Breves reflexões do conservadorismo jovem na era da desconstrução – um alerta para a juventude negra
Katharina Martins [1]
A convite de Lucas Assis, diretor de Articulação Política em nome da Soweto Organização Negra, produzo esta reflexão em um momento crucial: o Mês das Juventudes. Agosto é atravessado por datas que nos convocam a pensar os caminhos da e para a juventude negra no Brasil e no mundo. No dia 5, celebramos o aniversário do Estatuto da Juventude no Brasil, que reconhece jovens — para fins de políticas públicas — como pessoas entre 15 e 29 anos. O Estatuto estabelece que os jovens são sujeitos de direitos e prevê o fortalecimento de sua autonomia, emancipação, criatividade, participação política e bem-estar. No dia 11, celebramos o Dia do Estudante; e no dia 12, o Dia Internacional da Juventude, reconhecido pela ONU, que considera como juventude a faixa etária entre 15 e 24 anos. A data propõe uma reflexão sobre o papel das juventudes na construção de sociedades mais justas, democráticas e inclusivas.
É nesse cenário que a Soweto traz para o debate o crescimento do conservadorismo entre a juventude, especialmente entre os jovens homens, como indicam dados recentes da pesquisa internacional conduzida pela agência Glocalities — agência de pesquisa de mercado sediada em Amsterdã e com atuação global — revelam um crescimento expressivo dessa tendência. O levantamento ouviu mais de 300 mil pessoas em 20 países, incluindo o Brasil, e aponta que jovens do sexo masculino, especialmente aqueles entre 18 e 24 anos, estão se tornando cada vez mais conservadores. Esse crescimento ocorre em um contexto marcado por desilusão política e sentimento generalizado de desesperança em relação ao futuro. Enquanto, globalmente, as mulheres jovens têm se tornado cada vez mais liberais e antipatriarcais — sendo consideradas pelos pesquisadores possivelmente “o grupo mais liberal da história humana” —, os homens jovens já ultrapassaram homens de 55 a 70 anos como o grupo mais socialmente conservador.
Essa cisão geracional e de gênero evidencia que o avanço das pautas progressistas têm encontrado resistências específicas, muitas vezes ancoradas em uma reação conservadora masculina que busca preservar privilégios historicamente garantidos pelo patriarcado. A proposta desta reflexão é, portanto, contribuir com o debate público sobre esse fenômeno, analisando seus impactos para a juventude negra e refletindo sobre os desafios colocados aos movimentos sociais e às organizações comprometidas com a luta antirracista, democrática e popular.
Como nós, jovens, podemos compreender o crescimento de valores tradicionais num país que, há tempos, já deveria estar enfrentando de forma radical suas estruturas sociais, políticas e econômicas? Não se trata de uma pergunta retórica, mas de uma provocação urgente.
A juventude atual cresceu sob o peso de múltiplas crises: econômica, política, ambiental, sanitária. O colapso das promessas neoliberais de prosperidade individual, o aprofundamento das desigualdades e o esvaziamento da democracia representativa geraram desilusão, desesperança e um sentimento generalizado de frustração com o presente e o futuro. Afinal, estamos vivendo um contexto de transição no qual discursos progressistas — sobretudo aqueles produzidos por coletivos e intelectuais negros e negras — vêm disputando narrativas e convocando novas formas de (re)existir, sonhar e realizar. A busca por justiça, liberdade e dignidade para os nossos tornou-se incontornável.
Então, por que o conservadorismo, que opera pelo medo, pela manutenção da ordem e pelo apagamento da diversidade e das contribuições de grupos marginalizados, têm encontrado tanto eco justamente entre aqueles que cresceram em meio à era da desconstrução dos discursos de ódio?
Estudos recentes conduzidos pela psicóloga Beatriz Besen, pós-doutoranda do Núcleo de Estudos da Violência (NEV-USP), apontam que uma parcela significativa da população jovem tem sido atraída pelas direitas radicais no cenário internacional — sendo o Brasil um dos países onde essa influência revela-se com mais força. A pesquisa global da Glocalities reforça essa tendência ao evidenciar que, entre os jovens homens, cresceu a valorização da obediência, da autoridade e da religiosidade, bem como a defesa de modelos familiares rígidos.
Esse conservadorismo não se apresenta apenas como opinião pessoal, mas como um campo político que representa uma reação às conquistas das lutas feministas, antirracistas e LGBTQIAPN+ — alimentando projetos antidemocráticos e reacionários. À medida que essas lutas desafiam as estruturas tradicionais de poder — baseadas na supremacia branca, na dominação masculina, na heteronormatividade —, elas provocam também o medo e o ressentimento daqueles que se sentem deslocados em um mundo em transformação.
Outro fator decisivo é o impacto das redes sociais e das novas tecnologias de comunicação. Plataformas como YouTube, TikTok, X (ex-Twitter) e podcasts tornaram-se terreno fértil para a proliferação de conteúdos que oferecem aos jovens homens uma narrativa simplificada do mundo: eles seriam as “verdadeiras vítimas” das transformações sociais, e o feminismo e o antirracismo representariam ameaças diretas à sua liberdade e à sua virilidade.
É nesse contexto que se fortalece a chamada comunidade Redpill, termo inspirado no filme Matrix e apropriado por grupos que culpam o feminismo e as pautas progressistas por uma suposta “crise” da masculinidade. Para esses grupos, a desigualdade entre homens e mulheres seria uma espécie de ordem natural — uma estrutura que teria sido rompida nos tempos atuais. Por isso, dizem que é preciso “tomar a pílula vermelha”: ou seja, despertar para esse suposto desequilíbrio e lutar pelo restabelecimento da “ordem” anterior. Trata-se de um discurso reacionário que se disfarça de libertador, mas que na prática tem promovido o ódio às mulheres, o desprezo à diversidade e o culto à masculinidade tóxica.
Além das redes sociais, é fundamental considerar o papel das Igrejas Evangélicas — na construção e reforço de imaginários conservadores entre jovens, inclusive jovens negros. Em muitas comunidades periféricas, a igreja ocupa lugar central na vida cotidiana, oferecendo acolhimento espiritual e redes de apoio, mas também difundindo concepções rígidas de família, sexualidade e gênero. O crescimento do fundamentalismo religioso tem reforçado a ideia de que o “homem de verdade” é aquele que exerce autoridade sobre sua casa, reprime emoções e protege a “ordem moral”. Esse modelo de masculinidade, associado à hierarquia e ao controle, é frequentemente apresentado como orientação divina — o que confere legitimidade religiosa a discursos patriarcais e lgbtfóbicos. Nessas narrativas, a luta antirracista, o feminismo e a luta da comunidade LGBTQIAPN+ são apresentados como ameaças espirituais, desvios ou inimigos do “plano de Deus”. Essa perspectiva, ao mesmo tempo em que atrai pela sensação de pertencimento e salvação individual, acaba servindo a projetos de dominação que silenciam as potências libertadoras do próprio cristianismo e aprofundam a culpabilização dos corpos dissidentes e subalternizados.
Mas o problema não se limita aos discursos mais radicais. Há uma difusão mais ampla e sutil de valores conservadores, muitas vezes travestidos de “bom senso” ou “opinião pessoal”, que promovem a negação das desigualdades estruturais, a defesa da meritocracia e o ataque aos movimentos sociais. Somam-se a isso a criminalização da pobreza, o desprezo pela história dos grupos racializados, povos originários, comunidades tradicionais e a difusão do autoritarismo. Não podemos ignorar que essa lógica atinge inclusive jovens negros, capturados por uma promessa de ascensão individual e pertencimento social que, na prática, os afasta de suas raízes, da cultura afro-brasileira e das tradições de luta coletiva que historicamente sustentaram os caminhos de (re)existência e emancipação do nosso povo.
Isso nos impõe o desafio de criar estratégias de diálogo e formação política que enfrentem o avanço do conservadorismo entre os jovens sem recorrer à criminalização ou à deslegitimação dos afetos que o alimentam.
Para nós, juventude negra brasileira, o avanço do conservadorismo adquire contornos ainda mais perversos. Quando esses discursos ganham espaço entre jovens negros, a contradição se impõe de forma contundente. Trata-se de uma adesão que, muitas vezes, reforça justamente as estruturas que sempre nos negaram pertencimento, humanidade e direitos. Em vez de representar uma ruptura com as desigualdades, esse conservadorismo reforça a lógica do silenciamento, da submissão, da responsabilização individual e da negação do coletivo como potência. Além disso, ameaça diretamente o avanço das pautas antirracistas e reforça o racismo estrutural que marca a sociedade brasileira.
Diante desse cenário, o alerta para nós, juventude negra: a desconstrução não é um caminho linear, e a vigilância precisa ser permanente. Contudo, a resposta não pode ser o silêncio ou a passividade. Pelo contrário, é preciso fortalecer as bases da nossa resistência e ampliar os horizontes da construção de um futuro antirracista. Assim, o diálogo e a educação crítica são elementos centrais nesse processo. É fundamental criar espaços seguros para que possamos questionar, debater e compreender as raízes do conservadorismo, desmistificando suas promessas e expondo suas consequências. Isso passa por um letramento racial que celebre a nossa história e as conquistas do povo negro, bem como pelo desenvolvimento de um pensamento crítico sobre os conteúdos que circulam, especialmente nas redes sociais.
Nesse contexto, torna-se urgente retomar as narrativas produzidas pelas juventudes negras em seus territórios: nas quebradas, nos movimentos sociais, nos coletivos culturais, nas universidades, nos terreiros, nas ocupações e nas rodas de conversa. São esses espaços que vêm, historicamente, forjando alternativas concretas frente às opressões estruturais. O rap brasileiro, por exemplo, tem sido um dos principais instrumentos de denúncia e formação política da juventude negra. Nesses sons, estão inscritas as dores e as potências de quem sobrevive e sonha em meio ao caos. E é também nesses lugares que se constroem outras possibilidades de existência, alicerçadas na coletividade, na memória ancestral e na luta por dignidade.
Dessa forma, entende-se que o papel de organizações como a Soweto Organização Negra — e de tantos outros coletivos — é insubstituível nesse processo. São esses espaços que nos oferecem acolhimento, formação e ferramentas para que possamos nos reconhecer, nos fortalecer e nos organizar. A Soweto, por exemplo, atua em frentes fundamentais: a preservação da memória negra por meio do Acervo e Biblioteca Luiz Gama; a produção de publicações e artigos que incidem no debate público e nas políticas; a promoção da Educação Antirracista e da Lei 10.639/2003; o fortalecimento da Comunicação Antirracista; e a defesa intransigente dos direitos das Mulheres Negras e da Diáspora Africana.
Mas é preciso também fazer autocrítica. Como movimentos sociais, organizações negras e lutas organizadas, ainda não temos conseguido dialogar plenamente com a juventude. Como disputar mentes e corações? Como nos comunicar com esses jovens? Como mobilizar afetivamente e politicamente quem se vê distante das nossas pautas? Como reinventar formas de convocar para a militância de maneira viva, concreta e situada?
Por isso, este Mês das Juventudes é um chamado à ação! Que a energia, a criatividade e a radicalidade da juventude negra brasileira sejam canalizadas para a construção de um Brasil mais justo e radicalmente antirracista. Que as rimas dos Racionais MC ‘s, os versos dos slams, as batidas do funk e do hip hop, as rodas de rima e tantas outras expressões que emergem das periferias sigam nos educando, inspirando e organizando. A história nos mostra que a juventude sempre esteve na linha de frente das grandes transformações. Logo, neste momento, cabe a nós seguir esse legado — com coragem, afeto e compromisso com a liberdade, que é uma luta constante, como nos ensina Angela Davis (2018).
REFERÊNCIAS
DAVIS, Angela Yvonne. A liberdade é uma luta constante. 1. ed. São Paulo: Boitempo Editorial, 2018.
BESEN, Beatriz. Cresce relação das direitas radicais com jovens no contexto internacional. Jornal da USP, 17 jul. 2023. Disponível em: <https://jornal.usp.br/atualidades/cresce-relacao-das-direitas-radicais-com-jovens-no-contexto-internacional/>. Acesso em: 30 jul. 2025.
LAU, Héliton Diego. Movimento Red Pill: a “nova” construção da “velha” identidade heterossexual. In: CONGRESSO DE INICIAÇÃO CIENTÍFICA DA UNIVAP, XXVIII, 2024, São José dos Campos. Anais […]. São José dos Campos: Univap, 2024. Disponível em: <https://www.inicepg.univap.br/cd/INIC_2024/anais/arquivos/RE_0864_0519_01.pdf>. Acesso em: 30 jul. 2025.
ARDUINO, Nicholas Parra; CHAGAS, Nícolas Verli; TOLEDO, Lívia Gonsalves. Redpill: a propagação online de um movimento machista. In: XVI SIMPÓSIO DE FILOSOFIA MODERNA E CONTEMPORÂNEA, 2023, Porto Alegre. Anais […]. Porto Alegre: PUCRS, 2023. Disponível em: <https://ebooks.pucrs.br/edipucrs/anais/1559/assets/edicoes/2023/arquivos/5.pdf>. Acesso em: 30 jul. 2025.
INFOMONEY. Pesquisa global mostra que conservadorismo cresce mais entre homens jovens. InfoMoney, 16 mar. 2024. Disponível em: <https://www.infomoney.com.br/mundo/pesquisa-global-mostra-que-conservadorismo-cresce-mais-entre-homens-jovens/>. Acesso em: 30 jul. 2025.
INSTITUTO PROMUNDO. Como o ultraconservadorismo afeta a abordagem da história e cultura africana e afro-brasileira. Gênero e Educação, s.d. Disponível em: <https://generoeeducacao.org.br/como-o-ultraconservadorismo-afeta-a-abordagem-da-historia-e-cultura-africana-e-afro-brasileira/>. Acesso em: 30 jul. 2025.
[1] Graduanda em Psicologia, Universidade Federal Fluminense (UFF). E-mail: katharina.martins@id.uff.br