Do Atlântico Negro Parisiense. Últimas noticias.
[1] Por Joana Ferreira
A organização negra parisiense Conselho das Associaçoes Negra da França – CRAN, fundada em 26 de novembro 2005 com o objetivo de lutar contre o racismo anti-negro e atuante na França foi vitoriosa. Uma de suas reivindicaçoes foi reconhecida pelo governo francês Macron. Enfim, retornam a sua terra natal, as obras de arte, espolio de guerra roubadas na guerra colonial da França contra Dahomé( antigo Benin) entre os anos de 1892-1894. Apesar da batalha de resistência do rei Behanzin contra o colonialismo francês, Behanzin perdeu a guerra, foi preso e seu tesouro e obras de arte mais importantes como o seu trono foram trazidas para os museus da França.
Mais de cem anos depois, muitas obras retornaram ao Benin em novembro de 2021. Mas antes do retorno, foi realizado entre 26 ao 31 de outubro 2021, gratuitamente, um grande evento em Paris, no Museu du Quai Branly – Jacques Chirac, homenageando as artes, a cultura e as tradições do Benin.
A programação do evento apresentou um colóquio científico internacional, encontros e discussões sobre os projetos museológicos e um ciclo de cinema. Este evento e/ou cerimonia foi organizado em comum acordo entre os dirigentes da República do Benin e o governo francês. «
O publico que visitou a exposição « BENIN » no Teatro Lévi-Strauss, do Museu du Quai Branly – Jacques Chirac teve a oportunidade de ver ou rever as 26 obras que foram restituídas ao Benin. Na entrada do Teatro Claude Lévi-Strausso publico pode apreciar as obras do tesouro real de Abomey” .


A cenografia da exposição foi didática. Pode-se observar diferentes aspectos historicos da trajetoria das obras. Uma descrição detalhada do conflito colonial; a permanência das樂威壯 obras de arte nos museus parisienses por quase 130 anos, e por fim as reivindicaçoes do CRAN, a ação vitoriosa com as especificidades da batalha jurídica e o processo de restituição das obras de arte.
O evento da exposição « BENIN » no museu e o retorno das obras marcaram o encerramento deste litigio. É importante ressaltar que os protagonistas da luta e/ou reivindicaçao faltou no evento. O Conseil Représentatif des Associations Noires de France atraves do seu presidente de honra Sr. Louis George TIN nao foi convidado para a cerimônia. Na França este fato foi incompreensível.Haja vista que o CRAN e sua equipe atuou pela restituição das obras de arte desde 2013. Realizou uma campanha publicitaria denunciando o espolio da França no Benin. Confira a entrevista de Louis George TIN de 10 outubro 2016. (https://youtu.be/HK2uADccSjY)
No Benin ocorreu o reconhecimento do CRAN e seu atual presidente de honra, Louis George TIN, foi convidado e participou das cerimônias de retorno das 26 obras de arte no BENIN em 10 novembro 2021. Confira o video da chegada das obras de arte no Benin https://youtu.be/Y0ZSWX3EB
Estas e outras ações na Europa se inserem na luta da diáspora negra por seus direitos. Parabéns ao CRAN!
[i] Joana Ferreira
Pesquisadora das relações raciais na França e no Brasil.
Assistente Social na Prefeitura de Paris e Prefeitura de Sao Paulo, foi professora da UNICSUL/SP.
Mestrado em Sociologia PUC/SP, Bacharel en Serviço Social PUC/SP, Diploma de Assistente Social Francês, École Normale Sociale (ANS/Paris) e foi aluna no Programa de Doutorado em Sociologia na EHESS e na Sorbonne, Paris.
Autora do livro Centro de Cultura e Arte Negra – CECAN, coleçao Retratos do Brasil pela editora Selo Negro/Summus 2012. Sâo Paulo.
Só quero botar o bloco antirracista na rua
SÓ QUERO BOTAR O BLOCO ANTIRRACISTA NA RUA [1]
Por Gevanilda Santos[2]
Qual será este ano o clima do 20 de novembro, já consagrado nacionalmente Dia da Consciência Negra? Hoje é possível encontrar quem vislumbre o arrefecimento da fase pandêmica da covid-19; outros, o recrudescimento de suas sequelas; e há ainda aqueles que interpretam a doença como algo corriqueiro. O pressuposto geral é que somos sobreviventes e estamos numa fase de renascimento. Mas, e o futuro, o que nos reserva? O que fazer? Este texto visa a contribuir para a reflexão das experiências mais duradouras de combate ao racismo, as mais significativas para o Movimento Negro contemporâneo e inspiradas nos direitos humanos de todos e todas.
Para quem encara o cenário nacional e seus problemas reais, resta enfrentar os novos desafios e encarar que nada será como antes. É a melhor saída. No epicentro desse cenário está o Brasil, e ele não mudou. O gigante adormecido, às vésperas de completar o bicentenário de sua independência, tem pouco a comemorar porque não é capaz de acolher igualmente todos os filhos da pátria, espalhados por sua grandeza territorial e sua diversidade regional.
Não é novidade que as desigualdades de raça, classe e gênero afligem e castigam as regiões brasileiras na proporcionalidade das vantagens da branquitude, da opulência de classe e das agruras do patriarcado. Mas nem todos padecem da mesma forma. A população negra e os povos indígenas estão em maior desalento por causa da pobreza acentuada, da destruição da natureza, da desvalorização cultural, do conservadorismo, do elitismo, do retrógrado machismo, da homofobia, da intolerância religiosa e da aberrante concentração de riqueza que engendra o racismo estrutural e sistêmico.
A esperança no fim da pandemia aumenta com o acesso às vacinas e ao cumprimento das regras sanitárias respeitadas mundialmente. Mas nem todos têm as mesmas oportunidades e acesso às políticas públicas e sociais. Há parcelas da população que padecem mais com o recrudescimento dos efeitos colaterais da pandemia – além da doença e do óbito, a fome, o trabalho precarizado, a violência policial e a doméstica, a desorganização familiar e o desequilíbrio da saúde mental, a exclusão digital; em suma, mazelas que já existiam mas foram agravadas sobretudo para a população nacional de pretos e pardos, aproximadamente 54% dos brasileiros, de acordo com o IBGE. Não há dúvida de que, por conta do racismo estrutural, essa é a parcela mais vulnerabilizada, e as estatísticas comprovam a realidade.
Não tenho palavras àqueles que encaram a covid-19 como algo corriqueiro. Aos demais, deixo uma indagação: no cenário deste 20 de novembro, como implementar as leis conquistadas no papel e alcançar a verdadeira equidade?
Brevemente, não se podem esgotar os fatores envolvidos no tema. Há muitas versões, ideias e caminhos. Apontamos algumas implicações importantes para reflexão que merecem aprofundamento:
• Nos últimos quarenta anos, o Movimento Negro Brasileiro se fortaleceu e pavimentou fortemente o caminho da resistência nas ruas.
• O ideal da consciência negra despertado no 20 de novembro de 1971 em Porto Alegre (RS), com o ativismo de Oliveira Silveira e outros, se espraiou por todo o território nacional.
• O protesto negro impera nos territórios simbólicos da luta do combate ao racismo, a exemplo do lançamento público do Movimento Negro Unificado (MNU) nas escadarias do Teatro Municipal de São Paulo (1978), e tem alcançado lugares distantes [3]
• O ativismo dos guerreiros de Zumbi e das guerreiras de Dandara, em seu modo tradicional ou contemporâneo e cibernético, segue denunciando o racismo antes mascarado, a exemplo dos ensinamentos de Abdias do Nascimento e Lélia Gonzalez. Hoje, intelectuais negros e negras com linguagem pop e moderna escancaram o caráter estrutural e sistêmico do preconceito racial.
• Após a fase da denúncia nas ruas do mito da democracia racial, floresceu a propositura de projetos variados que apontam caminhos como os da valorização da identidade negra, do acesso às políticas públicas, da confrontação da política institucional e do Estado Brasileiro. Há ainda propostas que saem dos becos, bocas e vielas e, lentamente, alcançam a comunidade, o território da cultura, a escola, a universidade, as redes de saúde, os movimentos sociais, fragmentos das classes sociais, as políticas públicas e até a Constituição Federal. E cada setor segue sua própria voz de comando e liderança. Mas não esqueçamos: a reação conservadora às lutas de combate ao racismo também se configura e reinventa.
• A unificação ou, se preferir, a unidade desafiadora tão almejada é constantemente rechaçada por interesses da luta de classe, raça e gênero, e timidamente acena com pequenas vantagens pessoais ou institucionais.
Há mais de quarenta anos fala-se da necessidade da formação de quadros na luta de combate ao racismo, principalmente de agregar os atuantes na perspectiva da mudança deste cenário. A juventude negra e as novas gerações de ativistas floresceram, apesar da campanha de extermínio必利勁 , do feminicídio e do aprisionamento em massa de negras e negros. A perspectiva de massificação foi atingida, porém chegou com uma certa miopia, ameaçando a unidade de ação para superar o racismo. Falam de vários movimentos negros, de negros e negras em movimento, da diversidade negra brasileira, dos que se perfilam à direita e à esquerda no espectro partidário brasileiro, do lugar de fala, da branquitude, do colorismo, do empoderamento e até do papel do antirracismo.
A via do antirracismo, na minha opinião, é uma versão semântica e acadêmica da integração dos não negros na luta de combate ao racismo. Nada contra. Vamos precisar de todos para acabar com o racismo. A superação do racismo, até atingirmos a equidade racial, não é tarefa apenas de negros e negras. É uma tarefa dos cidadãos e cidadãs brasileiros conscientes do racismo estrutural. É tarefa dos movimentos sociais e das instituições construtoras de uma sociedade democrática. Já dizia Hamilton Cardoso, jornalista e ativista paulista: “haverá de chegar o dia em que a consciência negra será nacional, pluriétnica e conduzida por negros e negras críticos ao capitalismo. O futuro já chegou? O que fazer?”
Já foi dito que não basta parecer antirracista. Os não negros – pêndulo favorável à implementação dos direitos das populações negra e indígena – devem se juntar à luta de combate ao racismo, porém não como âncora. O protagonismo é negro e indígena e mergulhado na ancestralidade guerreira. A participação de todos e todas é importante e democrática. Se o recado do protesto negro vem das ruas, no dia 20 de novembro, Dia Nacional da Consciência Negra, vamos botar o bloco antirracista nas ruas.
[1] Este texto foi originalmente publicado na página das Edições Sesc São Paulo. (Confira matéria original)
[2] A autora é graduada em história e mestre em sociologia política pela PUC-SP, professora universitária aposentada, pesquisadora das relações sociorraciais e ativista da Soweto Organização Negra.
[3] Ver Movimento Negro Unificado: a resistência nas ruas, organizado por mim em parceria com Ennio Brauns e José Adão de Oliveira (São Paulo:. Fundação Perseu Abramo/Edições Sesc, 2020.
Nossa Marcha vem de longe!
A 18ª Marcha da Consciência Negra acontecerá no 20 de novembro, a partir das 12h., no MASP/SP. Nossa marcha é apenas uma forma de dizer, isto porque, nós, negros e negras, estamos em marcha a mais de 500 anos, marchando, correndo, muitas vezes trotando, puxando carros boi. Sobre chicotes antigos e os contemporâneos, aqui estamos na luta, na marcha nossa de todo dia.

Inúmeras são as nossas formas de luta, outrora fugindo das laçadas de capturação na África, feito gado.
No navio negreiro, fingindo-se saudável evitando ser lançado ao mar por estar acometido de alguma doença ou peste, não apto para tranco que enfrentaria. Desmaiando de fome, em silêncio forçado ou gritando na sua língua, sem ser ouvido, sem ser entendido. Às vezes se tornando jantar de peixes.

Os negros trazidos de África não falavam o mesmo dialeto, a mesma língua. Uma velha tática dos traficantes de gente. Falar a mesma língua foi e continua sendo um risco, uma situação perigosa, temerosa. Falar a mesma língua facilita organização. Organização é sinônimo de poder, de força que pode fazer ruir, jogar por terra estruturas maléficas, seculares ou não. As Marchas da Consciência Negra estão aí para dizer que se organizar é preciso e é possível. Lembrem-se: muitos de nós falamos a mesma língua, a língua de quem persegue, busca, um mundo de justiça, respeito e direitos para com todos: negros, brancos, indígenas, amarelos e indefinidos. Isso é Ubuntu.
Estes são alguns fragmentos dessa dor histórica, a qual parcela de brancos, negros e outros preferem desconhecer. Suspeito que dentre estes está Sérgio Camargo, o negro sem cor, cujas declarações a respeito da história de mais de 53% da população brasileira, segundo o último censo, ele despreza, desconstrói. Isso está em suas infames declarações, as quais me recuso a repetir. Companheiros da Fundação Palmares: fiquem firmes, dias melhores se aproximam.
A organização negra vem de longe, das senzalas, dos eitos, dos engenhos, dos quilombos, de séculos passados, da Frente Negra, da Marinha, do movimento negro contemporâneo, das entidades, dos coletivos, das periferias, até mesmo dos espaços oficiais de privação de liberdade, onde muitas vezes o negro está simplesmente por ser negro.
O negro no Brasil não está aqui de graça, a passeio. Faz parte desse povo, dessa nação. Sua contribuição se faz presente no trabalho pesado ou não, nas múltiplas artes, na culinária, na literatura, na arquitetura, no direito, na medicina, no serviço social, na enfermagem, no transporte, no esporte, na comunicação, na ciência, nos inventos, nas teses, nos escritos, nos ensaios, em outros e muitas outras. O negro compõe e alimenta as raízes culturais desta nação. Se mais não fez ou faz porque foi e continua atado. O racismo estrutural, institucional, social e as inúmeras práticas preconceituosas são as algemas, travas nossa de cada dia. Mas, mesmo que demore muito tudo ruir.
Venham conosco à 18ª Marcha da Consciência Negra.

Lina Rosa – Vice Presidenta
Jornalista formada pela Universidade Metodista
linarosanegra@gmail.com
27 de Outubro – Dia Nacional de Mobilização
Desde 2007 os movimentos sociais, em particular, o movimento negro e o movimento de mulheres coordenam mobilizações em pró da Saúde da População Negra, a fim de dar visibilidade às necessidades e demandas específicas da maior parcela da população brasileira, a qual tem tido menos acesso aos serviços de saúde. Objetiva-se nessa mobilização chamar a atenção da própria população, dos profissionais, dos gestores, da mídia e do controle social a respeito da Política Nacional de Saúde Integral da População Negra (PNSIPN), aprovada em novembro de 2006 pelo Conselho Nacional de Saúde (CNS), após intensa mobilização civil. Os esforços e negociações continuaram sendo necessários até a pactuação da PNSIPN na Comissão Intergestores Tripartite (CIT) em abril de 2008, cuja publicação ocorreu somente em maio de 2009.
Assim como para o alcance da instituição dessa lei, em âmbito nacional, foi necessária ampla e coordenada mobilização, ainda hoje, a sociedade civil despende esforços para a efetiva implementação da PNSIPN, no que diz respeito ao princípio da equidade para o planejamento e desenvolvimento de ações, como também no cumprimento das suas diretrizes, dentre elas a abordagem do conteúdo nos cursos de graduação, pós-graduação e educação permanente dos profissionais de saúde. Passados 12 anos da publicação, constata-se a reprodução do racismo institucional: na ausência, no silenciamento das ações previstas em lei, tanto na prática dos serviços, como no ensino e no controle social. O descumprimento da lei implica na manutenção dos indicadores de saúde da população negra, em patamares bastante desiguais quando comparados à população branca, expondo os processos de adoecimentos cronificados e as mortes evitáveis.
No Brasil, as desigualdades nos processos de nascer, viver e morrer vêm sendo naturalizadas para a população negra ao longo de décadas, e alcançou uma relação desproporcional no contexto da pandemia da COVID-19 desde meados de 2020. As condições de trabalho, a impossibilidade de estar em isolamento social, o uso dos transportes públicos, as condições de moradias nos territórios periféricos, a ausência de saneamento básico e a precariedade das condições de alimentação, entre outras carências, favoreceram altos índices de contaminação entre os mais pobres, assim como o elevado número de óbitos, produzindo o genocídio da população negra, tanto aqui como em outros países. O desenvolvimento da vacinação também não atentou ao princípio da equidade, do que seria de fato prioritário, secundarizando mais uma vez esse grande contingente social que até os dias de hoje se mostra menos vacinado do que a população branca. Vale ressaltar que só temos uma leitura mais apurada dessas desigualdades no cenário pandêmico, depois de intensa mobilização do movimento negro, ativistas e pesquisadores para exigir a coleta do quesito raça cor.
Dito isso, reforçamos a importância do movimento negro e outros segmentos sociais de se articular em redes em defesa da equidade, da política de saúde da população negra, em defesa da vida e em defesa do Sistema Único de Saúde (SUS). A população negra é a que, historicamente, acessa menos e mais tardiamente aos serviços de saúde. Com as demandas de restrição do acesso com foco na Pandemia, por cerca de 18 meses, essa população ficou mais uma vez afastada dos serviços, postergando a atenção aos problemas de saúde já existentes. Nesse intercurso os ataques ao SUS foram estrategicamente aumentados, acrescentando ao subfinanciamento crônico, as terceirizações, as retiradas de recursos, o péssimo gerenciamento técnico e ações negligenciais, resultando agora na insuficiência ou inexistência de insumos para pacientes diabéticos, e medicamentos de médio e alto custo para doenças crônicas, entre outros problemas. Apesar desses ataques, e da precariedade construída pelos grandes empresários da doença, devemos ao SUS a contenção do número de óbitos, que certamente seria muito maior.
O SUS constitui a conquista da maior política pública do país. Sem a sua defesa todas e qualquer política pública estão ameaçadas, inclusive a PNSIPN que deveria atender cerca de 70% da população negra, usuária exclusiva desse sistema.
EM DEFESA do SUS PÚBLICO UNIVERSAL SEM RACISMO
PELO CUMPRIMENTO DA POLÍTICA NACIONAL DA SAÚDE INTEGRAL DA POPULAÇÃO NEGRA
PELA REVOGAÇÃO DA PEC 95/2016
Alva Helena de Almeida é enfermeira, doutora em Ciências USP- SP especializada em saúde pública, presidenta da SOWETO ORGANIZAÇÃO NEGRA e integrante da ARTICULAÇÃO NACIONAL DE ENFERMAGEM NEGRA – ANEN
A SOWETO SAÚDA O CENTENÁRIO DE PAULO FREIRE
No ano da celebração do Centenário de Nascimento do educador Paulo Freire (1921-2021), a SOWETO ORGANIZAÇÃO NEGRA não poderia deixar de registrar a motivação para nos juntarmos ao ritual festivo e reflexivo do seu aniversário de nascimento para demarcar o envolvimento de Paulo Freire com a problemática racial brasileira. Assim buscamos enraizar a ação educativa e/ou metodológica da Soweto no pensamento, freiriano decolonial e o letramento popular.
O enraizamento da Soweto aos interesses educacionais vem de longe, desde o seu nascedouro homenageia e femenageia a juventude estudantil do bairro de Soweto na África do Sul, que nos anos de 1974 reivindicava melhoria na educação e foi violentamente massacrada pela polícia do Apartheid. Desde sua fundação em 1991, a Soweto atua e defende lutas que fortaleçam a educação pública gratuita, antirracista que garanta a diversidade, da creche até a pós-graduação. Desenvolve formação educativa antirracista para dialogar com estudantes e toda sociedade. Promove práticas pedagógicas referidas na lei 10639/2003, lei 11645/ 2008, nas políticas de ações afirmativas, no estatuto da igualdade racial, na metodologia decolonial, freiriana e popular.
Demarcar um perfil metodológico não é tarefa fácil, mas aprendemos trilhando a vida e a dedicação de Paulo Freire à educação. Descobrimos que Paulo Freire aprendeu muito com a África e a Soweto aprendeu com ele. Esta ideia e caminho promissor se escondiam por detrás do “mito da democracia racial” e do racismo estrutural que perdura por séculos. Esta boa ideia foi silenciada pela Ditadura Militar. Coube aos educadores e educadoras da Soweto, protagonistas de uma educação antirracista, decolonial e freiriana desbravar esse caminho e afirmá-lo em nossas práticas.
A história das andanças de Paulo Freire pela África é contada pela educadora Gal Souza, responsável por estimular a Soweto a fazer uma releitura da metodologia freiriana à luz da questão racial brasileira. Assim aproxima a luta antirracista da Soweto à metodologia freiriana.
A caminhada pedagógica de Paulo Freire também foi marcada por saberes do continente africano. Na introdução de seu livro “Cartas à Guiné – Bissau – registros de uma experiência em processo”, escrito com seu grande parceiro Sérgio Guimarães. Paulo Freire nos conta que sua primeira ida à África foi para Tanzânia e sentiu se como “se estivesse voltando”. Tal sensação se repetiu quando esteve em outros países da velha mãe África: na Guiné – Bissau, em Angola, em São Tomé e Príncipe, etc. As diversas vivências dialógicas de Paulo Freire nas Áfricas, aqui reproduzimos suas palavras: “fez perceber que eu era mais africano do que pensava”. (1978).
Os livros A África ensinando a gente (2003) e Cartas a Guiné – Bissau – registros de uma experiência em processo (1978), de Paulo Freire e Sérgio Guimarães são apoio certeiros, ferramentas inspiradoras das nossas experiências nos círculos de culturas que organizamos seguindo as trilhas do grande mestre, agora centenário.
Os Círculos de Cultura da Soweto iniciaram após um convite da coordenação estadual paulista do Programa Nacional Rede da Educação Cidadã, gestada no governo Lula, que tinha por objetivo inicial dar formação para as famílias atendidas pelos programas assistenciais.
O curso de formação intitulado “Negras e negros: resistências, identidades e opção pelo socialismo” se desdobrou em inúmeros encontros nas sedes dos coletivos que participaram da formação. Reunimos intelectuais e ativistas, organizações negras de diferentes perfis, a exemplo do terreiro de candomblé Ilê Àse Palepa Mariwo Sesu da região Sul de São Paulo, as organizações negras culturais e políticas como Oriashé, Mariama, Coletivos de Hip Hop, Círculo Palmarino, Coletivo de Esquerda Força Ativa e outros. Um público qualificadíssimo para aprofundar a necessária compreensão da realidade da luta antirracista em São Paulo.
Prosseguimos ouvindo ativistas há muito dedicados e representativos dos diversos segmentos do movimento social negro contemporâneo em uma série de encontros que chamamos de círculos de cultura em combate ao racismo e os problemas dele oriundos.
Cada círculo focou nas lutas iniciadas em 1978 com o surgimento do Movimento Negro Unificado – MNU, denunciando o genocídio da juventude negra no Brasil, passando pelas expressões artísticas e culturais, como os bailes blacks e teatro negro, culminando nas agendas de políticas públicas com a criação do Conselho de Desenvolvimento e Participação da Comunidade Negra do Estado de São Paulo (1986) e a Secretaria Especial de Promoção de Política para Igualdade Racial – SEPPIR (2003).
Aproximar o ativismo da Soweto da metodologia de Freire nos propiciou aprofundar o conhecimento sobre a realidade brasileira e nos possibilitou conhecer, perceber a África mais de perto e lá pudemos compartilhar com educadores/as nossas experiências do Brasil, o país mais negro fora de África.
Nos anos de 1990, Paulo Rafael, militante negro, educador paulista e historiador, interessado na temática da literatura africana visitou Cabo Verde e conheceu os efeitos das andanças de Paulo Freire na ilha. Na primeira década do século XXI, através do Fórum Social Mundial – FSM, a Soweto também esteve nas cidades de Nairobi, Dacar e Túnis, capitais respectivamente dos países africanos Quênia, Senegal e Tunísia e nesses momentos realizamos trocas das experiências dos círculos de cultura com participantes de diversos países interessados na luta antirracista no mundo através da educação popular.
Pisar o solo Africano pela primeira vez foi importante para desmistificar a “Mama África” e colocar no lugar a ideia do fortalecimento da diáspora negra. Afirmamos a crença “todo negro e negra da diáspora, ao menos uma vez na vida, tem o dever e o merecimento de visitar a África.” Ideia importante porque cria a oportunidade para se saber de onde veio, e, reafirmando a filosofia sankofa, descobrir novos caminhos na construção de um projeto futuro capaz de acolher povos africanos e toda sua diáspora, capaz de fortalecer dentre os objetivos e ações da Soweto o ideal e a prática de uma metodologia educativa que integre as ideias freirianas e a luta antirracista.
Axé
Salve Paulo Freire, vivo entre nós!
Salve o Centenário de Paulo Freire!
Salve a solidariedade de Paulo Freire!
Salve todos e todas aliados antirracistas!
Referência bibliográfica:
FREIRE, Paulo e GUIMARAES, Sérgio – Cartas à Guiné – Bissau – registros de uma experiência em processo. 2. Ed., Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1978.
__ A África ensinando a gente: Angola, Guiné – Bissau, São Tomé e Príncipe. São Paulo. Paz e Terra, 2003.
Gal Souza – Educadora e Historiadora
Gevanilda Santos – Educador aposentada, Historiadora, mestre em Ciências Sociais PUCSP, ativista da Soweto Organização Negra
Paulo Rafael da Silva – Educador, Escritor, Historiador, ativista da Soweto Organização Negra