Author Archive Soweto*#%!

EDUCAÇÃO ANTIRRACISTA: LIÇÕES DA MINHA HISTÓRIA

Outubro 15, 2020 Comentários fechados em EDUCAÇÃO ANTIRRACISTA: LIÇÕES DA MINHA HISTÓRIA By Soweto*#%!

LIÇÕES DA MINHA HISTÓRIA

GEVALCI GOME犀利士 S[1]

Bem, tomei conhecimento do documentário da Michele Obama através da minha sobrinha Marina.  Sou professora de educação infantil e demorei para assistir o documentário porque estava envolvida com as orientações escolares vindas do gabinete da Secretaria Municipal de Educação de São Paulo. A pandemia da corona vírus já havia se instalada no Brasil e as orientações ainda eram confusas e cheias de exigências desencontradas. Coisa de gente que não conhece de perto a realidade escolar das periferias da cidade.

 O filme deixou uma lição.  O quanto temos que lutar por nossos direitos no mundo atual.

Michele Obama como mulher negra teve trajetória vitoriosa, apesar de todos os desafios de viver numa nação de histórico racista., como os EUA.  No Brasil também temos muitas dificuldades deste tipo que são históricas, econômicas, educacionais, de saúde, infra estrutura etc.

Me lembro da minha infância e adolescência num bairro na zona norte de São Paulo.

Na minha história vivi situações de exclusão social, discriminação e racismo como muitos jovens da periferia.  Por exemplo: não ser escolhida para dançar nos bailes, ficar fora do time de voleibol da escola, ter apenas colegas de classe negros e/ou homossexuais. Aprendi que as diferentes se juntam para enfrentar a discriminação na escola ou na Universidade. A pessoa se levanta e sai do seu lado no banco do ônibus.  Olhares estranhos no elevador do condomínio onde moro. Quando se entra no elevador o outro não pronuncia nenhuma palavra, mas seu olhar e a    expressão facial dizem tudo.

Diante das situações o primeiro sentimento foi de muita raiva. Depois veio a compreensão da ignorância do outro, do racista. Foram situações vivenciadas de forma silenciosa embora agressiva. Como não perceber o racismo brasileiro.

No bairro da zona norte moravam muitas famílias negras.  Todos lutam muito pela própria sobrevivência: alimentação, moradia, educação, saúde etc. Por um instante penso que a luta não tem fim e nem solução justa. Sempre soube que não seria fácil. A luta segue de governo em governo.


[1] Gevalci Gomes Santos atua na Educação Infantil da Prefeitura Municipal de São Paulo – Região da Brasilândia

EDUCAÇÃO ANTIRRACISTA: RECORDO AS LIÇÕES DE CASA E DA MINHA VIDA

Outubro 15, 2020 Comentários fechados em EDUCAÇÃO ANTIRRACISTA: RECORDO AS LIÇÕES DE CASA E DA MINHA VIDA By Soweto*#%!

RECORDO AS LIÇÕES DE CASA
E DA MINHA VIDA

GEVANILDA SANTOS[1]

Quero falar de um assunto tabu na sociedade brasileira, e, por isso silenciado: o enfrentamento ao racismo e ao machismo na educação, formal ou informal. Essa breve reflexão é um olhar pessoal na educação familiar e escolar entrelaçadas nas relações de gênero, raça e política. Tudo mediado por um documentário e a leitura do livro que retrata a trajetória de Michele Obama no mundo das celebridades internacionais.

Nós mulheres negras brasileiras parceiras da Soweto criamos uma forma de comunicação remota pra conversar sobre as percepções do filme / documentário “Minha História” que retrata a trajetória de Michele Obama. O grupo remoto denominado “Lições da minha história” teve um papel importante, sobretudo para nossa saúde mental.  No momento da pandemia do corona vírus a Organização Mundial de Saúde (OMS) recomendou o isolamento social e o bate papo virtual é uma forma saudável de dialogar.  Foram encontros semanais e ao final de quase dois meses de bate papo virtual, combinamos, que cada participante faria um artigo com sua percepção, seu olhar e as lições apreendidas.

Inicialmente destaco dois pontos.

Á primeira vista sobressaiu o sucesso de Michele Obama no mundo das celebridades. Ela relata a peculiaridade do papel de “primeira dama” do império norte americano quando, em 2009, com a vitória eleitoral de Barack Obama a presidente dos EUA. Sem dúvida a história da Sra. Michele Obama é uma história de sucesso e brilhantismo que nos traz muitas lições. O aspecto mercadológico. A difusão e venda do livro ou documentário sobre a trajetória de uma mulher negra é um sucesso de venda mundial. Em sociedades racistas este aspecto é algo inusitado. Segundo, destaco impacto da experiencia positiva de Michele Obama para as mulheres negras em todo o mundo.  E também para mulheres negras brasileiras.

Me recordo de uma viagem quando aguardava conexão   em um aeroporto nacional e caminhava a observar bancas de revistas. Vi estampado na vitrine o livro da vida de Michele Obama. Entro e pergunto o preço do livro.  Caríssimo! Sai sem comprar. Pensei no baixo poder de consumo da pretensa classe média negra brasileira. Ele ainda não é suficiente para adquirir produtos importados, muito embora o seu conteúdo fosse de grande interesse. Sou uma educadora e parte de um público interessado mais em leitura do que no consumismo de produtos “Black” atualmente, na moda. Por ironia do destino, como se costuma falar no Brasil, cheguei à história do livro por outra via, a comunicação remota durante o isolamento.

A partir da sugestão para assistir o documentário o meu interesse na comunicação remota do grupo de mulheres negras era saber como cada uma estava cuidando da saúde, da vida, dos sentimentos, dores e alegrias. Enquanto uma mulher negra e ativista da Soweto Organização Negra me despertou o interesse em aprofundar questões de gênero e raça.  Aproveitar o tempo do bate papo para aprofundar nossa problemática social num momento em que era grande a apreensão com o agravamento da violência contra a mulher em decorrência da pandemia da corona vírus. Estávamos atentas e zelosas.   Nos envolvemos na conversa e na participação qualificada afim de romper o silencio sobre as mazelas do cotidiano feminino e também falar das alegrias. Fomos vitoriosas. E cá estamos, compartilhando impressões a partir das lições apreendidas.

A primeira lição importante é a troca coletiva. As lições da vida de Michele Obama são inspiradoras. Eu destaco o aspecto identitário de gênero a partir do fato dela ser uma mulher negra como nós.

Somos mulheres negras contemporâneas com vivencia em países diferentes. Michele Obama vivenciou a realidade dos EUA e eu a realidade brasileira. Ela com uma vivencia num país que é o líder do capitalismo mundial ocidental. Eu com uma vivencia no Brasil, na América Latina, considerada quintal dos EUA, um país de capitalismo tardio dependente, subdesenvolvido com altíssimos índices de desigualdade social.  Ambos os países desenvolveram o racismo estrutural e institucional. 

O meu sentimento é que temos algo em comum. Rompemos as barreiras sociais e superamos o racismo através da educação.  Fica uma pergunta no ar. Em que medida nossas trajetórias dialogam e se entrelaçam? Ser mulher negra num país desenvolvido ou subdesenvolvido é a mesma coisa? Qual é a diferença?  E qual é a semelhança?  O que nos une ou separa?

A segunda lição apreendida foi a importância de romper o silencio e trocar informação da educação formal ou informal. E deixar o registro histórico da vivencia antirracista.

Preencher a lacuna da subjetividade da educação antirracista antes era denominada atitude de “consciência negra”. Esta atitude se difundiu entre as/os ativistas do combate ao racismo brasileiro.

Há muitas definições do racismo no Brasil.  Elas estão por aí nos livros e vídeos. São capazes de  apontar características e  dimensões estrutural ou institucional.

De um modo geral a sociedade brasileira está acostumada a tratar esta problemática histórica como um tabu.  Não admite o racismo. E quando admite só reconhece o racismo nas práticas do outro.

O imaginário social brasileiro se acostumou a reconhecer o racismo mediado por um filme, uma música, um livro: o filme Macunaíma, a música Pedrada de Chico Cesar, o livro Capitães de Areia de Jorge Amado, o Livro de caráter sociológico “O significado protesto negro” de Florestan Fernandes, filmes norte-americanos de Spike Lee e aqueles   protagonizados por atores e atrizes ganhadores do Óscar, dentre outros. É recente falar do racismo abertamente, em público, e na primeira pessoa.

A sociedade brasileira naturaliza a reclamação do racismo ao ponto   de não considerar os seus efeitos ou impacto na população negra, especialmente na mulher negra. Há uma avaliação histórica desatualizada das mulheres negras como figuras “guerreiras, “fortes” e “resistente a pobreza e a dor”.  É como se o racismo não impusesse   nenhuma dificuldade a vida das mulheres.  Aí naturaliza suas dores e seu sofrimento.     Me parece que isso é um rastro de alheamento parecido com alienação que propicia o silencio da vítima e de toda sociedade. Aí está a importância de quebrar o silencio e falar em primeira pessoa das “dores e delicias de ser o que é”.

A sociedade brasileira também herdeira do patriarcalismo costuma responsabilizar a própria mulher pelo machismo sofrido, dizendo que fala demais e que é revoltada com seu insucesso.  Assim a sociedade oculta a dimensão social do racismo e do machismo. O seu caráter coletivo e desumano que foi forjado pela sociedade.  Como nos lembra a socióloga brasileira, Lélia Gonzalez homens e mulheres negros estão entrelaçados nessa problemática, na medida em que são cumplices da experiência histórica da escravidão na América.  Denuncia a unilateralidade desta circunstancia alertando que   todos os envolvidos contribuem com o machismo e o racismo. Nos alertou para a necessidade de uma perspectiva de gênero adequada as mulheres negras. E que não é legal nos aprisionar nas dores e delicias do patriarcalismo. Retomo aqui a importância dos grupos ou rodas de conversas entre mulheres.  Nos círculos da nova cultura costuma-se quebrar o silencio , o que possibilita aflorar a consciência negra feminista e feminina, ingrediente básico da valorização da mulher negra. Embora Michele Obama não tenha dito nada sobre feminismo aprendemos muito com sua trajetória.

 As relações sociais mais vigorosas  e resistentes estão assentadas na identidade negra comum e na política. elas se constroem na interdependência, na referência, e no aprendizado coletivo. Concordo com a frase do educador Paulo Freire   é caminhando que se conhece o caminho.  O maior legado está guardado na frase “o caminho se aprende caminhando”. Acrescentaria a última frase da minha mãe em seu leito de morte…” coragem minhas filhas!”.

 A esperança é que sejamos capazes de superar as dificuldades da vida para sermos felizes. De aprender com o/a outro/a as lições de vida. Assim recordo estas lições de casa e da minha vida. 

Esse é o papel da educação.  É o  meu preferido.   Por tudo isso o documentário de Michele Obama foi uma grata surpresa. Mesmo sabendo que nem tudo são flores. Uma referência pedagógica para a educação antirracista, não machista e contra todas as formas de misoginia e intolerância.


[1] Sou Gevanilda Santos. Nasci em Presidente Prudente nos anos 60 (SP), filha de migrantes negros nordestinos (Ba). Graduada em história e mestre em sociologia política pela PUC-SP, professora universitária aposentada, pesquisadora das relações socio-raciais. Coautora de livros dessa temática e atualmente compõe a diretora da Soweto Organização Negra.

EDUCAÇÃO ANTIRRACISTA: EXPERIÊNCIAS E LIÇÕES DE VIDA

Outubro 15, 2020 Comentários fechados em EDUCAÇÃO ANTIRRACISTA: EXPERIÊNCIAS E LIÇÕES DE VIDA By Soweto*#%!

EDUCAÇÃO ANTIRRACISTA: EXPERIÊNCIAS E LIÇÕES DE VIDA

O filme “Minha História” protagonizado por Michele Obama configurou-se uma estratégia de aglutinação do nosso grupo de amigas “Confraria”, a fim de levantar aspectos relatados pela ex- dama dos Estados Unidos que tivessem sido marcantes na percepção de cada uma de nós.

Pareceu-nos uma percepção unânime o reconhecimento de que a pessoa de Michele Obama marcou positivamente a vida de muitas mulheres, negras certamente, mas brancas também, tanto nos EUA, como nos países por onde ela andou.  Essa influência foi evidenciada na trajetória educacional, profissional e de ativismo que ela decidiu envolver-se no período de oito anos que esteve na Casa Branca. Assim decidimos analisar a importância da educação enquanto ferramenta de “ascensão”, “libertação”, “conscientização”, “empoderamento” e “protagonismo” de mulheres negras em particular, e da população negra de maneira geral.

No filme os detalhes são menores, porém importantes para revelar que ela desde muito pequena demonstrava uma personalidade forte, confiante e desafiadora, em busca de experiências, habilidades que lhe interessassem. Foi assim na escola básica, na secundária e nas universidades. Em todas essas experiências ela teve a sorte de encontrar profissionais sensíveis, dedicados e comprometidos com o seu mais amplo desenvolvimento como pessoa, aluna e profissional. Assim, a educação que ela obteve, ainda que impregnada de deficiências, preconceitos, conservadorismo, racismo e sexismo, pode ser apropriada como um instrumento de ascensão, conscientização e protagonismo. Podemos reconhecer, em alguns momentos, certo “idealismo”, sustentado pela lógica capitalista, imperialista e individualista do estado americano. Apesar disso, também podemos constatar a importância da representatividade que a sua atuação alcançou no período, para a população negra em particular, para as mulheres, para os jovens homens e mulheres, e para as mulheres jovens afro-americanas, latino-americanas e afro-europeias. Se confortarmos essa experiência com a discussão de Joyce Berth sobre empoderamento, poderíamos reconhecer que Michele alcançou, desfrutou e experimentou um nível individual de conscientização e libertação, sustentado por uma emancipação intelectual e expressiva autoestima, capaz de influenciar os seus pares. Contudo, não foi suficiente para alcançar o coletivo, numa perspectiva processual mais ampla, dirigida a diversas frentes de atuação. Dessa forma, a educação mesmo se constituindo em uma estratégia de reprodução do racismo e do sexismo, com toda a sua nocividade, ainda é um instrumento necessário para que a população negra e população a feminina possa se utilizar para alcançar condições de menor desigualdade na sociedade. Lélia Gonzalez teria expressado o seu entendimento de que “apesar da nocividade”, a instituição educacional formal serve ao propósito da apropriação de conhecimentos e vislumbre de lugares e de pessoas de referências.  As professoras Petronilha, Nilma e o professor Kabenguele apontam a educação como necessária, estratégica para alcançar mudanças, porém não de forma isolada. Ela felizmente, não é o único espaço de “formação” dos sujeitos. Os demais espaços sociais cumprem paralelamente, ou majoritariamente o papel necessário para incorporação de saberes, valores, resgate histórico e construção de “trajetórias” que sirvam de referencias. Poderia citar Carlos Brandão que se refere à educação como “inevitável”. Discute ainda que a educação é maior do que o controle formal sobre a educação e, se em algum lugar ela serve à reprodução, em outro pode servir à criação da igualdade. Para Silvio Almeida “as instituições são feitas por nós”, portanto é preciso “educar alunos e professores” para projetos transformadores. Já a professora Analu Sousa reconhece que há muito material produzido sobre as relações étnico-raciais para a educação básica, mas que é necessário “olharmos” essa produção segundo uma proposição que denominou “Identificadores da Qualidade na Educação” e relações raciais na Escola, o qual contém sete eixos. Dos sete, destacaria a intencionalidade de “olhar com lupa” por onde o racismo “caminha” dentro da Escola, observando relacionamentos e atitudes de todos os envolvidos na comunidade escolar até o território.

ALVA HELENA DE ALMEIDA

EDUCAÇÃO ANTIRRACISTA: EXPERIENCIAS E LIÇÕES DE VIDA

Outubro 5, 2020 Comentários fechados em EDUCAÇÃO ANTIRRACISTA: EXPERIENCIAS E LIÇÕES DE VIDA By Soweto*#%!

EDUCAÇÃO ANTIRRACISTA: EXPERIENCIAS E LIÇÕES DE VIDA

Antes de tudo quero comentar como foi assistir ao filme da Michelle Obama. Eu não tinha expectativa muito alta com o filme, sabia que se tratava de uma “propaganda” para divulgar o livro, porém de repente me vi envolvida nas experiências relatadas pelas mulheres nas rodas de conversa. Impossível não se comover com relatos com os quais todas/os negras/os se identificam. Ainda mais impactante foi a conversa com as minhas amigas irmãs sobre o tema. Confesso que eu estava com preguiça de participar das 犀利士 discussões, acho que no fundo nem queria ver o filme. Assim fui pega de surpresa pelo bom humor da Michelle Obama, pelo jeito dela conduzir a conversa e pelos relatos emocionantes. Mas nada no filme foi mais rico do que nossos papos na Confraria! (não vou explicar nada sobre a Confraria, é segredo!). Vou compartilhar o que me tocou nessa experiência e contribuiu para alimentar minha alma sedenta nesses tempos de pandemia.

            Começo pelas provocações que o termo educação antirracista reacende nas minhas lembranças. Meu pai me ensinando que somos negros: “temos a pele clara, mas temos os primos e tios de pele escura e no final somos todos negros”. Eu tinha treze anos de idade quando vi meu pai receber o moço do IBGE em casa, de alguma forma isso me impressionou porque foi nesse dia que perguntei se éramos negros ou mulatos. Jamais esqueci essa conversa, foi nesse momento que comecei a ter consciência de identidade racial e acho que foi minha primeira experiência de educação antirracista dentro de casa.

            Décadas depois já como militante e trabalhadora da saúde, me vi diante de um texto inesquecível que utilizo até hoje quando quero discutir sobre o assunto da educação antirracista: o parecer n°03/2004 do Conselho Nacional de Educação escrito pela  Petronilha Beatriz Gonçalves e Silva, uma educadora negra  iluminada que abriu meus caminhos nessa seara da luta antirracista. Nunca me esqueci das três palavras que ela descreve que me tocaram profundamente no tempo em que eu estudava sobre a questão da educação das relações étnico raciais: reconhecimento, valorização e afirmação de direitos. O que vi no filme e as discussões nas rodas da Confraria me fizeram revisitar esse momento. São palavras fortes como:Reconhecimento implica justiça e iguais direitos sociais, civis, culturais e econômicos… e isto requer mudança nos discursos, raciocínios, lógicas, gestos, posturas, modo de tratar as pessoas negras… Reconhecer exige que se questionem relações étnico-raciais baseadas em preconceito….[1]

As nossas conversas da Confraria trouxeram a lembrança às vitórias e fracassos da luta contra o racismo da qual fazemos parte. Compartilhamos experiências e colhemos muitas  lições, algumas perturbadoras por nos deixarem sem respostas. A educação é nossa ferramenta de luta e também nosso fracasso. Conquistamos uma lei antirracista há dezesseis anos e ainda estamos distantes das três palavras, reconhecimento, valorização e afirmação de direitos. Assistir ao filme, participar das conversas da confraria me revigorou para continuar a busca em direção a uma educação antirracista para além da instituição escola. Agora me sinto alimentada pelas nossas rodas, acho até que fiz as pazes com as minhas lembranças, assim reverencio o aprendizado dos nossos ancestrais de longa data.

Maria do Carmo Sales Monteiro


[1] Conselho Nacional de Educação: PARECER N.º CNE/CP 003/2004, Disponível em http://portal.mec.gov.br/dmdocuments/cnecp_003.pdf

Vinte e cinco anos Secretaria Nacional de Combate ao Racismo do PT

Setembro 25, 2020 Comentários fechados em Vinte e cinco anos Secretaria Nacional de Combate ao Racismo do PT By Soweto*#%!

Vinte e cinco anos de criação da Secretaria Nacional de Combate ao Racismo do Partido dos Trabalhadores.

Nesse encontro, o 10º. Encontro Nacional do PT, foi criada há 25 anos, a Secretaria Nacional de Combate ao Racismo do PT (SNCR-PT).

O 10º.Encontro Nacional foi realizado em Guarapari (Espírito Santo), nos dias 18 a 20 de agosto de 1995, e teve como marco uma homenagem aos 300 anos da morte de Zumbi dos Palmares.

Com esse texto pretendemos destacar sua criação como inovadora no âmbito dos partidos políticos brasileiros; a sua origem como fruto de uma opção partidária da luta antirracista no país; a trajetória e o crescimento coletivo dessa luta no interior do PT.

A opção partidária por um projeto alternativo de poder: o Partido dos Trabalhadores.

A decisão de ingressar no Partido dos Trabalhadores desde a sua fundação,  foi tomada por uma juventude negra, da qual fiz parte,  que iniciava a sua militância em um movimento hoje identificado como movimento negro contemporâneo, compreendido como um conjunto de grupos e organizações, mulheres e homens  que ousaram desenvolver a luta e o combate ao racismo, em meados da década de 70, em plena vigência da ditadura militar em nosso país.

Ao fazer essa opção partidária de contribuir e participar da fundação de um Partido como o PT, essa militância trouxe junto um debate importante: um projeto alternativo de poder não poderia ser construído sem a compreensão de que um ideário transformador, de cunho socialista, tem que incorporar a eliminação de todo e qualquer tipo de opressão, seja ela de  classe, raça ou gênero. Nos primeiros debates sobre esse projeto destacava que o entendimento de que o racismo praticado contra a população negra ao longo de nossa história, é um dos principais aspectos das contradições existentes entre a sociedade e o Estado no Brasil.

Essa opção mostrou-se correta. Hoje, podemos afirmar que o protagonismo da militância negra na luta política de combate ao racismo nos seus 40 anos de vida contribuiu efetivamente para que o PT incorporasse, mesmo com todas as dificuldades e incompreensões, as ideias e o pensamento de uma juventude que decidiu pela participação nessa histórica luta de construção partidária.

A trajetória da luta de combate ao racismo no PT.

Desde a instalação da primeira Comissão de Negros do PT no Estado de São Paulo em 1982, vários encontros nacionais foram realizados.

O I Encontro Nacional “O PT e a questão racial” realizado em Brasília, no Distrito Federal, nos dias 20 a 22 de março de 1987, que inicia uma articulação nacional da luta de combate ao racismo no PT.

O II Encontro Nacional “O PT e a questão racial” realizado nos dias 26 a 28 de agosto de 1988, na cidade de Vitória, no Estado do Espírito Santo, que orienta a intervenção de nosso partido nas atividades do Centenário da Abolição.

O III Encontro Nacional de Negros do PT, realizado nos dias 21 a 23 de Junho de 1995 na cidade de Belo Horizonte, no Estado de Minas Gerais, que propõe a criação da Secretaria Nacional de Combate ao Racismo do PT, aprovada no X Encontro Nacional do PT realizado em Guarapari/Espírito Santo, nos dias 18 a 20 de Agosto de 1995.

O IV Encontro Nacional de Negros do PT, realizado no Instituto Cajamar, no Estado de São Paulo, nos dias 26 a 28 de janeiro de 1996, que elegeu o companheiro Flávio Jorge para Secretário Nacional de Combate ao Racismo e o primeiro Coletivo de direção dessa Secretaria.

O V Encontro Nacional de Negros e Negras do PT, realizado no Instituto Cajamar, no Estado de São Paulo, nos dias 08 a 10 de Agosto de 1997, que teve como pauta principal a necessidade de políticas públicas para o combate ao racismo e reelegeu o companheiro Flavio Jorge, Secretário Nacional de Combate ao Racismo.

O VI Encontro Nacional de Negros e Negras do PT, realizado no Instituto Cajamar, no Estado de São Paulo, nos dias 30 e 31 de outubro de 1999, marcado pela presença da juventude negra, que elegeu o companheiro Carlos Porto, do Mato Grosso do Sul, para Secretário Nacional de Combate ao Racismo.

O VII Encontro Nacional de Negros e Negras do PT, realizado na cidade de Guarulhos, no Estado de São Paulo, nos dias 12 e 13 de Outubro de 2001, que aprova as diretrizes do Programa de Governo “Brasil sem Racismo”, que contribuiu para a eleição do Presidente Lula nas eleições de 2002, e elegeu o companheiro Martvs das Chagas, de Minas Gerais, Secretário Nacional de Combate ao Racismo.

O VIII Encontro Nacional de Negros e Negras do PT, realizado na cidade de São Paulo, no ano de 2007, que elegeu a companheira Maria Aparecida Abreu, a Cida Abreu, do Rio de Janeiro, para Secretaria Nacional de Combate ao Racismo, a primeira mulher negra eleita para ocupar esse cargo, que permaneceu  como dirigente dessa Secretaria até o ano de 2012,  por determinação do Diretório Nacional do PT que prorrogou o mandato das Secretarias Setoriais até esse ano.

O Encontro Nacional Extraordinário, realizado em Brasília, no Distrito Federal, nos dias 14 a 16 de maio de 2010, com a participação da então candidata Dilma Rousseff, que reafirmou os avanços conquistados durante os oitos ano de governo do Presidente Luiz Inácio Lula da Silva e a importância da continuidade da implementação das políticas de promoção da igualdade racial em um novo governo do PT.

O IX Encontro Nacional de Combate ao Racismo do PT, realizado em Recife, no Estado de Pernambuco, nos dias 26 e 27 de maio de 2012, que reelegeu Cida Abreu como Secretária Nacional de Combate ao Racismo do PT.

O X Encontro Nacional de Combate ao Racismo do PT realizado nos dias 21 e 22 de outubro de 2017 na cidade de São Paulo que, novamente, elegeu Martvs das Chagas Secretário Nacional de Combate ao Racismo.

A importância dos vinte e cinco anos da Secretaria Nacional de Combate ao Racismo do PT.

Uma bela trajetória de luta e participação política que impulsionou o partido a incorporar no seu programa o direito à diferença à concepção da luta de classes, e colocou o PT  na frente dos demais partidos brasileiros porque foi capaz de contribuir para formular ação política que prioriza a superação das relações de classe, gênero e raça, as três formas de opressão que combinadas sustentam o racismo típico de uma sociedade capitalista.

Para uma análise e um olhar retrospectivo e crítico dessa história de luta que consideramos significativa para a luta de combate ao racismo no Brasil e no mundo, a SOWETO Organização Negra realizou em 02 de fevereiro de 2016, em parceria com a Fundação Perseu Abramo, o lançamento dom livro “Raça, Classe e Cidadania: a trajetória do debate racial no Partido dos Trabalhadores” de autoria de Claudete Gomes Soares. Claudete é uma colaboradora da SOWETO, Doutora em Sociologia pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP) e professora de Sociologia da Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS) – Campus Chapecó – Santa Catarina.

Na ocasião realizamos um debate com a participação da autora do livro, militantes do movimento negro e sujeitos políticos dessa construção partidária: a Secretaria Nacional de Combate ao Racismo do PT,

Esse debate, mesmo com as mudanças na vida do PT que interferem na nossa relação com o partido e diante da difícil conjuntura de retrocessos e retirada de direitos implementados por um projeto ultra neoliberal de um governo de extrema-direita, que frente a uma crise sanitária, a COVID 19, joga com a vida e a morte de mais de 140.000 de brasileiros, na sua maioria negros e negras, continua atual e pode ser encontrado em:

Lançamento, do livro Raça, Classe e Cidadania: a trajetória do debate racial no PT

Flávio Jorge Rodrigues da Silva
Ativista da SOWETO Organização Negra.
Integrante da Executiva Nacional da CONEN – Coordenação Nacional de Entidades Negras.
Secretário Nacional de Combate ao Racismo do PT no período de 1995 – 1999.