivemos em São Paulo, no mês de abril, o assassinato a sangue frio e em plena luz do dia do vendedor ambulante e imigrante senegalês Ngange Mbaye pela Polícia Militar de São Paulo, e isso ocorre no mesmo mês que um batalhão da PM celebra a conclusão de um treinamento fazendo alusão à simbologia da Ku-Klux-Klan e do Neo-Nazismo; temos na Bahia, estado com maior presença afrodescendente do país e governado pelo campo da centro-esquerda, o assassinato pelas mãos da polícia de uma pessoa negra a cada 7 horas, culminando em 90% de mortalidade negra nas ações policiais no estado; no Rio, a abordagem violenta de dois meninos negros de 12 e 13 anos de idade está movimentando a cidade contra a brutalidade policial e o racismo institucional carregado há séculos pelo Estado brasileiro.
É necessário que os Movimentos Negros, Movimentos Sociais e de luta por Direitos entendam que a libertação africana não é um tópico apenas do continente, uma vez que não haverá liberdade para a África até que todos os africanos, descendentes e a diáspora como um todo estejam livres e soberanos também.
Precisamos que nossos países sejam territórios seguros para essa população, que ela tenha acesso à moradia, educação de qualidade e trabalho digno. E que sejam tratados como cidadãos plenos e com seus direitos, em especial o direito à vida.
Afrika Moja, Afrika Huru
África livre, África unida!
*Lucas Assis é diretor de Articulação Politica da Soweto Organização Negra e militante da CONEN
Editado por: Raquel Setz