Author Archive Soweto*#%!

O NOVEMBRO É NEGRO

Novembro 16, 2022 Comentários fechados em O NOVEMBRO É NEGRO By Soweto*#%!

*Gevanilda Santos

Neste  ano de 2022, o clima do novembro negro é de alegria e resistência. Uma vez mais o bloco antirracista sairá às ruas. Desde a decretação do 20 de novembro – Dia Nacional da Consciência Negra (1979) – o Movimento Negro em todo o Brasil convida a população a sair às ruas  nesta data em celebração  a luta de Zumbi e Dandara dos Palmares e em protesto aos perrengues da fome, da violência e do desrespeito. 

No Brasil, não é mais novidade que as desigualdades de raça, classe e gênero afligem e castigam as mulheres, as crianças, e a juventude negra das regiões periféricas brasileiras.  Muitos já se foram. Basta de genocídio!… Sabemos que nem todos padecem da mesma forma. Passada a fase mais aguda da pandemia  da Covid-19, a população negra empobrecida, enfrenta o aumento da vulnerabilidade. 

Nem todos têm as mesmas oportunidades e acesso às políticas públicas e sociais, sobretudo,  a população  nordestina, que segundo o IBGE  é negra e parda, e,  devido à desigualdade regional brasileira é a parcela mais vulnerabilizada. E ainda é alvo do racismo e  da xenofobia por sua compreensão do acirramento da  luta de classe e elevado grau da consciência étnica. 

O Nordeste não está sozinho! Junte-se a nós.

Nos últimos 40 anos, o Movimento Negro Brasileiro se fortaleceu e pavimentou fortemente o caminho da resistência nas ruas. 

Nas eleições  de 2022, este segmento disse não às propostas conservadoras e fascistas,  e, sim, ao terceiro governo  LULA. Oxalá… os compromissos de campanhas sejam  honrados. Estaremos nas ruas para garanti-los. A esperança venceu o medo.

Neste novembro negro estamos celebrando com olhos bem abertos e indagando:  como implementar os direitos da população negra inscritos na constituição? Como  radicalizar  a democracia para que ela avance da representatividade da democracia formal para a uma democracia substantiva, distributiva  e real?

 Há mais de 40 anos fala-se da  necessidade da formação de quadro na luta contra o racismo. A tarefa foi cumprida, ampliamos o convencimento,  a reflexão e a consciência, de modo que  cada um  possa despertar o guerreiro “Zumbi” e a guerreira “Dandara” que há dentro de si. O objetivo era  agregar  o outro  a outra, de  acolher dentre  os  que atuam na perspectiva da mudança do  cenário racista, machista homofóbico e das intolerâncias.  Sempre cabe mais uma e/ou um na barca de Zumbi e Dandara. A formação de quadro é tarefa permanente e dinâmica. À frente da etapa da formação de quadros há a etapa da massificação  da luta  nas ruas.

Convidamos todas e todos das ruas,  becos,  vielas, quebradas, grotões, e,  também os que habitam o território da cultura, da educação, as redes de saúde, os movimentos sociais, representantes antirracistas  da classe trabalhadora  e  todas as etnias  a construirmos a tão almejada  unidade na diversidade. 

Aí sim. chegaremos no tempo efetivo das mudanças, onde  a negra e o negro no  poder  trarão mudanças a toda  coletividade. 

Bem-vinda a etapa das mudanças. São complexas, porém não inatingíveis!

Já dissemos que a superação do racismo, do machismo e da pobreza não é tarefa apenas de negros e negras. É uma tarefa dos cidadãos,  cidadãs e do Estado  Democrático Brasileiro.   É tarefa dos movimentos sociais, de todos e todas conscientes  e dispostos a combater as mazelas  sociais, lado a lado das  instituições construtoras de uma sociedade democrática. 

Já dizia Hamilton Cardoso, jornalista e ativista antirracista paulista: “haverá de chegar o dia em que a consciência negra será nacional, pluriétnica e conduzida por negros e negras críticos ao capitalismo. O futuro já chegou?

Se o recado do protesto negro vem das ruas, no dia 20 de novembro, Dia Nacional da Consciência Negra, ouçamos o seu brado retumbante, e, uma vez mais  vamos botar o bloco antirracista nas ruas. 

*Gevanilda Santos 

É graduada em História e mestre em Sociologia Política pela PUC-SP, professora universitária aposentada, pesquisadora das relações sociorraciais e  ativista da Soweto Organização Negra.

MNU – A RESISTÊNCIA NAS RUAS

Setembro 21, 2022 Comentários fechados em MNU – A RESISTÊNCIA NAS RUAS By Soweto*#%!

Debate sobre o livro MOVIMENTO NEGRO UNIFICADO A RESISTÊNCIA NAS RUAS
Local: Auditório SESC Pinheiros, dia 16 de agosto de 2022.
Mediador: Paulo Rafael da Silva
Oradores: Rafael Pinto e Suelma de Deus
Intervenção Musical: Panikinho, Amabile Inaê. Tita Reis e Alddry Eloise

 “Este livro retrata,
por meio de fotos, testemunhos,
manifestos e artigos,
a história do Movimento Negro Unificado (MNU)
 uma das principais frentes organizadas
contra o racismo e a segregação sociorracial”
(texto 4ª capa)

O relançamento do livro do Movimento Negro Unificado (MNU), ocorrido de forma presencial nas dependências do SESC Pinheiros, em 16 de agosto de 2022, representou uma viajem no tempo da história do movimento negro paulista e brasileiro. O poema Soweto, musicado por Tita Reis, foi adotado como Hino da Soweto Organização Negra, por ocasião do seu 30º aniversário. A organização do evento foi da Soweto Organização Negra e parceiros como o SESC, Sá Menina, Mc Panik, articulados pelo educador, historiador, escritor Paulo Rafael, contemplou importantes dimensões da luta política de enfrentamento ao racismo no país.

Paulo Rafael fez a abertura do evento estabelecendo com leveza a ligação entre o passado e o presente, apontando a continuidade dos processos de lutas protagonizados pela população negra e a insurgência de novas vozes e linguagens, ainda que as pautas se mantenham ao longo do tempo.

Da esquerda para direita: Rafael Pinto, Suelma de Deus, Paulo Rafael da Silva

Antecedendo a fala dos oradores, apreciamos a apresentação cultural DiasporÓpera Rap, performada pelo Mc Panik, a cantora Amabile Inaê, arranjo de Giovani Di Ganzá e percussão de Leandro Vieira. Tratou-se de uma fusão experimental entre o canto popular e a musicalidade das manifestações de matriz africana, articulando rimas (poesia) e o Xirê em homenagem a Exu. Nada mais resistente do que abrir os trabalhos com Exu.

Da esquerda para direita a cantora Amabile Inaê e o Mc Panikinho (Gildean Silva)

Paulo Rafael cedeu a palavra para o educador Rafael Pinto, um dos fundadores do MNU, que alinhavou através da oralidade, momentos, cenários e protagonistas históricos do movimento negro, não somente o paulista, a partir das décadas de 50 e 60, pontuando também as relações intergeracionais construídas por ele, Milton Barbosa e outros ativistas dos anos 70 e 80. Essa característica, de continuidade, de interface entre os sujeitos, os tempos históricos e as ações ficou bastante evidenciada por Rafael, ressaltando a resistência do povo negro e o vanguardismo dos ativistas no enfrentamento do racismo.

Rafael Pinto, educador, fundador do Movimento Negro Unificado

Um segundo momento cultural foi protagonizado pelo músico Tita Reis, acompanhando a cantora Alldry Eloise, de belíssima voz, que apresentou uma canção homenageando Yansã. Seguindo sua performance, Tita Reis revelou o contexto em que conheceu o poema de Romildo Ibeji, nomeado O Levante, referindo-se aos eventos de Soweto, África do Sul.

Da esquerda para direita o músico, compositor Tita Reis e a cantora 
Alldry Eloise

A segunda oradora foi a educadora, assistente social, diretora da Soweto, Suelma Inês de Deus, que complementou a retrospectiva desse processo histórico ao reconhecer e valorizar o protagonismo das mulheres negras e suas demandas específicas para o movimento negro e para o movimento de mulheres, citando alguns nomes como o de Fátima Barbosa, Leny Blue entre outras.  A educadora ainda ressaltou, em particular, o processo de envelhecimento da população negra, e as relações intergeracionais representadas pelos descendentes, jovens ativistas, que no presente desfrutam das conquistas alcançadas, atuam em diferentes campos produtivos, fazendo uso de novas linguagens tecnológicas e culturais, concernentes aos dias de hoje.

Suelma Inês de Deus, educadora, assistente social, uma das fundadoras da Soweto

Depois das considerações finais, caminhamos para o encerramento do evento, ouvindo o poema Soweto também escrito por Romildo Ibeji, musicado e cantado por Tita Reis, com intensa participação do público. A ênfase dada ao nome Soweto se justifica pela alusão O Levante, referência aos eventos de Soweto, para o qual compôs a 犀利士 melodia apresentada.

O nome SOWETO Organização Negra tem origem no chamado Levante de Soweto, organizado por jovens que lutavam contra o regime apartheid na África do Sul. Regime este responsável por inúmeros assassinatos, torturas e prisões de negros que reagiam contra aquelas atrocidades. Exemplo disso, ícone da luta contra o racismo, temos o ativista Nelson Mandela, preso por anos, que resistiu a tudo e vindo a se tornar presidente daquele país africano (1994 a 1999). Em 1993, foi o vencedor do Prêmio Nobel da Paz. (www.soweto.org.br).

Na plateia estiveram presentes outros ativistas como José Adão, homenageado no livro, Márcio Barbosa um dos organizadores dos Cadernos Negros, Regina Helena que integrou os Blocos Alafiá, Osriashe e atualmente, o Bloco Ilú Obá de Min. Joselicio Junior, jornalista, Kelly Adriano da Coordenação SESC, e integrantes da Nova Frente Negra Brasileira, entre outros antigos e novos ativistas, pesquisadores e seus descendentes, o que reafirmou a importância da realização do evento e desse registro. 

A energia do evento inspirou o nosso poeta Romildo Ibeji, que rapidamente produziu uma estrutura de linguagem, reafirmando a magnitude do evento.

Ontem a noite trazia um filme, um encontro a reproduzir os momentos de lutas que marcam todos os diários enfretamentos de busca por humanidade e liberdade.

Juntos e misturados, gosto muito desta frase do irmão Paulão, mediador deste evento maravilhoso no auditório do terceiro andar do SESC PINHEIROS, com tantos protagonistas ou todos, todas e todes também, os depoimentos de Rafael Pinto e Suelma de Deus proporcionaram uma viagem nas linhas do tempo que demarcam nossos Aquilombamentos por equidade e contra o racismo imperioso que nega reconhecer nossas qualidades e multipluralidades na busca por qualidade de vida e acesso as condições de valorização em qualquer setor de formação da sociedade brasileira; econômico, político, cultural, educacional, social, saúde pelo Bem VIVER, e etc.

As intervenções artísticas de uma beleza mostrando conexões das pluralidades das linguagens que declamam, cantam e interseccionam sagrado com buscas para organizações políticas de  direitos humanos nesta sociedade brasileira que nos nega todos os dias o acesso à qualidade de vida, a luta pela verdadeira abolição, com leis de reparação, nos guia através dos Griôs e Yabás…

Audre, Tita, Panikinho, gostaria de estar com o nome de todas as estrelas que fizeram do palco um terreiro a cantar a beleza da cultura Preta, arquitetada na criatividade de não silenciar nunca a nossa VOZ, arte, cultura e política…

VIVA OS 4O ANOS DO MNU E VIVA OS 31 ANOS DA SOWETO organização negra…

insights do ontem à noite…

Romildo Ibeji…

Artistas: 
Mc Panikinho (rimas), Amabile Inaê (canto), Giovani Di Ganzá (violão), Leandro Vieira (percussão).
Tita Reis (cantor, compositor), Allldry Eloise (cantora, compositora).


Sobre o livro:

O livro Movimento Negro Unificado a Resistência Nas Ruas teve como organizadores: Ennio Brauns, Gevanilda Santos, José Adão de Oliveira e foi patrocinado pelas Edições SESC e FPA, em 2020, com apoio da Soweto Organização Negra que cedeu materiais do seu acervo e atuou como comissão editorial desta publicação.  O livro foi lançado de forma virtual em 2021, em decorrência das normas sanitárias no contexto da Pandemia da Covid19.

Alva Helena de Almeida

alvahelenavi@gmail.com

Queremos colocar nosso bloco na rua

Setembro 7, 2022 Comentários fechados em Queremos colocar nosso bloco na rua By Soweto*#%!

No sete de setembro queremos colocar nosso bloco na rua *[1]

                                                                                                  GEVANIDA SANTOS *[2]

Antes precisamos dizer qual é o  nosso bloco. 

Depois  de  dois anos de isolamento social em atendimento ao enfrentamento a  pandemia da Covid 19 voltamos as atividades públicas  as festividades cívicas das comemorações nacionais  da independência do Brasil no dia 7 de setembro .Nesta data, geralmente, é feriado nacional,  vamos por nosso bloco na rua e  dizer que as festividades oficiais das datas cívicas, dos desfiles oficiais, das paradas militares, das mudanças do zoneamento  do trânsito nas grandes cidades e todas  mudanças decorrentes   não serão  encaradas como evento  festivo.

Chegamos ao bicentenário da independência do Brasil (7 de setembro 2022) e  os festejos não serão comemorados  como antes.  Sabe por que?  Na conjuntura do ano do bicentenário da independência  não temos nada a comemorar.

Traçaremos neste artigo algumas  linhas para contrapor, contextualizar e desdizer a  comemoração festiva da  efeméride do bicentenário da independência.

Para começar a desenrolar o assunto  indagamos o que fazer diante do clima festivo  da efeméride ? Primeiro identificar o caráter das festividades. Se são   alusivas apenas aos feitos da elite nacional e internacional? Nada a comemorar! Simplesmente por que  as efemérides  são classificadas em âmbito  nacional, mas de fato dizem respeito  apenas aos feitos das elites brasileiras.

Quem não foi   convidado /a para a   festada independência do Brasil?

Os fatos históricos e oficiais  da independência do Brasil em 1822 estão espalhados nos livros didáticos. O que não está escrito  e  tampouco  se  estimula   reflexão  é   a perspectiva da participação popular.

Quem não foi /a  convidado para a  festada independência do Brasil?  Podemos dizer que  os  trabalhadores/as negros e negras não foram a festa da independência porque estavam acorrentados ao trabalho forçado da escravidão. E até hoje  data do bicentenário da independência seguem acorrentados a o racismo, sub emprego , ao desemprego , alto  custo de vida,  ao machismo,  a fome e toda má  sorte de violência e intolerância.

No século XIX as mulheres brancas também não  compareceram, ao grito da independência porque o patriarcado  vigente não permitia as mulheres brancas  saírem  às ruas desacompanhadas .As   mulheres negras desde então continuam  acorrentadas à chefia da família, dedicadas aos cuidados de lavar, passar e cozinhar estão acorrentadas a toda má sorte de violência e sevicias sexuais patriarcais.  Os povos indígenas e seus sagrados lutavam contra à mentalidade jesuítica para se livrarem  do  extermínio   dos seus povos  e da expropriação das suas próprias terras.

Nos museus  relativos à independência ou nos lugares oficiais, cujo  lugar denota os valores das elites. A  classe  média  contempla  o quadro “Independência ou morte” do artista Pedro Américo de Figueiredo e Mello, datado do ano de 1888. A replica ou tela original representa   uma pintura, do heroísmo de Pedro I no processo da independência do Brasil, cuja  margens do riacho do Ipiranga  na cidade São Paulo o monarca bradou independência de Portugal ou a morte da nação brasileira.  O   projeto do nacionalismo exacerbado  se viabilizou com o Hino Nacional Brasileiro (1831) que imortalizou e popularizou o lugar da independência  ( as margens do riacho ) , o bairro ( Ipiranga) e a ideia /  da versão  da independência do Brasil .Só não compreende a  ausência da participação popular na independência do Brasil quem não quer.[3] A soberania da nação brasileira é outra questão , outro lado da mesma moeda a ser tratada em outro moimento.

Os  escolares mais perspicazes  compreenderam os bastidores da negociata da independência do Brasil e retrataram tal episódio em livros que não saem do universo acadêmico. No geral , nos  livros escolares oficiais esta história permaneça acrítica e recheada de mentiras napoleônicas . As mentiras históricas hoje são denominadas “ fake news”, cujo maior interesse é  apropriação  dos  fatos históricos nacionais e positivos para fazer valer o  modo de vida das elites.

Duzentos após o 7 de setembro de 1822  a elite , os  grupos socias dos mais ricos e o atual staff governamental  insistem em comemorar   o bicentenário da  independência   do Brasil. Os trabalhadores e trabalhadoras  negras, os homens e mulheres  indígenas e brancos empobrecidos   não tem nada a comemorar.  Não foram  os protagonistas da história. Na hipótese do protagonismo  popular nas guerras da independência  teríamos nos currículos escolares  fatos como  ocorrido  na  Guerra da Independência do Brasil na Bahia (1823) e  liderança feminina e popular  de  Maria Felipa de Oliveira da  cidade de Itaparica.  Nem no passado nem no presente temo o que comemorar.  Recapitular    os  fatos nacionais e os internacionais  nos ajudam a refletir e  deixaria cair a máscara da efeméride.

Que  história  você conhece ?

No  universo da   história não contada pela oficialidade há  processo histórico de vitória dos interesses das elites e derrota dos  interesses dos vencidos. Narrativas ocultadas na guerra de interesses das classes sociai  brasileiras, na chamada luta  de classe real e  ou ideológica. Na disputa  de interesse entre os grupos e personalidades da história dos vencidos  foi silenciada

E assim poucos conhecem determinadas versão da história. A  Lei 10639/2003 é  para auxiliar a implementação da história da África e história do negro /a  brasileiros  nas escolas.

Qual  episódio   histórico  dos vencidos  você conhece ?  O silencio e o apagamento  não permitiu que o processo histórico chegasse até o leitor/a.

O  que dizer da efeméride do primeiro centenário  da independência  (1922) senão falar da história não contada? A nação brasileira inventada após cem anos de independência continuou  caricatural e marcada por  interesses das elites,  aos grilhões do colonialismo, do imperialismo e das desigualdades sociais, entre elas, o racismo, o machismo e a pobreza generalizada.

A população  negra trabalhadora, geralmente as mulheres negras,   só adentrava os salões das festas  das mansões das elites , a sala de visita da Casa Grande assobradada pela porta da cozinha.

Em 1922, ano do primeiro centenário da independência, as elites brasileiras, à época, estavam mergulhadas e sufocadas pelos agentes revolucionários que atuavam pelo fim da escravidão, da lavoura monocultura exportadora do café, perfilados e em greve urbana  na incipiente industrialização e por aqueles/as  que saíam às ruas em busca da própria liberdade.  Da um google  para checar  os fatos.

A ideia da nação era uma invenção , uma abstração hegeliana das elites .  Nas efemérides oficias das elites os grilhões nacionais não foram quebrados. Tudo mais e de bom que que faria do Brasil uma  nação totalmente livre , conjuntamente  com sua  população,  foram esquecidos e jogados embaixo do tapete dos salões que celebravam a chegada da era moderna.

A Semana de Arte Moderna (1922) foi um pálido verniz cultural de modernidade.

A fundação do Partido Comunista do Brasil (1922) fundou a esperança na transformação da sociedade e nas forças da esquerda política.  A revolução Russa de 1917 e  o anarquismo, chegaram ao Brasil para a socorrer  os trabalhadores  empobrecidos  e recém-chegados  da Europa.  Chegaram  e foram engrossar e esquentar o caldeirão  da imigração branca europeia  o que se chamou de “movimento operário nacional” sem a inclusão do trabalhador nacional.

A concepção e entendimento do movimento operário, à luz do conhecimento etnocêntrico, não incorporou a mão de obra nacional e escravizada  apelidada de “lumpesinato”, e hoje denominada “vulnerável”.  A cultura de matriz africana só encontrou lugar quando aferreceu sua resistência negra. E pouco a pouco os/as  trabalhadores/as aprisionadas a extenuantes jornadas do  trabalho “pesado” , remuneração aviltada pelo desvalor do trabalho social dos negros e negra e  silenciados à base da “chibatada”, como nos recorda o marinheiro negro João Cândido (1922).  

O significado da Revolução Russa (1917), e a efervescência revolucionária em prol da transformação da sociedade  e o fim das desigualdades se aquietou.  A história  da greve está longe dos bancos escolares .  As inúmeras  tentativas populares de independência na África, na  América Latina e Caribe foram sufocadas  e , posteriormente , administradas segundo interesses endógeno. A independência do Brasil só ocorreu em 1889 com o processo  republicano  dos militares e após a lei  Aurea com o  fim oficial  da escravidão.

A estética cinematográfica trouxe ao público com muito atraso os  horrores Ku-Klux-Klan, expressão da supremacia branca norte americana que hoje se espalha por vários cantos..

É importante demarcar tais acontecimento  hoje denominados  a  história dos vencidos. Um novo olhar para os acontecimentos mundiais, auxiliam na reconfiguração da expressão “nada será como antes”.  Nos parece acertado chamar atenção do leitor para  a urgente releitura do protagonismo e da  resistência negra frente aos  interesses propositalmente  acobertados ou exacerbados  nas datas festivas  e de perfil conservador e cívico e não cidadão.

Será que temos o que comemorar?

Será que temos o que comemorar  nas   efemérides  cívicas do sete de setembro? A nossa resposta  é.. Não….No ano do bicentenário da independência, não há nada a comemorar. A  efeméride  festiva  do bicentenário da Independência do Brasil não passa de uma festa sem graça, com gente desengonçada, sem ritmo, sem som, sem alegoria e a alegria da cultura popular. Não anuncia nada de bom aos trabalhadores/ as  negros e negras e aos indígenas a população LGBTQI+ e não  veiculam  utopia nem a esperança no bem viver.

Qual  Independência queremos?

A história não contada é   todos os protagonistas e suas narrativas humanistas, liberais conservadores-tradicionais, os modos revolucionários e livres,  dentre outros. Quando o leitor atento adentra  os fatos ocultados nas efemérides  oficiais   compreendera e realidade e o fato s  nada honrosos por que dele jorrou sangue dos inocentes que bravamente lutaram e lutam por liberdade.

Oxalá o vento da liberdade possa inspirar o bloco dos guerreiros e guerreiras de  Zumbi, Dandara, Tia Ciata, Luiz Gama, as mães e senhoras dos santos, da cultura e do conhecimento, João Cândido, Carlos Marighella, Oliveira Silveira, os Lulas da Silva e as Marielles Francos. Oxalá consigam se livrar de todas as dificuldades impostas à liberdade, à igualdade e à fraternidade humana.  Nossos ancestrais guerreiros e guerreiras  nos  recordam  os passos  e os marcos  da luta  que vem de longe e os seus princípios éticos  tecidos na resistência  negra  nos encorajem a dizer aos colonizadores do passado e presente que estamos na escuta e alerta as  narrativas  de colonial.

Chegamos à segunda década do século XXI e depois da humanidade conhecer e sobreviver à pandemia da covid-19, nada será como antes. A independência, a autonomia e o esforço  se destinam a   ressignificar a vida, as efemérides e deixar `a juventude  narrativa sinceras. Nessa perspectiva conclamamos o protagonismo humano  nas ruas, a diversidade dos grupos sociais, o   respeito a história e a memória.

Com estas palavras encerro e convido ao diálogo e à reflexão permanente:  vamos  colocar nosso bloco na rua e  cantar aos quatro cantos  que as festividades oficiais das datas cívicas  não serão  encaradas como  comemorações  efêmeras ? Cidadãos e cidadãs de bem com a vida  estão  nas ruas construindo  a história  da resistência negra.


[1] Este artigo  da autora é uma nova versão do  texto original da  publicação: MERIJE, Wagner – Sol do novo mundo: fatos e curiosidades  sobre a Independência  do Brasil e outras guerras e revoluções que impactaram o mundo, São Paulo, Aquarela Brasileira Livros,  2022, págs. 146 – 149.

[2]  Gevanilda Santos nasceu em Presidente Prudente, cidade do interior do Estado de São Paulo, filha de migrantes negros nordestinos da cidade de Rio de Contas, na Chapada da Diamantina, Bahia. Mudou para a capital de São Paulo em 1968. Graduada em história e mestre em sociologia política pela PUC-SP, professora universitária aposentada, pesquisadora das relações sócio raciais, ativista da Soweto Organização Negra e autora de vários livros, entre eles Relações Raciais e Desigualdade no Brasil, publicado pela Selo Negro Edições, e, coorganizadora do livro Movimento Negro Unificado: a resistência ‘’

[3] Com os  novos estudos historiográficos que apontavam a ausência da participação popular na República Brasileira  a chamada história dos vencidos ficou mais evidente

Fortalecendo a luta das Promotoras Legais Populares Pretas

Junho 29, 2022 Comentários fechados em Fortalecendo a luta das Promotoras Legais Populares Pretas By Soweto*#%!

Fortalecendo a luta das Promotoras Legais Populares  Pretas
* Magali Mendes

No mês de maio aconteceu uma reunião presencial importante e significativa do Aquilombamento das PLPs Pretas  do Estado de São Paulo. A mulherada   presente na sede da Soweto Organização  Negra veio representando as  cidades de Campinas,  São Paulo, Hortolândia, São Bernardo, Santo André e recebeu a visita  de Jacira Melo ( Jajá) do Instituto  Patrícia Galvão.

No Brasil o Projeto  das Promotoras Legais  iniciou em 1993  a partir da participação  brasileira da  União de Mulheres de São Paulo e  outros  coletivas feministas  no encontro promovido pela CLADEM no Chile. Foram inspiradas e  tiveram acesso à informação sobre projeto de  formação  destinados as mulheres populares,  com caráter  multiplicador,  no campo da de direito e da cidadania.

No Estado de São Paulo estão organizadas e  espalhadas  por cera de  de 40 cidades . Inúmeras  outras  pleiteiam  a formação inicial para  se juntar  e fortalecer o movimento/ a rede . A coordenação estadual que atua no sentido mais geral e tem muito trabalho à frente.  O trabalho é coletivo inspirado na irmandade, na diversidade . O sentimento  feminista incorpora mulheres negras , de outras etnias, mulheres CIS e Trans.

Este tipo  formação popular,  feminista  com vista a autonomia da mulherada  foi muito bem recebido  e  se ampliou para os 24 Estados da União. A partir de então cresceu e  se fortaleceu  enquanto um movimento de mulheres  através de  uma Rede Nacional. Cada vez mais se fortalece apoiado no  tripé gênero X raça X classe  e encontra um terreno fértil  junto  as mulheres  periféricas e pretas  motivando-as pensar, a agir  e transformar  sua realidade, sua sociedade  que tem profundas desigualdades.

A  pandemia da COVID19 impactou negativamente toda a população negra e pobre, principalmente as mulheres negras .  Nesse período acatando a  forma de comunicação e interação recomendada  pela  Organização mundial de Saúde  – as PLP Pretas de São Paulo  organizaram um espaço virtual  para refletir as suas questões, proposições  e   bandeiras de luta das mulheres negras e periféricas do Estado  de São Paulo

Diante das ameaças da pandemia e dos pandemônios   que  ceifara  milhares de vidas  o  desejo e a perspectiva de futuro foram o foco principal dos encontros virtuais. A preocupação geral era para que  o movimento  cada vez mais  desse   respostas   aos desafios da  luta cotidiana contra violência, a fome, o racismo estrutural  institucional e religioso, o encarceramento da  da juventude negra,  das mulheres negras ,  o feminicídio e  o genocídio de seus filhos entre outras situações. 

A vacinação contra a Covid  -19 , mesmo que tardia tornou possível reuniões presenciais. Agora no  momento  pós  letalidade da covid a organização através da reunião das articuladoras  PLP Pretas continua . Seguimos o processo de  pensar a ampliação da participação   rumo ao Seminário Estadual de PLPs Pretas previsto para o primeiro semestre de 2023. Esperamos contar  com a representação das PLPs Pretas de todas as cidades.

O apoio da Coordenação Estadual de PLPs/SP e a parceria histórica  com a  Soweto –Organização Negra são   fundamentais  para  fortalecer a organização  e  o protagonismo  das mulheres negras populares  e sua luta.

Você é benvinda! Participe

Contato: promotoraslegaispopulares@gmail.com  e/ou magali.mendes2011@gmail.com

AXÉ e LUTA!

FORA BOLSONARO!!

*Magali Mendes: Coordenadora de Formação da  Associação de PLPs CIDA  da  TERRA de Campinas e Região e Articuladora do Aquilombamento das PLPs Pretas.

A SOWETO visita Quilombo de Cafundó

Junho 10, 2022 Comentários fechados em A SOWETO visita Quilombo de Cafundó By Soweto*#%!

Lina Rosa*

No sábado, 28 de maio/2022, a SOWETO Organização Negra visitou o Quilombo de Cafundó, no município de Salto de Pirapora, SP.  Este Quilombo, que tem uma história de luta secular por seus direitos, luta esta que vem desde o período escravocrata, que para maioria dos afrodescentes brasileiros (53%, segundo IBGE) não acabou. É luta permanente, deste e de outros quilombos Brasil afora. Cada qual com sua luta de cada região, luta de cada dia, de cada século.

Cartaz Acervo Cafundó
Entronização do mastro da Santa Cruz

Na ocasião, a coordenação do Quilombo de Cafundó realizou a tradicional Festa da Santa Cruz, que reuniu não só moradores da região, assim como Instituições como a Soweto, Sá Menina, Organizações e Coletivos do Movimento Negro, Grupo de Estudantes da USP e outras/os. A festa de Santa Cruz, que é realizada a cerca de 150 anos. Além das manifestações religiosas, cheias de sincretismo, traz manifestações culturais, danças como a Capoeira, Jongo etc. A expressão da culinária negra nesta festa ficou por conta de uma disputada e gostosa feijoada. O artesanato, também, presente com peças relativas à cultura negra e regional.

A Soweto levou além de seus membros, e por seu intermédio, as estudantes Maria Alejandra Mora e Isabela Felicitar Rowers, da Rice University, USA, que estão fazendo uma espécie de imersão na realidade brasileira, principalmente no que tange às questões raciais. Segundo Alejandra, apoiada por Isabela, a participação naquelas festividades foi muito gratificante, fazendo-as se sentirem privilegiadas pela aquisição de parte do conhecimento de quem é e como vive a população negra no Brasil.

SOWETO chegando no Cafundó – da direita para esquerda: Vanderli, Lina, Andrea, Alejandra, Toninho, Regina, Romildo, Augusta, Alva Helena, Isabela, Iano.OBS.: Também, compondo a delegação Soweto, estavam Lucas e Paulo Rafael.

Sobre um pouco da história do Quilombo do Cafundó, deixamos por conta de Regina Aparecida Pereira, da coordenação geral do evento e deste Quilombo, num depoimento concedido à Alva Helena de Almeida, atual presidente da Soweto Organização Negra. Abaixo a íntegra da fala de Regina:

Da direita para esquerda: Vanderli, Regina, Alva Helena

[…] “Acabei abraçando o legado da Dona Cida, para a preservação do Cafundó, nas festas, nas tradições, para manter viva a história do Cafundó, que era o que ela fazia. Vim com uma missão, vim conhecer o Cafundó e já faz 19 anos que estou aqui. Essa festa, até onde conseguimos levantar, ela tem uns 150 anos, mas ela tem mais que isso!! A família da Dona Cida veio para cá em 1876, 12 anos antes da Abolição, temos isso em registro. O Joaquim Congo que foi o ancestral desse pessoal que está aqui hoje, foi liberto da Fazenda onde ele vivia, e o fazendeiro dividiu as terras; a família do Joaquim Congo veio para cá e aqui permaneceram. A nossa matriarca foi a vó Efigênia – que era filha do Joaquim Congo, foi ela que lutos pelas terras, lutou pela língua, foi ela que construiu essa Capela (Santa Cruz). A gente dá continuidade à luta dela, se não fosse a luta dela não estaríamos aqui hoje, principalmente a questão das terras. Antes dela morrer, ela pediu para os filhos e netos que não deixassem a terra e nem deixassem de falar a língua – herança do pai dela – “Kimbundo”. Os filhos e netos mantiveram isso até hoje. Hoje só temos 02 netos que falam a língua fluentemente (Marcos e Juvenil), a maioria conhece, mas só eles falam. Foi através dessa língua que o Quilombo foi reconhecido pelo Governo Federal, e acabou sendo desapropriado e devolvido as terras para a comunidade. Hoje tentamos fazer um trabalho de preservação e resgate, principalmente com os jovens, foi através dessa língua que conseguimos trazer em 2015 o Consul de Angola, Sr. Belo Mangueira, veio reconhecer a comunidade, reconhecer a língua, algumas tradições que são mantidas aqui e em Angola e, recentemente, tivemos a visita da nova Consulesa, Dra.Estela, veio dia 01 de maio, e agora vamos ganhar cidadania Angolana. Na 1ª. Semana de julho vamos receber a visita do Embaixador de Angola, eles querem colocar o Cafundó como Patrimônio Cultural de Angola, pelas identificações que eles fizeram, de tudo que se mantém aqui, e eu recebi na semana passada o título de Rainha Nzinga, pela preservação da cultura Angolana aqui na Comunidade. Não é um título para a Regina, mas para toda a comunidade, para todas as mulheres negras que lutam não só no Quilombo, em todos os lugares onde a gente está. Estou no Quilombo, mas vim de uma periferia, e a gente sabe que não é fácil, ser negra, ser mulher, ser mãe, se comprometer com uma luta.

PARABÉNS!! É uma honraria conversar com a Senhora!!! (Alva)”

A Soweto retornou do Cafundó feliz com o que viu e participou, prometendo retornar nos próximos anos. Saiba mais: Buscando Quilombo de Cafundó nas Redes Sociais. Há muita coisa boa e bonita de ver.

Fotos de: Toninho, Alva, Fernando, Romildo

Lina Rosa*
Jornalista aposentada e educadora social na ativa.
Membro da diretoria Soweto
linarosanegra@gmail.com