Cartilha CONEN COVID 19
Plataforma para SALVAR VIDAS E GARANTIR DIREITOS A POPULAÇÃO NEGRA.
Flavio Jorge Rodrigues da Silva *
São diversos os posicionamentos e manifestos propondo saídas e alternativas para o enfrentamento do grave momento que estamos vivendo no Brasil e no mundo. Um dos mais importantes é a “Plataforma emergencial para o enfrentamento da pandemia do Corona vírus e da crise brasileira”, construído pelas Frentes Brasil Popular e Povo sem Medo, partidos políticos do campo democrático e popular, centrais sindicais, movimentos populares e estudantis, organizações democráticas da sociedade brasileira, pela sua densidade propositiva, política e construção unitária. Além de seu caráter emergencial e específico – combater o corona vírus – essa Plataforma amplia o debate sobre a necessidade de um projeto em condições de promover, de fato, reformas estruturais e as transformações necessárias na sociedade e na vida dos brasileiros e brasileiras.
A CONEN – Coordenação Nacional de Entidades
Negras, contribuiu com a elaboração e assina essa Plataforma. Entretanto, com
esse documento, chama a atenção dos signatários da Plataforma sobre quem são os
principais afetados no Brasil pelo corona vírus e suas consequências
econômicas. Para a CONEN e o movimento negro brasileiro, apesar dos nossos
avanços e conquistas recentes, que o Governo Bolsonaro tenta destruir,
continuamos vivendo em um país onde as desigualdades raciais, regionais, de
classe, de gênero e geracionais, ainda são imensas. O Brasil continua sendo um
país muito desigual! Em todas as áreas da vida social os negros e negras
continuam subjugados e tratados como cidadãos e cidadãs de segunda categoria.
Existe também, uma enormidade de números que comprovam a persistência dessa
desigualdade. Essa situação injusta e cruel é produto da história do
capitalismo combinado com a escravidão que durou quase quatro séculos no
Brasil, que deixou marcas profundas em nosso convívio social, mas é também
resultado da ausência de projetos e políticas públicas voltadas para superá-la.
O reconhecimento de que a pobreza atinge preferencialmente a parcela negra da
população, como decorrência da desigualdade de gênero e raça estruturais na
sociedade brasileira e da omissão do poder público, aponta a necessidade que o
Estado incorpore nas políticas públicas direcionadas à população de baixa renda
a perspectiva de que há diferenças de tratamento de oportunidades entre estes,
em prejuízo para homens e mulheres negras. Embora há décadas o Movimento Negro
denuncie o racismo e proponha políticas para sua superação, somente uma
política articulada e contínua, será capaz de reduzir a imensa dívida histórica
e social que a sociedade brasileira tem para com a população negra, submetida à
exclusão social e econômica. Os negros e negras são os mais pobres dentre os
pobres, de modo que as políticas de caráter universal que ignoram tais
diferenças de base entre os grupos raciais têm servido tão somente para
perpetuar e realimentar as atuais desigualdades. Para tornar eficazes os direitos
individuais e coletivos, os direitos políticos e sociais, os direitos culturais
e educacionais, entre outros, o Estado tem que redefinir o seu papel no que se
refere à prestação de serviços públicos, de forma a ampliar sua intervenção nos
domínios das relações intersubjetivas e privadas, buscando traduzir a igualdade
formal em igualdade de condições, de oportunidade e tratamento. Para
aprofundarmos esse debate na CONEN, no movimento negro e de mulheres negras,
nos partidos do campo democrático e popular, centrais sindicais e nas Frentes
Brasil Popular e Povo sem Medo, solicitamos a contribuição da Ana Luiza, uma
companheira antirracista que tem contribuído que tem contribuído com a formação
e formulação política da CONEN no Estado de São Paulo. Veja a seguir contribuição na íntegra do
documento.
* É membro da Executiva Nacional da CONEN e ativista da Soweto Organização Negra.
FEMENAGEM as assistentes sociais: 15 de maio
MAJÔ
No Centro de Referência de Assistência Social (CRAS) da Guia, todas as 4ª feiras é dia de reunião de acolhida, na porta de entrada o cartaz fixo anuncia a programação semanal e os critérios.
Cartaz: Reunião de Acolhida – 4ª feira às 14h – máximo de 15 participantes, tolerância de 15 minutos.
O equipamento fica no centro do bairro, entre duas favelas, bem distante do centro da cidade, aproximadamente 40 minutos de carro até a prefeitura e a secretaria de assistência social.
Nada por ali acontece sem ser visto por grupos de interesses; o secretário da assistência, um conhecido político e empresário da cidade, aparecem na região com frequência.
A equipe que trabalha no CRAS é bem conhecida da população, tudo acontece dentro das regularidades estabelecidas. Uma vez por mês acontece o famoso café da manhã do secretário, é uma fartura só, tem suco e refrigerante, doces e salgados. No meio da fartura, da confraternização antes das fotos oficiais, ele sempre faz um discurso:
_Faço questão de vir aqui conversar com vocês, povo acolhedor, vocês não são pobres, não são, pense nisso. Aqui o povo é rico, rico das graças de Deus, essa comunidade mora no meu coração, aqui o povo é unido, trabalhador e tem Deus no coração.
A coordenadora não fala nada, diz que não é técnica e não quer atrapalhar. Ela está no cargo por duas gestões seguidas e é a pessoa de confiança no meio político. Aceita as regras de todos os lados; quando a equipe reclama das condições de trabalho ela concorda e diz que vai fazer o possível para solucionar, nas semanas seguintes oferece pequenos mimos e diz:
_Enquanto esperamos a solução dos problemas, que inclusive já conversei com o secretário, vamos mimar o coração, saibam que estou sempre com vocês.
O território é bem específico, uma densidade demográfica alta, o mais distante do centro, com uma renda média de ½ salário-mínimo. A maioria das pessoas estão desempregadas ou trabalham no mercado informal. Outra marca da região é o alto índice de homicídio; no bairro tem um CRAS, duas escolas e um posto de saúde.
A assistente social é considerada a estressada da equipe. Posta no WhatsApp frases revolucionárias, não participa do café com o secretário e sempre está em desacordo com a gerente. No último mês a discussão entre as duas chegou aos ouvidos das chefias, a própria assistente social, ligou e falou que não dava mais para ficar ali, já estava há muito tempo trabalhando no CRAS, sentia-se cansada.
O estopim da briga foi em decorrência da ordem da gerente que determinou as novas regras para atendimento ao público:
_Na reunião de coordenadores a diretora determinou que nosso CRAS terá duas reuniões por semana com o máximo de pessoas possível.
_ Ah! Vamos ganhar um computador com internet, o secretário comprou com o próprio salário.
A assistente social ameaçou denunciar por atitudes antiéticas, falta de respeito à população e por ser uma prática com interesses políticos.
Foi à única vez que a coordenadora do CRAS levantou a voz:
_ Você quer é me prejudicar, eu que sempre fiquei do lado da equipe técnica, nunca quis saber o que faz ou deixa de fazer uma assistente social.
_ Nossa! Parece até que você não ama as pessoas.
Os demais funcionários algumas vezes manifestavam opinião outras vezes se calavam.
A assistente social foi chamada para uma conversa com a supervisora que não é formada na área das ciências humanas. A conversa não foi amigável, mas tudo ficou nos seus devidos lugares:
_ Aqui todo mundo sabe a sua função, o governo está trabalhando para deixar um legado, foi à gestão com maior índice de aprovação que se tem notícias, veja, por exemplo, você não sabe, mas o CRAS que você trabalha, além de ser o maior em dimensão e densidade territorial, atende quase a totalidade da população.
No café com o secretário, superamos a meta do número de atendimentos/mês.
Digo com orgulho e o prefeito sabe disso:
_ É uma equipe pequena, confesso, desfalcada, mas trabalham por dez, isso é emocionante, (tira o lenço de linho do bolso e seca as lágrimas), _ desculpa.
_ Eu me orgulho tanto de você, uma guerreira, uma das melhores assistentes sociais da prefeitura. _ O secretário e eu conhecemos sua história, uma mulher com força e coragem de homem.
Depois de 30 minutos ininterruptos de conversa, que só a diretora falava, suspirou, olhou nos olhos da assistente social com ar de afeto e disse:
_ Miga, quer falar mais alguma coisa?
Com medo da resposta a assistente social perguntou:
_ O café da manhã com o secretário entra como atendimento?
_ Entra sim, não se preocupe, alias, digo mais, ele vai ampliar essa prática para os demais CRAS, ou melhor, _ essa é uma proposta minha, para todos os serviços da assistência.
Despediram-se sem nenhum compromisso.
Na semana seguinte a assistente social teve uma crise de torcicolo mesmo assim foi trabalhar por que tinha reunião com um grupo de mulheres.
A coordenadora, com tom afetuoso, disse:
_ Nossa…. sabe que isso é tensão, estresse… precisa malhar amiga.
Augusta Santo
Esse conto faz parte de um projeto de coletânea de contos que fala do Serviço Social e do AssistenteSocial, em homenagem às mulheres, cada conto tem um nome de uma mulher.

Sobre a autora: Augusta Nunes é assistente social, faz parte do Grupo de Estudos das Relações Etnico raciais no Serviço Social (GERESS)
DIA 15 DE MAIO
DIA DO ASSISTENTE SOCIAL
Neste 15 de Maio lamentamos o cenário caótico de saúde pública que o planeta em geral e a sociedade brasileira, em particular, atravessa em função do Coronavirus. As assistentes sociais, assim como tantos outros trabalhadores e trabalhadoras, estão na linha de frente no atendimento das famílias, principalmente aquelas que se encontram na linha da pobreza ou da extrema pobreza, pessoas pretas e pardas que engrossam as fileiras dos necessitados/as e dos/as contaminados/as pelo vírus.
Muitas/os assistentes sociais passaram a trabalhar na entrega de cestas básicas nas diversas comunidades, histórias de vida dramáticas são relatadas pelos/as moradores aos profissionais que estão lidando com a árdua tarefa de verificar quem está ou não cadastrado para receber a cesta básica além de terem que seguir as determinações do poder dominante que exige registro fotográfico das famílias miseráveis no ato do recebimento da cesta básica.
Em tempos de pandemia, o trabalho das/os assistente sociais está marcado pelo esgotamento físico e mental, o temor de contaminar ou ser contaminado pelo vírus, relações de trabalho exploratórias que já existiam, e que agora se acentuaram, falta de estrutura básica com espaços de atendimento inadequados, e o atendimento de exigências políticas totalmente descabidas frente a situação de calamidade pública atual.
No que se refere ao cotidiano do trabalho das/os assistentes sociais, a pandemia escancarou o quanto as medidas de proteção social assim como as políticas sociais voltadas para a população de baixa renda, sejam elas no âmbito da saúde, habitação, trabalho, cultura, entre outras, são falhas e de fato, não promovem a mobilidade social e não garantem o bem-estar das famílias que se encontram na linha da pobreza e extrema pobreza. Para as/os assistentes sociais, trabalhar com essa faixa da população é um desafio uma vez que não há investimentos financeiros suficientes e nem vontade política para que as políticas públicas sejam verdadeiramente efetivadas e tirem a população da condição de sub-humanidade e não seja lembrada apenas com fins eleitorais.
Apesar da difícil conjuntura, temos o que comemorar, por exemplo, a realização da campanha Serviço Social no Combate ao Racismo da gestão (2017-2020) do conselho federal e conselhos regionais de Serviço Social e a instituição do Comitê de Combate ao Racismo pelos conselhos regionais. No período da campanha ocorreram seminários, debates, oficinas e cursos de formação para docentes na temática etnicorracial. O reflexo da campanha materializou-se também durante o 16º Congresso Brasileiro de Serviço Social (CBAS) que aconteceu em 2019, as mesas de debate pautaram e procuraram aprofundar e desmistificar o mito da democracia racial presente na formação profissional.
Parabéns a todas/os assistentes sociais, nossa luta continua durante e na pós pandemia.
SEGUEM ALGUMAS INFORMAÇÕES IMPORTANTES SOBRE O SERVIÇO SOCIAL
O dia 15 de maio foi o dia em que foram regulamentados e instituídos os instrumentos normativos e de fiscalização da profissão, na época pelo Conselho Federal e Regional de Assistentes Sociais, por isso a data passou a ser reconhecida como o dia do Assistente Social, embora a profissão tenha sido reconhecida legalmente em 1957.
Quem são os/as assistentes sociais?
De acordo com dados que datam de 2016[1], a maioria das graduadas em Serviço Social são mulheres e mulheres negras (pardas e pretas).
São profissionais que cursaram uma faculdade de Serviço Social (reconhecida pelo Ministério da Educação) e possuem registro no Conselho Regional de Serviço Social (CRESS) do estado em que trabalham. A profissão é regida pela Lei Federal 8.662/1993, que estabelece suas competências e atribuições. São Paulo foi a cidade que criou a primeira escola de Serviço Social no Brasil em 1936.[2]
O que fazem?
Analisam, elaboram, coordenam e executam planos, programas e projetos para viabilizar os direitos da população e seu acesso às políticas sociais, como a saúde, a educação, a previdência social, a habitação, a assistência social e a cultura. Analisam as condições de vida da população e orientam as pessoas ou grupos sobre como ter informações acessar direitos e serviços para atender às suas necessidades sociais. Assistentes sociais elaboram também laudos, pareceres e estudos sociais e realizam avaliações, analisando documentos e estudos técnicos e coletando dados e pesquisas. Além disso, trabalham no planejamento, organização e administração dos programas e benefícios sociais fornecidos pelo governo, bem como na assessoria de órgãos públicos, privados, organizações não governamentais (ONG) e movimentos sociais. Assistentes sociais podem ainda trabalhar como docentes nas faculdades e universidades que oferecem o curso de Serviço Social. As competências e atribuições privativas dessa categoria profissional estão previstas nos artigos 4º e 5º da Lei 8.662/1993.
Diferenças entre Assistente Social e Assistência Social
As vezes as pessoas referem-se ao assistente social usando o termo assistência social. Esclarecemos a distinção entre uma e outra:
Assistente Social é o/a profissional com nível superior que cursou a graduação em Serviço Social.
Assistência Social é uma política pública, assim como a política de saúde, educação, previdência social, habitação, entre outras. É um direito do cidadão e um dever do Estado, está prevista n樂威壯 a Constituição Federal de 1988. A Lei Orgânica da Assistência Social (LOAS) é que regulamenta a política de assistência social. Em 2005, é instituído o Sistema Único de Assistência Social – SUAS, que tem por função a gestão das ações da Assistência Social no campo da proteção social brasileira.
Autora: Suelma Ines de Deus Branco,
assistente social, membro da Soweto Organização Negra e do Grupo de Estudo das
Relações Etnicorraciais no Serviço Social (GERESS).
[1] http://download.inep.gov.br/educacao_superior/enade/relatorio_sintese/2016/servico_social.pdf
[2] http://cfess.org.br/arquivos/deliberacao3comunica-material-midia-POSNACIONAL-final.pdf
Os prédios ocupados na cidade de São Paulo e o Coronavírus
Em tempos de coronavírus é importante lembrar as famílias que residem nos prédios ocupados da região central da cidade de São Paulo. Em 2018, tinha uma estimativa de 70 prédios ocupados, só na região central [1]. Nas ocupações residem muitas crianças, pessoas idosas, pessoas com deficiência, população imigrante/refugiada, trabalhadores formais / informais de baixa renda, em sua maioria pessoas pobres, pretas e pardas.
Pensar nas condições de habitabilidade e na saúde dos moradores é fato necessário e urgente, pois eles estão a mercê de incêndios provocados por gambiarras de luz, dificuldades com a higiene pessoal decorrente do uso compartilhado do banheiro e da falta de água. Essas e outras situações comuns nas ocupações têm causado danos fatais para seus moradores. Em 2018, por exemplo, a região central da cidade presenciou o incêndio do Edifício Wilton Paes de Almeida, que foi seguido de desabamento. Na época as autoridades ressaltaram as condições estruturais deterioradas dos diversos prédios ocupados, mas passados dois anos, esta situação e das famílias residentes nas ocupações permanecem inalteradas.
Pressionada pelo déficit habitacional pop犀利士 ular e os altos preços dos alugueis a população pobre, preta e parda tem como saída morar nas ocupações, nos cortiços, nas áreas de risco ou nos baixos de viadutos. Quando não conseguem se fixar em nenhum desses lugares passam a ser moradores de rua. O caminho inverso pode acontecer para aqueles que deixam de morar nas ruas.
Há muita dificuldade para se adquirir a casa própria. Uma das barreiras é o processo burocrático que impõe longa fila de espera virtual. A análise do cadastro familiar e sua imensidão de dados para a verificação dos aptos ou não a receber uma casa. A análise da documentação, da renda mínima, se o corte de renda será para cima ou para baixo, se a renda per capita, bruta ou líquida se enquadra. Se tem o nome limpo no cadastro do SPC e SERASA. Qual é o perfil do responsável? Se tem ou não deficiência. Se está velho demais ou se é muito jovem. Qual é o seu perfil de gênero se é homem, mulher ou trans. São inúmeras condicionalidades impostas pelo poder público para liberar a compra da casa aos trabalhadores mais empobrecidos.
Quem almejava apenas um teto para morar acaba excluída por não se enquadrar no perfil dos agentes financeiros.
Por outro lado, muitas famílias que conseguem a moradia acabam retornando para os lugares de origem por não suportarem arcar com as despesas da prestação e do condomínio.
Há muita dificuldade para se alugar um imóvel em São Paulo. Imigrantes/refugiados, principalmente do Haiti e dos países africanos, são parte do segmento populacional que enfrentam dificuldades para alugar um imóvel na cidade de São Paulo. Muitos não possuem a documentação exigida nas imobiliárias e enfrentam a xenofobia e o racismo.
Diante de tantas dificuldades as únicas saídas são as ocupações ou os cortiços. Nem sempre seguros ao bem viver, mas acessíveis à classe trabalhadora que de tão empobrecida já está abaixo da linha da pobreza definida nos parâmetros mundiais.
Via de regra, procuram as moradias da região central da cidade na medida em que o não deslocamento é um fator que facilita a busca por trabalho, principalmente para aqueles que não conhecem a cidade e têm pouco recurso financeiro para o transporte. Os inseridos no mercado de trabalho alegam a mesma facilidade. Muitos denunciam que os empregadores praticam preconceito territorial e negam vaga de emprego quando o trabalhador reside em comunidade ou nos bairros da periferia.
É preciso ao falar das medidas de controle da pandemia do coronavírus lembrar das dificuldades da população das ocupações e cortiços em se cuidar e atender as orientações sanitaristas. A pergunta que fazemos é: de que forma os/as trabalhadores/as e as grandes famílias confinadas em quartos pequenos, com pouca ventilação, sem entrada para o sol, banheiro compartilhado e sem espaço adequado para as crianças brincarem estão seguindo as orientações preventivas contra o coronavirus?
Ficar em casa, manter o distanciamento social dentre outras medidas são as orientações das autoridades e especialistas para impedir a contaminação comunitária e o adoecimento com possibilidade de morte, mas muito antes da pandemia as famílias das ocupações e cortiços paulistas vivem em situação de risco social e podem, a qualquer momento, perder suas vidas por residirem em locais inadequados, sem a mínima habitabilidade.
Concordamos com o filósofo camaronense Achille Mbembe que alerta:
“a
expressão máxima da soberania reside em grande medida, no poder e na capacidade
de ditar quem pode viver e quem deve morrer, razão pela qual matar ou deixar
viver constituem os limites da soberania, seus atributos fundamentais.” [1]
A pandemia vai passar, mas outros riscos letais vão continuar ameaçando a classe trabalhadora mais empobrecida.
É hora de o Estado e dos governantes olharem de frente para o déficit habitacional e para a realidade das famílias que residem nas ocupações, cortiços, áreas de risco ou estão em situação de rua e tomar medidas ágeis e concretas para garantir a vida e a moradia digna para essa população durante e depois da pandemia do coronavírus. Vidas negras importam!
[1] Ver Moreira. https://www.justificando.com/2019/01/08/a-necropolitica-e-o-brasil-de-ontem-e-de-hoje/
[1] https://g1.globo.com/sp/sao-paulo/noticia/cidade-de-sao-paulo-tem-206-ocupacoes-onde-moram-45-mil-familias.ghtml
Riachão – A perda da memoria histórica: um grande risco
Ontem, faleceu de causa natural o cantor e compositor Riachão (1921-2020) com seus 98 anos de idade. Conseguiu “se sair” da pandemia do corona vírus.
Em certas sociedades africanas se diz.. . quando morre um idoso é como se perdêssemos uma biblioteca . Nessa onda de pandemia do corona vírus muitos idosos estão indo embora? Será que estamos perdidos?
Riachão faleceu em Salvador em sua residência no bairro do Garcia, junto aos seus familiares e por causa natural. Um dia apos a cidade de Salvador completar 471 anos.
Riachão, nascido e criado no Garcia, território negro da região central da cidade de Salvador era um dos mais reconhecidos sambistas populares do país. Autodidata e apaixonado pelo samba. Um exemplo de sagacidade e inteligência cultural. Ele mesmo dizia que “compunha de cabeça” suas canções. Não rascunhava as letras das canções e guardava tudo na memoria.
Dono de um pensamento irreverente, critico e altamente perceptivo ao modo de vida do negro sofredor. Ao mesmo tempo em que suas letras e sambas nos relembram as delicias do modo de ser da cultura negra baiana.
Riachão recebe muitas homenagens. A cultura popular concedeu ao Sr Clementino Rodrigues, mais conhecido pelo apelido de Riachão, o titulo de mestre do samba sem nunca ter ido à universidade. Quase cem anos de vida e muita sabedoria. Temos muito que aprender com os mais velhos. Eles são uma biblioteca de conhecimento. Respeite o idoso. Desenvolva politicas publicas respeitando o estatuto do idoso.O poder publico soteropolitano reconheceu parte da importância e dedicação de Riachão à vida cultural da cidade. Em 2016 oficializou com seu nome Riachão, o circuito tradicionalmente chamado de Mudança do Garcia.
A Mudança do Garcia é uma grande movimentação popular carnavalesca. Um bloco carnavalesco popular que surgiu há mais de 80 anos se concentrava no fim de linha do Garcia e desfilava nas ruas do bairro do Garcia até a passarela carnavalesca do Campo Grande apelidado Circuito Osmar. Desde então o bloco reúne trabalhadores e trabalhadoras de toda cidade e muitos turistas.
As alegorias, o samba, a alegria, a irreverencia popular e a figura de Riachão do alto do famoso sobrado da família anima o circuito Riachão, tradicionalmente, frequentado nas segundas feiras de carnaval; Eles sempre estava lá acenando a todos da “mudança do Garcia”.
Dentre as muitas homenagens… Depositamos também a gratidão da Soweto.
Muito orgulho de ter Riachão no panteão do samba e da historia da cultura brasileira.
Uma personalidade negra popular de grande expressão cultural. Um amigo de todos e todas que acompanham o evento carnavalesco “mudança do Garcia”. Uma trajetória irreverente contra o racismo e a sociedade autoritária.
Riachão foi um idoso que nos deixou grandiosa experiência de vida e muita historia para contar. Quem o conheceu pode contar. Essa historia é tudo verdade.
Na cultura negra a oralidade é uma tradição e um instrumento continuo capaz de guardar a memoria afetiva, amiga, solidaria histórica e irreverente do protesto negro nas ruas. O dialogo Inter geracional flui melhor por que há reconhecimento e pertencimento cultural. A oralidade é uma importante fonte histórica e exige técnica e verdade para reconstituição do passado. Naquela circunstancia não há risco de perda da memoria histórica toda a vez que a exemplo de Riachão se é popular, se guarda a tradição e consegue encarar a modernidade. O grande desafio é a transmissão deste conhecimento de forma sincera e antirracista quer seja através da escrita, da pesquisa ou da arte em geral.
Riachão! Va em paz e aqui a luta continua.
Diretoria e parceiros da Soweto Organização Negra
Xô… Xô… corona para nosso bem viver…Fique em casa. Conheça o saber das mais velhas e dos mais velhos.
Texto organizado livremente por Gevanilda Santos.
O corona vírus potencializa as desigualdades sociais brasileiras.
Em tempos de corona vírus, a Soweto não fica calada e se solidariza com a população brasileira (negra e pobre) que esta a beira do desespero porque enfrenta sozinha as desigualdades sociais brasileiras. Atualmente a desigualdade a impede de atender aos apelos do controle da pandemia do corona vírus anunciados pelas autoridades.
Por isso nos juntamos à sociedade civil organizada que nesse mês de março também esta alvissareira. O que é isso? Quem é ou traz boas novas. As mulheres foram às ruas no dia 08 de março denunciar o feminicídio, o Movimento Negro denuncia o racismo institucional na área da habitação, saúde e educação. Isso junto e misturado define os principais fatores da imensa desigualdade social que impede a população de seguir orientação básica de controle da pandemia do corona vírus. Movimento Nacional de Meninos e Meninas de Rua – MNMMR trouxe a público à preocupação frente ao corona vírus diante de nenhuma medida de proteção às pessoas que estão em situação de rua, em especial as crianças.
Diante do desgoverno e do desinteresse em socorrer a população pobre e negra as organizações sociais estão pondo a boca no trombone e apresentam suas propostas de combate ao corona vírus. Queremos aqui dar voz ao apelo das redes sociais e das cartas abertas ou denuncia deste tipo de situação.
Maria Palmira da Silva tem larga experiência na área da saúde pública. Trabalhou no SUS nos equipamentos de saúde da cidade de São Paulo e na gestão democrática e popular do Partido dos Trabalhadores contribuiu para a implantação da área temática de Saúde da População Negra na Secretaria Municipal de Saúde. Colaborando com esse debate, Maria P. Da Silva que também é Professora do Curso de Serviço Social indaga ““… O que será feito para população em situação de Rua NÃO CONTRAIR O NOVO CORONAVÍRUS (COVID-19)? Ela chama à atenção para o fato das autoridades brasileiras saírem defesa dos empresários em detrimento dos trabalhadores chegando a propor inclusive redução dos salários para beneficiar os mais ricos. Diante das dificuldades econômicas dos trabalhador não se ouve falar da taxação das grandes fortunas.
Há muito que avançar nas pesquisas e diagnósticos para dimensionar o impacto desta pandemia no tecido social brasileiros. No caso de famílias negras que alcançam a renda dos vinte salários mínimos há que se investigar o número de pessoas que são beneficiárias desse valor. Ou avançar num plano para assistir crianças e adolescentes nos casos de diagnóstico positivo para COVID-19 nas famílias monoparentais, principalmente aquelas chefiadas por mulheres negras. Tudo devera contribuir no caso da Saúde dentre outros aspectos para que o governo venha desbloquear os recursos da Saúde e educação. Não nos esqueçamos que a reforma administrativa de 2016 congelou recursos do SUS durante 30 anos.
O ativista e pesquisador Deivison knosi da UNIFESP, nas redes sociais, alerta para as medidas e cuidados do bem viver que a própria comunidade negra devera auto-organizar para suprir as ausências do Estado. Afirma…” Penso que este é o momento das Redes Ativistas de Saúde se apresentar para a população como mediadores e aglutinadores do que chamamos de controle social das políticas de saúde, de forma a ajudar as pessoas comuns a não lutarem sozinhas. Seguiremos defenderemos o SUS com toda a nossa força, mas sabemos que a necropolítica tem endereço certo, especialmente em momentos de crise. E continua … “esse é o momento de politizar a distribuição desigual de recursos de saúde e saneamento e nos apropriarmos desta luta (independente de qual igreja teórica a nossa militância se baseie).O SUS (e também as pesquisas de saúde que podem nos salvar neste momento) vem sendo atacados por este governo messiânico e fundamentalista, mas mesmo antes destes ataques, o Sistema Único de Saúde já chegava com mais precariedade aos territórios negros, rurais, quilombolas, ribeirinhos e, à população de rua ou dos cortiços dos grandes centros urbanos (o Racismo institucional). Há o risco deste Racismo Institucional se repetir agora, no momento de crise”…
Concordamos com os pesquisadores – formador e formadora de opinião publica. É a hora da sociedade civil denunciar uma vez mais as desigualdades sociais que afligem a população pobre e negra. É a hora de romper o isolamento social e político a que fomos confinados e fortalecer nossa organização.
CUIDE DA SUA SAÚDE SEMPRE… EM TEMPO DE PANDEMIA CORONA VÍRUS PROTEJA-SE, SIGA ORIENTAÇÕES DE HIGIENE E SAÚDE, EVITE AGLOMERAÇÕES E CONTATOS SOCIAIS DESNECESSÁRIOS. CONVERSE SOBRE O ASSUNTO COM SUA FAMÍLIA E AMIGOS. SE ORGANIZE E DENUNCIE AS DESIGUALDADES SOCIAIS.
O SUS é NOSSO!! DEFENDA O SUS!!! LUTE POR SEUS DIREITOS!
Texto de autoria das professoras Maria Palmira Silva e Gevanilda Santos.